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Cannes: Malek se emociona em sessão de 'The Man I Love'; Marre surpreende com 11 minutos de aplausos

Cannes: Malek se emociona em sessão de 'The Man I Love'; Marre surpreende com 11 minutos de aplausos

Redação
21 mai 26

Imagem destaque

Divulgação

'The Man I Love'

O nono dia do Festival de Cannes foi marcado por emoções: um vencedor do Oscar em lágrimas, um diretor que filmou a própria ovação com câmera de mão, e uma obra sobre colaboracionismo que dividiu o júri informal dos críticos com a mesma obstinação com que divide o público. No tapete vermelho do Grand Théâtre Lumière, a presença de Demi Moore e Chloé Zhao — juradas do festival — ao lado de Halsey no lançamento de The Man I Love deu ao dia um verniz hollywoodiano raro nesta edição de vocação europeia.

A estreia mais aguardada do dia foi a de The Man I Love, de Ira Sachs, o segundo dos apenas dois filmes americanos em competição nesta edição — e o mais intimista dos dois. A obra recebeu uma ovação de dez minutos no Grand Théâtre Lumière, com Rami Malek, Tom Sturridge e Luther Ford em pé para receber os aplausos. Malek foi visto em lágrimas durante a celebração. Na plateia, uma imagem sintetizava o peso do momento: as juradas Demi Moore e Chloé Zhao aplaudiam de pé ao lado de Halsey.

O filme se passa numa Nova York vibrante do final dos anos 1980 e acompanha Jimmy George, um artista performático que vive um momento entre a doença e a morte. Malek interpreta um artista com Aids enquanto a crise de saúde pública devasta a comunidade artística da cidade.

A recepção da crítica foi uma das mais calorosas do festival. A Variety descreveu o filme como "uma obra surpreendentemente discreta e precisa", e a atuação de Malek como seu melhor trabalho desde Bohemian Rhapsody — o que é suficiente para "finalmente calar os críticos que sempre foram tão sarcásticos a seu respeito". A Hollywood Reporter foi na mesma direção, afirmando que Sachs reafirma sua posição como "um dos maiores cronistas do cinema da experiência queer". O Deadline elogiou especialmente a cena em que Malek interpreta uma versão hipnótica de "The Man I Love", de Gershwin — a canção que também dá título ao filme. O IndieWire concluiu: "este filme vai te machucar", enquanto o The Wrap saudou a obra como "um retrato monumental" da vida queer sob a sombra do HIV.

A Man of His Time: 11 minutos de aplausos e o diretor com câmera na mão

O grande acontecimento da manhã foi a estreia de Notre Salut (A Man of His Time, no título internacional), do francês Emmanuel Marre. O drama ambientado nos anos 1940, protagonizado por Swann Arlaud, rendeu uma ovação de 11 minutos — uma das mais longas da competição nesta edição. O detalhe que correu a internet: o próprio Marre portou uma pequena câmera de cinema dentro do auditório e foi filmando o elenco, a equipe e a ovação ao vivo.

O filme se passa em setembro de 1940, quando Henri Marre chega sozinho a Vichy enquanto o regime autoritário se instala. Falido, separado da família e carregando cópias de seu manifesto autopublicado, o homem de 49 anos está determinado a conquistar o que acredita ser seu lugar legítimo na nova administração — alegando querer salvar a França, enquanto serve à maquinaria da nova ordem com crescente habilidade. A história é pessoal: Henri Marre era o bisavô do próprio cineasta, um funcionário de Vichy cujo livro existia na família sem ser tabu, simplesmente sem ser discutido.

A crítica foi polarizada, mas com peso majoritariamente positivo. O Hollywood Reporter foi o mais entusiasta: descreveu o filme como "épico, sarcástico e surpreendentemente moderno", comparando seu estilo ao de alguém que "viajou de volta a 1940 com um iPhone e apertou o botão de gravação". O IndieWire foi mais crítico, classificando o método de Marre como "às vezes bizarro" — com trilha sonora anacrônica e zooms estilo sitcom que fazem o filme parecer "O Zona de Interesse se alguém de The Office o tivesse dirigido".

Minotaur e a Rússia de Putin no divã

Embora a estreia de Minotaur tenha ocorrido dias antes do dia 20, as resenhas mais longas só foram publicadas nesta quarta-feira, e o filme ganhou força nas discussões da Croisette. O sexto longa do russo Andrey Zvyagintsev — seu primeiro em nove anos — encerra um intervalo que inclui uma pandemia que quase o matou em 2021 (ficou internado no hospital por meses) e a invasão da Ucrânia pela Rússia no ano seguinte. A Variety foi entusiasmada: descreveu a obra como repleta de "raiva, desespero, metáfora elástica e o mais negro humor de cadafalso", ressaltando que o diretor está "em forma impecável".

Un Certain Regard: Godrèche traz o MeToo à tela com Annie Ernaux

Na Un Certain Regard, a estreia mais comentada do dia foi A Girl's Story, de Judith Godrèche — atriz que se tornou símbolo central do movimento MeToo francês em 2024 e que aqui estreia na direção de um longa-metragem. O filme é baseado no romance autobiográfico da vencedora do Nobel Annie Ernaux e é estrelado pela filha da diretora, Tess Barthélémy, como a jovem autora em 1958, quando deixa sua aldeia para trabalhar em um acampamento de verão, onde é seduzida pelo líder do acampamento. O filme foi recebido tanto como um ato político quanto como um ato cinematográfico.

Painel de apostas atualizado

Com apenas dois dias de projeções restantes antes da cerimônia de encerramento no sábado, o cenário de apostas para a Palma de Ouro começou a se cristalizar. Fatherland, de Pawlikowski, mantinha a liderança na maioria das previsões, com All of a Sudden, de Hamaguchi, e Paper Tiger, de Gray, logo atrás. Dois filmes japoneses — Nagi Notes, de Fukada, e o próprio All of a Sudden — acumulavam críticas calorosas e ovações consideráveis. The Man I Love entrou na corrida de atores com Malek, apontado por diversos críticos como um dos candidatos sérios ao prêmio de melhor atuação masculina. Fjord, de Mungiu, ainda figurava como o favorito mais citado pela Screen International.