Ricardo Alves Jr., produtor de 'Nosso segredo' e diretor de 'A professora de francês', fala da parceria com Grace Passô e diz: "Cinema de Minas está acontecendo"

Ricardo Alves Jr., produtor de 'Nosso segredo' e diretor de 'A professora de francês', fala da parceria com Grace Passô e diz: "Cinema de Minas está acontecendo"

Taiani Mendes
01 set 26

Imagem destaque

Denise dos Santos

O cineasta Ricardo Alves Jr. está em evidência em 2026 com dois filmes de destaque: ele é produtor de Nosso segredo (Vitrine), longa de Grace Passô que venceu o prêmio principal do Festival de Gramado, foi exibido no Festival de Berlim e disputa a vaga para representar o Brasil no próximo Oscar; e diretor de A professora de francês (Embaúba), um terror social estrelado por Grace Passô que ele desenvolveu por 10 anos e que agora ganha o mundo com exibições programadas para o Festival de San Sebastián e a Première Brasil do Festival do Rio.

Ricardo é fundador da produtora EntreFilmes, sediada em Belo Horizonte e na ativa desde 2012, responsável por filmes aclamados como Chuva é cantoria na aldeia dos mortos (Embaúba) e A flor do buriti (Embaúba), ambos de Renée Nader Messora e João Salaviza.

Em entrevista exclusiva à Filme B, o realizador, que estreou no cinema com Elon não acredita na morte (Vitrine) e foi premiado nos festivais de Brasília e do Rio nos últimos anos, falou sobre o bom momento do cinema mineiro, a expectativa em torno do lançamento do seu quarto longa como diretor, a parceria de longa data com Grace Passô e a trajetória de Nosso segredo, atualmente em cartaz nos cinemas do país.

O que os exibidores e o público podem esperar de A professora de francês, e quais as expectativas comerciais e com relação às primeiras exibições em San Sebastián e no Rio de Janeiro?

É um terror sobre o real. Eu e o roteirista Germano Melo tivemos a ideia logo depois da estreia de Elon, em 2016, no momento em que a gente vê claramente um reacionarismo saindo do chão no Brasil. Aí a gente falou: "Cara, acho que uma maneira de poder falar sobre isso é fazendo um filme de terror". E, sendo um filme de terror e um thriller psicológico, ele prende o espectador, é um filme onde a atenção tá sendo o tempo todo convocada. A gente vai ser distribuído pela Embaúba ano que vem e tá com aquele edital do MinC também, que, se eu não me equivoco, é de no mínimo 30 salas. Acho que vai ser muito bom estrear em San Sebastián e fazer essa dobradinha de logo já chegar no Rio, porque é uma coisa que às vezes não acontece — vide Nosso segredo, que estreou em Berlim e levou seis meses até chegar no Brasil.
 
Falando nisso, o timing da estreia de Nosso segredo no circuito brasileiro acabou sendo muito bom, dias depois da premiação em Gramado. Como foi a negociação de vocês com a Vitrine e como você avalia a trajetória do filme?
 
As distribuidoras sempre falam que do final de agosto ao início de setembro é um bom mês de lançamento, e a gente conversou muito com a Grace [Passô], porque uma coisa é a produção querer colocar o filme nos lugares e a outra é discutir junto com o realizador qual o caminho que ele quer fazer pra esse filme. A gente falava: "Olha, seria muito bom fazer uma coisa meio teatral, [...] pegar esse movimento do filme estar sendo falado, ir de cidade em cidade fazendo as pré-estreias e já lançar no cinema". E aí o que funcionava claramente era Gramado, então foi uma estratégia pensada e que bom que deu certo, né? Ele ser premiado criou um movimento maior, da própria imprensa falando do filme, das prés, do público... Estamos vendo uma participação por redes sociais muito forte, com as pessoas compartilhando e falando do filme. Esse timing foi muito acertado, a gente desejou e realmente foi ótimo. A espera depois de Berlim aconteceu porque o primeiro semestre no Brasil não tem muitos festivais. Tem o Olhar de Cinema, mas não seria uma boa data pro lançamento.
 
E como anda a expectativa em relação à escolha do representante brasileiro no Oscar?
 
Ali tem filmes muito fortes, que também estão fazendo carreiras internacionais e têm produtores internacionais fortes. A gente apresentou a candidatura e acho que estar junto desse conjunto de filmes já é um caminho muito interessante.
 
Divulgação
Equipe de 'Nosso segredo' em Gramado
 
O cinema brasileiro anda tendo dificuldade de encontrar sucessos sem ser os casos excepcionais indicados ao Oscar. Qual o seu diagnóstico, como produtor e diretor, do principal empecilho comercial do cinema brasileiro hoje?
 
O cinema é caro. Eu sou de 1982, então peguei muito cinema de rua. A gente ia pro cinema de rua com meus pais, e às vezes via um filme entre uma tarefa e outra. Minha mãe podia pagar pra mim, pra ela e pra um primo. Hoje você vai fazer isso e é um valor caro. Mas quando tem a Semana do Cinema os cinemas ficam lotados. Outro fator, eu acho, é que a gente precisa de mais salas de cinema. Tá uma dificuldade imensa de conseguir a pauta pros filmes estrearem. Deveria existir uma política pública de abertura e manutenção de salas de cinema pra exibição de filme brasileiro. Só a cota de tela não dá conta. Ela é um caminho, é um dispositivo importante, mas não é o fim, não pode acabar aqui. Não é uma questão que tem que ser jogada pra realização do filme. O filme tem que chegar no público e o público tem que dizer: gosto ou não gosto, quero ou não quero. Temos políticas públicas pra produção, finalização e distribuição, mas tá com esse gargalo de exibição. Aqui em Belo Horizonte são poucas salas. A gente tem cidades que não vão estrear Nosso segredo porque não tem espaço. Vamos passar por um problemaço ano que vem, porque o edital do MinC de distribuição é robusto, tem muitos filmes, e prazo de lançamento curto, de um ano.
 
