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Cannes: Mungiu bate recorde de aplausos, Na Hong-jin invade competição com alien e 'Garance' decepciona

Cannes: Mungiu bate recorde de aplausos, Na Hong-jin invade competição com alien e 'Garance' decepciona

Redação
19 mai 26

Imagem destaque

Divulgação

'Fjord'

O sétimo dia do Festival de Cannes foi dominado por um romeno, um coreano e uma francesa. Cristian Mungiu registrou a mais longa ovação da competição nesta edição. Na Hong-jin ainda incendiava os debates com sua invasão alienígena da noite anterior. E Jeanne Herry entregou ao festival sua decepção mais visível do dia, apesar de ter Adèle Exarchopoulos no papel principal. Ao cabo da segunda segunda-feira de festival, a briga pela Palma de Ouro ganhou novos contornos.

Mungiu em inglês — e com 12 minutos de ovação

O grande acontecimento do dia foi a estreia de Fjord, o sexto longa de Cristian Mungiu e seu primeiro inteiramente filmado fora da Romênia, além de seu primeiro em inglês e norueguês. A plateia do Grand Théâtre Lumière aplaudiu por 12 minutos — a ovação mais longa da competição nesta edição até aqui. No placar geral de ovações do festival, Paper Tiger, de James Gray, vinha em segundo lugar com dez minutos, e All of a Sudden, de Hamaguchi, com 11 minutos na sexta-feira. Tanto o diretor quanto Sebastian Stan e Renate Reinsve receberam as reações visivelmente tomados pela emoção. Mungiu discursou: "É bom que tenhamos esta arma maravilhosa, o cinema, para tentar entender o que se passa conosco. Acho que foi para isso que o cinema foi inventado."

O filme acompanha Mihai Gheorghiu (Stan), um engenheiro de software romeno que leva sua família devoutamente cristã de Bucareste para a Noruega rural, terra natal de sua esposa Lisbet (Reinsve), em busca de uma vida melhor. A paz dura pouco: quando marcas no corpo da filha mais velha levam os serviços de proteção à infância a retirar todas as cinco crianças da família enquanto investigam o caso, o que era uma história de integração cultural converte-se num duelo entre valores conservadores e o progressismo hiper-organizado da sociedade escandinava.

A crítica foi majoritariamente positiva, mas não unânime. A Variety elogiou o "roteiro intrincado e impecável" de Mungiu, que "desvia o espectador de qualquer conclusão firme ou julgamento confiante sobre os muitos temas em discussão", e destacou que Stan e Reinsve "ampliam corajosamente seu alcance" nessa "ambiciosa e perturbadora" obra. O Deadline considerou o filme digno da Palma de Ouro, elogiando sua inteligência feroz e sua recusa em tomar lados. O IndieWire foi mais reservado: descreveu a obra como "um filme que vai crescendo como uma bola de neve", mas apontou que Mungiu reduziu ao mínimo seus famosos planos-sequência devastadores e adotou um estilo visual cada vez mais austero à medida que a história se aproxima da estrutura de um drama judicial.

O Screen International foi mais crítico, considerando o drama "sem força suficiente". Uma perspectiva mais severa veio de críticos que acusaram o filme de simplificar o debate: um crítico argentino argumentou que, apesar dos gestos de equilíbrio, as simpatias de Mungiu são facilmente identificáveis — os pais religiosos são retratados como vítimas devotas, enquanto os assistentes sociais são vilões burocratas. O filme ficou com nota 79 no Metacritic. Distribuído pela Neon nos EUA e pela Diamond no Brasil, Fjord entrou imediatamente na lista de candidatos mais sérios à Palma de Ouro.

A “ressaca” de Hope: o debate continua

Embora a estreia de Hope tenha ocorrido na tarde de domingo, 17, foi ao longo desta segunda-feira que o filme do sul-coreano Na Hong-jin — primeiro filme do diretor em dez anos — dominou as conversas na Croisette e nas redes sociais, dividindo críticos e festivaleiros com uma intensidade raramente vista.

O épico de ficção científica — sobre uma invasão alienígena numa cidade costeira sul-coreana próxima à Zona Desmilitarizada — sacudiu o festival com uma ovação de seis a sete minutos, com a plateia aplaudindo durante ao menos três grandes set pieces de ação ao longo da sessão. O elenco incluía estrelas coreanas como Hwang Jung-min, Jo In-sung e Jung Ho-yeon, ao lado dos hollywoodianos Michael Fassbender, Alicia Vikander e Taylor Russell. Na Hong-jin, emocionado, agradeceu a plateia por "permanecer nos assentos até o final de um épico tão longo".

A recepção crítica foi das mais polarizadas do festival. O THR disse sentir desde o primeiro frame que estava "nas mãos de um autor de gênero confiante" e elogiou a "cinematografia virtuosa, trilha sonora pulsante e personagens bem construídos". O Deadline foi ainda mais longe, afirmando que Na Hong-jin "supera Hollywood no próprio campo de batalha de Hollywood" e comparou o trabalho de captura de movimentos ao de Avatar. Já o IndieWire foi na contramão: criticou os efeitos visuais dos alienígenas como "sem peso" e "inacabados", evocando "estética de videogame dos anos 2000", e sugeriu que o cineasta teria apressado a pós-produção para cumprir o prazo de Cannes. O IndieWire atualizou sua análise dos candidatos à Palma afirmando que o júri de Park Chan-wook poderia premiar o filme pela sua dimensão comercial e de entretenimento, mas que ele funciona melhor para o público jovem e para as bilheterias do que para um painel de jurados. O filme havia chegado a 75% no Rotten Tomatoes com 12 críticas.

Garance e o “desperdício” de Exarchopoulos

Garance, o novo filme da diretora francesa Jeanne Herry — com Adèle Exarchopoulos no papel de uma jovem atriz talentosa em luta contra o alcoolismo —, foi a estreia mais fria do dia na competição. O Deadline reconheceu que Exarchopoulos "se diverte muito com esse personagem irritantemente autodestrutivo", mas lamentou que "boa parte do apelo do filme evapore quando a sobriedade chega e é dado tempo demais aos sermões de um médico santamonioso". O consenso geral foi que o talento da protagonista de Azul é a cor mais quente é superior ao que o roteiro lhe oferece.

O festival em perspectiva

Um balanço publicado nesta segunda-feira pelo World of Reel chamou a atenção para uma tendência preocupante: com ainda dez filmes por exibir na competição, já eram sete os títulos com nota abaixo de 2 no painel da Screen International — o mesmo número que a edição inteira do ano anterior havia registrado. Sheep in the Box, de Kore-eda, liderava a lista negativa com apenas 1,4 — uma pontuação que "sugere desprezo", segundo o crítico —, seguido de perto por Parallel Tales, de Farhadi, com 1,7.

No topo do ranking da Screen International, Fatherland, de Pawlikowski, seguia líder com 3,3 pontos, com All of a Sudden, de Hamaguchi, logo atrás. Ao fim desta segunda-feira, o campo de candidatos à Palma havia se definido com clareza ao redor de cinco filmes: Fatherland, All of a Sudden, Paper Tiger, Hope e o recém-chegado Fjord — cada um carregando argumentos distintos, e o júri de Park Chan-wook com ainda seis filmes por ver antes do anúncio do vencedor, marcado para sábado, 23 de maio.