Referência
no mercado de
cinema no Brasil
No dia 24/2, o Filme B publicou números chocantes sobre o cinema brasileiro em 2025. Foram 203 filmes lançados. Na ponta de cima, apenas 2 filmes venderam mais de 1 milhão de ingressos. Na ponta de baixo, o desastre: nada menos que 111 venderam menos de mil ingressos.
Como chegamos a essa situação calamitosa?
É verdade que a frequência às salas caiu no mundo inteiro. O streaming fragmentou a atenção, alterou hábitos e reduziu a centralidade cultural do cinema. Mas, no Brasil, essa crise foi potencializada por fatores estruturais próprios.
E não se pode alegar falta de recursos.
Entre 2023 e 2024, foram destinados cerca de R$ 2,7 bilhões ao setor audiovisual por meio da Lei Paulo Gustavo. É legítimo perguntar: quantas obras com impacto real de público e circulação emergiram desse investimento? A avaliação desses resultados precisará ser feita com transparência e rigor.
Neste mesmo período, o Fundo Setorial do Audiovisual disponibilizou cerca de R$ 1 bilhão para o PRODECINE. Porém, nos últimos anos, a política setorial passou a enfatizar ainda mais a descentralização de recursos e a entrada contínua de novas produtoras. Esses objetivos podem ser legítimos e necessários do ponto de vista cultural e federativo. O erro surge quando não são acompanhados de políticas de sustentabilidade empresarial, escala e formação de audiência.
Diversificar sem estruturar é pulverizar.
Somou-se a isso a crônica imprevisibilidade das chamadas do Fundo Setorial do Audiovisual, que inviabiliza planejamento por produtoras e distribuidoras. Por exemplo, em março de 2026, o setor ainda aguarda a publicação das chamadas de desempenho artístico e comercial referentes a 2024.
Nenhuma indústria madura opera sob incerteza permanente.
O resultado é previsível: produção elevada, impacto baixo, baixíssimo e o enfraquecimento das empresas capazes de operar em escala.
O objetivo nunca deveria ser apenas “descentralizar” e “entrar”, mas aprender, estruturar, crescer, com o objetivo final de alcançar o público.
Modelos internacionais bem-sucedidos combinam formação, apoio a estreantes com incentivos progressivos por performance e, fundamental, estímulo à consolidação empresarial.
Por fim, mas não menos importante, persiste o inexplicável impasse na regulamentação do streaming no Brasil — talvez o último grande mercado audiovisual relevante ainda a operar sem obrigações de investimento local. Simplesmente inaceitável.
Isso significa que bilhões gerados no mercado brasileiro continuam sendo drenados para fora do sistema produtivo nacional.
Diante desse cenário, a pergunta que precisa ser feita não é quantos filmes produzimos.
É quantos brasileiros estamos alcançando.
Sem previsibilidade regulatória, estratégia de circulação e integração com o ecossistema digital, a produção continuará crescendo — e a relevância cultural diminuindo.
Com seus erros e acertos, era assim que caminhava a estratégia para o setor, a partir da Lei do Audiovisual em 1993, da criação da Agência Nacional do Cinema em 2001, do FSA em 2006, da Lei da TV Paga em 2011 e da expansão industrial que se deu até 2020 (apesar da freada causada pela crise política em 2017). Não por acaso, em 2019 foi lançado o filme de maior bilheteria da história do cinema brasileiro, Minha mãe é uma peça 3.
Após a dupla tragédia da pandemia e do desmonte institucional recente, esperava-se a rápida retomada de uma política estruturante.
Finalmente, parece que esse momento chegou. O Conselho Superior de Cinema acaba de aprovar o Plano de Diretrizes e Metas do Audiovisual 2026–2035, iniciativa que reconhece os desafios estruturais do setor e busca estabelecer diretrizes para seu desenvolvimento na próxima década. O diagnóstico institucional, portanto, parece que existe.
O que o setor aguarda agora, e com urgência, não é mais planejamento, mas execução com previsibilidade, eficiência e foco no público.
Porque produzir muito e alcançar pouco não é política cultural. É fracasso estratégico.
*Bruno Wainer é distribuidor e diretor da Downtown Filmes.
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