O cinema mineiro está em ascensão e sendo muito reconhecido nos festivais brasileiros e internacionais também. A que você atribui essa boa fase regional e o que ainda pode melhorar?
 
Apesar do governo do estado, o cinema de Minas Gerais tá acontecendo. A política pública de audiovisual e da cultura em geral foi desmantelada durante 8 anos. O cinema aqui tá acontecendo pelas políticas do FSA, principalmente pela cota regional, que é muito importante. O que eu acho bonito em Minas é que tem uma diversidade muito grande de filmes, mas sempre olhando pra uma espécie de cotidiano, pra sua realidade local. O cinema mineiro contemporâneo se estabelece muito dentro de um pensamento de política pública que foi gestado com a sociedade civil, que era o programa Filme em Minas. A gente aqui não fala em um "movimento do cinema mineiro", mineiro é meio quieto demais, né? Mas acho que hoje a gente pode falar que o cinema mineiro tem um movimento próprio, diverso, de gente, de força, de produção... De maneiras de produzir e de filmar diferentes, mas que estão aí com suas consistências e continuidade.
 
E as dificuldades?
 
Não é particularmente daqui, mas a grande dificuldade pra nós, produtores, é ter efetivamente um calendário, que a Ancine lance esse calendário contínuo pra gente poder trabalhar. Nós, produtoras pequenas e médias, trabalhamos com datas, pensando daqui a dois anos. A gente tem que estar sempre no futuro. Outra coisa é que sofremos muito em Minas porque foi cortado tudo o que era edital do estado. Fazer curta-metragem hoje tá muito difícil pros jovens aqui, e, sem a produção de curtas, a gente não vai ter novos realizadores.
 
Tanto Nosso segredo quanto A professora de francês têm coprodução com Portugal. O quanto isso é importante hoje em dia para a carreira de um filme?
 
A gente fica falando da nossa dificuldade no Brasil, mas a crise do cinema de arte é no mundo todo. Tá cada vez mais difícil os filmes conseguirem ser distribuídos em salas de cinema, então a coprodução já é um ganho pro filme, porque já te coloca distribuído em outros países. Em A professora de francês isso era muito importante pra gente e o projeto naturalmente já tinha essa característica desde o início, mas em Nosso segredo a coprodução entrou no processo de finalização, quando a gente precisava de alguns recursos.
 
E como é essa relação de longa data com a Grace Passô, tendo passado por diferentes dinâmicas de parceria (diretor-diretora, diretor-atriz, produtor-diretora)?
 
A gente se conhece há muitos anos, né... Vinte e tantos, dessa cultura aqui de Belo Horizonte, da relação com o teatro. [Sobre Nosso segredo] eu estava em São Paulo fazendo assistência de direção dela no espetáculo Pretoperitamar – O caminho que vai dar aqui, e um dia falei: "Grace, você tá ligada que o que você tá fazendo aqui já é um longa? Só não é no sentido formal, de câmeras, mas a gestão disso daqui, pelo tempo de pré-produção, de produção, é um longa. Chegou a hora da gente fazer seu longa". Aí ela: "Vamos dirigir juntos?". Nisso eu já trouxe pra ela a ideia do Amores surdos, que foi uma peça dela maravilhosa, montada aqui em BH. Falei: "Filme feito numa locação, transpondo isso pra uma questão contemporânea, mas eu não gostaria de dividir a direção com você, gostaria de estar no lugar de produtor e você como diretora. Como produtor eu vou poder estar contigo criando, porque produção é criar também. Criando o alicerce pra você fazer do seu modo de fazer cinema. Porque não tem regra, a gente vai criar o o espaço possível pra que você faça do seu jeito". No caso de A professora de francês o roteiro já foi escrito pra ela.
 
Divulgação
Grace Passô em 'A professora de francês'
 
Por fim, como você se coloca enquanto produtor criativo e o que você acha que é mais importante nesse lugar?
 
Eu acho que o produtor não pode ter um método de produzir, ele tem que criar o método através do filme. Pra muito produtor todos os filmes têm que se encaixar no mesmo modelo pelo orçamento e, se não der certo, corte do roteiro. Entendo que o modelo mais industrial de produção é assim, só que o que eu quero fazer e faço com os meus trabalhos é falar: "Como a gente pode fazer esse filme e criar um método para esse filme?". Eu sabia, no caso do Nosso segredo, que a Grace precisava experimentar com atores. Nesse filme eu tenho a Júlia Alves como produtora executiva, que também pensa assim. Então, juntos, vamos pensar o projeto não pra que o filme encaixe no orçamento, mas como fazer a dança do orçamento pra caber no filme. A mesma coisa com a Renée [Nader Messora] e com o João [Salaviza], como é que você faz um filme por um ano, na terra indígena dos Krahô, no Tocantins, em 16 milímetros? A gente tem que entender e criar sistemas possíveis pra ter os filmes com a particularidade que eles têm. Eu estou produtor, mas meu trabalho é direção. E acho que é importante também criar filmes, produzir filmes, com pessoas que você tem um afeto muito grande e uma parceria que tá além do trabalho.