Referência
no mercado de
cinema no Brasil
A Academia Brasileira de Cinema divulgou nesta segunda-feira (24) a lista de 15 filmes inscritos para disputar a vaga do Brasil na categoria de melhor filme internacional do Oscar 2027. No dia 9 de setembro, um comitê reduz a relação a uma pré-lista de seis títulos; no dia 16, anuncia o escolhido, que será submetido à 99ª edição do Oscar, marcada para 14 de março de 2027.
Mas a notícia por trás da notícia é outra: quantos desses filmes têm, de fato, distribuição internacional — e, sobretudo, nos Estados Unidos, onde a corrida ao Oscar é ganha ou perdida. A resposta, hoje, é enxuta. Apenas um punhado dos 15 tem distribuição garantida nos EUA, ainda sem datas específicas. Um segundo grupo está nas mãos de agentes de vendas internacionais que buscam compradores. O restante, por enquanto, é assunto doméstico.
Vicentina pede desculpas (Netflix)
Tem casa garantida nos Estados Unidos: trata-se de um original Netflix, que estreia direto no catálogo global da plataforma, EUA incluídos. Dirigido por Gabriel Martins (da mineira Filmes de Plástico) e rodado em Belo Horizonte, o drama foi selecionado para a seleção oficial do Festival de Toronto e para a competição principal de San Sebastián de 2026, onde disputa a Concha de Ouro — uma vitrine de peso às vésperas da temporada.
No quesito campanha, a Netflix é peso-pesado. A plataforma transformou a disputa em ciência: levou Roma, de Alfonso Cuarón, ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2019 e venceu a categoria internacional de novo em 2023 com Nada de novo no front, que faturou quatro estatuetas num ano em que a Netflix somou seis no total. Mais recentemente, Emilia Pérez liderou as indicações do estúdio. Traduzindo: se Vicentina for o escolhido, chega à disputa com um dos distribuidores mais experientes de Hollywood em campanhas do gênero.
Uma ressalva: mesmo com a distribuição garantida pela Netflix, Vicentina ainda não tem data confirmada de estreia nas salas americanas, onde precisa ser exibido por pelo menos um cinema por sete dias consecutivos — um passo necessário para cumprir a janela de exibição em cinema exigida pelas regras de elegibilidade do Oscar. Também precisa passar pelas telonas de outro país; no caso, o caminho natural seria o Brasil (data a confirmar).
Nosso segredo (Vitrine)
A estreia de Grace Passô na direção de longas já é um dos filmes brasileiros mais fortes do ano. Teve pré-estreia mundial na Berlinale 2026, na competição Perspectives (dedicada a primeiros filmes), com sessões esgotadas, e levou o Kikito de melhor filme no Festival de Gramado 2026. As vendas internacionais estão com a italiana The Open Reel, que representa o título no mercado — mas ainda sem distribuidor fechado nos EUA.
A natureza das coisas invisíveis (Vitrine)
O drama de Rafaela Camelo, sobre duas meninas que se conhecem num hospital, estreou na Berlinale 2025 (mostra Generation Kplus), venceu três prêmios em Gramado e mais dois na Mostra de São Paulo. Também é vendido pela The Open Reel, que já emplacou os direitos de TV na Espanha (Sundance TV) e em Portugal (RTP). Nos Estados Unidos, porém, ainda não há acordo comercial.
Dolores (California)
Codirigido por Marcelo Gomes e Maria Clara Escobar, o drama onírico sobre três gerações de mulheres estreou no Festival de San Sebastián, na mostra Horizontes Latinos, e passou pelo Festival do Rio antes de chegar às salas brasileiras. Completa o trio representado internacionalmente pela The Open Reel — de novo, com vendas em curso, mas sem janela americana confirmada.
Ato noturno (Vitrine)
O thriller erótico de Filipe Matzembacher e Marcio Reolon (título internacional Night Stage), ambientado em Porto Alegre, estreou na Berlinale 2025 (Panorama) e foi o filme de encerramento do BFI Flare, em Londres, além de passar pelo Festival do Rio. Os direitos internacionais estão com a alemã m-appeal, mas ainda sem distribuidor americano anunciado.
