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Cannes: fim de semana teve ovações, "bidding wars" e Hollywood de volta à Croisette

Cannes: fim de semana teve ovações, "bidding wars" e Hollywood de volta à Croisette

Redação
18 mai 26

Imagem destaque

Divulgação

'Paper Tiger'

O fim de semana da 79ª edição do Festival de Cannes foi o mais movimentado até agora: cinco grandes estreias — três na competição principal, uma no Un Certain Regard e outra no mercado —, pelo menos três guerras de aplausos cronometradas na saída do Grand Théâtre Lumière, uma disputa milionária de lances e um telefonema sem resposta que se tornou o momento viral do festival. Quando a poeira baixou no domingo, dois filmes haviam se firmado como favoritos à Palma de Ouro e um estreante havia surpreendido a todos.

Hamaguchi comove, Kreutzer provoca e Firstman conquista

A sexta-feira começou cedo no Grand Théâtre Lumière para acomodar All of a Sudden, o novo filme de Ryusuke Hamaguchi, com 3 horas e 16 minutos de duração, o mais longo da competição deste ano. O drama sobre o laço entre uma diretora de casa de repouso parisiense e uma dramaturga japonesa com câncer terminal recebeu uma ovação de sete minutos no Grand Théâtre Lumière, com diversas pessoas na plateia vistas chorando abertamente. Hamaguchi, bastante emocionado, assistiu à cena ao lado de suas protagonistas, Virginie Efira e Tao Okamoto, que enxugavam as próprias lágrimas.

No painel de críticos da IONCINEMA, o filme obteve média de 3,3 — bem acima dos 2,7 de Asako I & II (2018), mas ainda abaixo dos históricos 3,8 de Drive My Car (2021). A crítica foi majoritariamente favorável: a Hollywood Reporter o descreveu como uma obra imperdível, embora o Deadline tenha advertido que, com toda a admiração que Hamaguchi merece, a longa duração se faz sentir desta vez. 

Na mesma tarde, chegou à competição Gentle Monster, da austríaca Marie Kreutzer, diretora do premiado Corsage. O filme tem Léa Seydoux no papel de Lucy, uma música de vanguarda cuja vida desmorona quando a polícia prende seu marido (Laurence Rupp) por suspeita de posse de material de abuso sexual infantil. A obra carrega um peso biográfico pesado: o protagonista masculino remete ao ator Florian Teichtmeister, parceiro de trabalho de Kreutzer que foi condenado em caso idêntico após as filmagens de Corsage. A recepção foi dividida. No Metacritic, o filme acumulou nota 71 entre nove críticos — "geralmente favorável". O THR elogiou Seydoux como "pura tensão nervosa — resoluta, vulnerável, furiosa e destruída ao mesmo tempo", enquanto o Deadline lamentou que a narrativa fosse "sobrecarregada" para o que poderia ter sido um drama mais limpo. A Screen International e a Variety foram mais frias, apontando um desequilíbrio estrutural no terceiro ato.

 

Grande destaque veio da Um Certain Regard

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'Club Kid'
Já o grande estouro da sexta-feira veio do Un Certain Regard. Club Kid, estreia na direção do comediante e ator Jordan Firstman, recebeu uma ovação de sete minutos, com a coprotagonista Cara Delevingne emocionada até as lágrimas. O filme segue Peter, um promoter de festas gay em Nova York cuja vida de excessos é sacudida quando uma criança britânica de dez anos aparece à sua porta, filho que ele nem sabia que tinha. A crítica foi unanimemente calorosa: o IndieWire saudou Firstman como um "grande talento narrativo com coração e humor", e o Deadline o chamou de "maravilhoso".

Kore-eda decepciona, e Gray rouba a noite

Na manhã de sábado, o Grand Théâtre Lumière recebeu Sheep in the Box, o 17º longa de Hirokazu Kore-eda — vencedor da Palma de Ouro por Assunto de família (2018). A ovação durou apenas 3,5 minutos, com o diretor interrompendo os aplausos para pedir o microfone. Entre os mais entusiastas estava James Franco, que ficou de pé do último quadro até o fim das palmas.

O drama de ficção científica acompanha um casal japonês em luto que adota um robô humanoide idêntico ao filho morto. As avaliações foram, em sua maioria, negativas: IndieWire (C+), Screen International (negativo), THR (negativo) e RogerEbert.com (negativo), com apenas The Wrap adotando um tom positivo. A Variety foi a mais dura: enquanto Monster cortava afiado em cada cena, Sheep in the Box parece "nebuloso e jogado fora", sem estrutura capaz de sustentar a premissa. 

A noite foi de James Gray. Paper Tiger, drama criminal ambientado no Queens dos anos 1980, foi a estreia americana mais aguardada do festival. O filme, com Adam Driver e Miles Teller como dois irmãos enredados na máfia russa, recebeu uma ovação de dez minutos no Grand Théâtre Lumière. Mas o momento que dominou as redes sociais foi outro: Gray tentou ligar pelo FaceTime para Scarlett Johansson — que não pôde comparecer por estar filmando o reboot de O exorcista — para que ela pudesse participar à distância da ovação. A atriz não atendeu, e o diretor balançou a cabeça fingindo desespero enquanto a chamada caía no correio de voz.

A recepção crítica foi das melhores do festival: o IndieWire declarou que Driver entrega "a melhor atuação de sua carreira" numa "tragédia devastadora"; o Telegraph britânico deu quatro estrelas e o comparou a Operação França; a Time o descreveu como o tipo raro de thriller "que te segue para casa". 

Guerra de lances e declarações políticas

Nas 24 horas seguintes à estreia de Club Kid, uma disputa com ofertas na casa dos oito dígitos explodiu entre os grandes estúdios. Um comprador de estúdio descreveu o filme ao Deadline como "de longe o mais comercial do festival: funciona em vários níveis para diferentes faixas etárias". A A24 foi apontada como favorita, mas a concorrência era forte.

Na coletiva de Paper Tiger, Gray falou abertamente sobre política: "Quando o mercado é a única coisa que importa, é devastador — e o atual presidente americano é um sintoma disso", disse o diretor.

Ao final do fim de semana, o consenso na Croisette era claro: All of a Sudden e Paper Tiger haviam se tornado os dois maiores favoritos à Palma de Ouro — com Fatherland, de Pawlikowski, ainda muito vivo na disputa. A segunda semana do festival, com filmes de Pedro Almodóvar, Ira Sachs e Na Hong-jin ainda por vir, promete uma batalha acirrada.