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O terceiro dia do 79º Festival de Cannes foi marcado por contrastes gritantes: de um lado, o retorno triunfal — ao menos pelo calor do público — do iraniano Asghar Farhadi à Croisette; do outro, a recepção crítica mais fria que o diretor já enfrentou no festival. No mesmo dia, o polonês Pawel Pawlikowski também apresentou seu aguardado novo filme e saiu em melhor situação perante os analistas.
A estreia mundial de Parallel Tales, o décimo longa de Asghar Farhadi e seu primeiro em cinco anos, aconteceu na noite desta quinta-feira, 14, no Grand Théâtre Lumière e foi recebida com uma ovação de sete minutos. O diretor iraniano retornou à competição de Cannes pela quinta vez.
Ao fim da sessão, Catherine Deneuve abraçou a coprotagonista Isabelle Huppert e o próprio Farhadi, em uma cena que resumiu o clima de afeição com que o público recebeu o cineasta. O filme marca o segundo longa em língua francesa de Farhadi, livremente inspirado no episódio 6 do Decálogo de Krzysztof Kieślowski, e conta com elenco formado por Isabelle Huppert, Virginie Efira, Vincent Cassel, Pierre Niney e Adam Bessa.
Na trama, Huppert interpreta Sylvie, uma romancista famosa em busca de inspiração que passa a espionar os vizinhos do apartamento em frente. Quando contrata o jovem Adam (Bessa) como assistente, sua vida e sua obra se transformam de maneira imprevisível.
Crítica não foi tão generosa
Se a plateia do Lumière foi calorosa, os críticos especializados contam outra história. As publicações Variety, IndieWire, Screen, The Hollywood Reporter e The Wrap publicaram opiniões negativas, com o Deadline se destacando como uma das poucas vozes favoráveis entre os grandes veículos.
A Variety disse: “o filme consegue ser rigorosamente confuso sem ser particularmente complicado, com histórias que competem entre si para decepcionar o espectador”. Já o IndieWire foi ainda mais duro, descrevendo a obra como uma adaptação que transforma Decálgo num longa sobre nada, ao custo da humanidade tortuosa que caracterizava o original de Kieślowski.
O The Wrap, num tom mais equilibrado, reconheceu que o filme apresenta atuações impressionantes e uma tematização instigante, mas ressaltou a repetição irregular de sequências e ideias que tornam a obra mais pesada do que coesa. No painel coletivo de críticos da IONCINEMA, o filme obteve média 2,6, bem distante do 3,7 que Um herói, seu trabalho anterior em Cannes, havia conquistado em 2021.

Pawlikowski e Hüller fazem a plateia se levantar
O maior entusiasmo crítico do dia ficou com Fatherland, de Pawel Pawlikowski. O drama recebeu uma longa ovação de pé no Grand Théâtre Lumière e projetou imediatamente a protagonista Sandra Hüller como candidata à Palma de melhor atriz. O filme estrelado por Hanns Zischler como o Nobel Thomas Mann e pela indicada ao Oscar Sandra Hüller como sua filha Erika Mann recebeu seis minutos de aplausos.
Com lágrimas nos olhos, Pawlikowski discursou emocionado para a plateia: "Espero que ao menos 50% de vocês realmente tenham querido dizer isso". E acrescentou: "Pela primeira vez, realmente gostei de assistir a um dos meus próprios filmes."
A 79ª edição do Festival de Cannes ocorre de 12 a 23 de maio, sob a presidência do júri do cineasta sul-coreano Park Chan-wook.
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