Feito pipa (Paris)
Um dos grandes fenômenos de festival da safra: o filme cearense de Allan Deberton, com Lázaro Ramos, venceu dois prêmios na Berlinale 2026 (Generation Kplus, sob o título internacional Gugu’s World) — o Urso de Cristal e o Grande Prêmio do Júri Internacional — e foi o filme mais premiado do Festival de Gramado 2026, com quatro Kikitos (entre eles direção e atriz), embora o de melhor filme tenha ficado com Nosso segredo. Apesar do prestígio, ainda não fechou distribuição comercial nos EUA.
Malês (Imovision)
O épico histórico dirigido por Antonio Pitanga — sobre a Revolta dos Malês, de 1835, na Bahia, com Camila Pitanga no elenco — teve pré-estreia no Festival do Rio de 2024 e venceu o 28º Festival de Cinema Brasileiro de Paris. Nos Estados Unidos, sua presença até agora é acadêmica e de festival (com sessão e debate em Harvard), sem lançamento comercial contratado.
100 dias (Disney)
O primeiro longa brasileiro de ficção em live-action de Carlos Saldanha — diretor de Rio e da franquia A Era do Gelo em Hollywood — recria a travessia solitária de 100 dias de Amyr Klink pelo Atlântico, com Filipe Bragança no papel principal. É o único título da lista com um grande estúdio por trás no Brasil, a Disney. Isso, somado ao trânsito de Saldanha nos EUA, torna o filme uma aposta natural para uma eventual campanha americana — embora nenhum acordo de distribuição nos Estados Unidos tenha sido anunciado até aqui.
Cinco tipos de medo (Downtown)
Grande vencedor do Festival de Gramado 2025 — levou quatro Kikitos, entre eles o de melhor filme —, o longa de Bruno Bini, com Bella Campos e Xamã, é ambientado em Cuiabá e estreou em mais de 300 salas. Nos bastidores, porém, mira o mercado internacional: as vendas estão com a Malin Entertainment, e a Ashé — produtora de Viola Davis, Julius Tennon e Maurício Mota — entrou como produtora executiva para tocar uma campanha de Oscar, com sessões em Los Angeles. Um distribuidor americano, ainda assim, não está fechado.
Papagaios (Olhar)
Sátira de Douglas Soares sobre a busca por fama na TV brasileira, venceu quatro Kikitos em Gramado 2025, incluindo o de melhor filme pelo júri popular e o de melhor ator (Gero Camilo). Sem distribuição internacional confirmada.
Herança de Narcisa (Olhar)
O drama sobrenatural de Clarissa Appelt e Daniel Dias, com Paolla Oliveira, levou o troféu Redentor de melhor longa por voto popular no Festival do Rio. Carreira, até aqui, doméstica.
A conspiração Condor (Pandora)
Thriller político de André Sturm sobre as mortes de Juscelino Kubitschek e João Goulart, em 1976, e a sombra da Operação Condor. Estreou nos cinemas em abril de 2026, em carreira nacional.
A fabulosa máquina do tempo (Descoloniza)
Documentário de Eliza Capai que teve estreia mundial na Berlinale 2026 (mostra Generation). A diretora tem histórico internacional: seu Espero tua (re)volta foi premiado na Berlinale de 2019, incluindo o prêmio da Anistia Internacional. As vendas internacionais estão com a croata Split Screen, mas ainda sem distribuição comercial fechada no exterior.
Quando vira a esquina (TvZero)
Documentário de Chris Alcazar sobre as profissionais do sexo da Vila Mimosa, no Rio, passou pelo Festival do Rio e pela Mostra de São Paulo em 2024 e estreou no Canal Brasil. Percurso nacional.
O rei da internet (Manequim)
Cinebiografia de Fabrício Bittar sobre um jovem hacker brasileiro, com João Guilherme no papel-título. O filme participou da mostra competitiva do Miami Film Festival, do Festival Internacional de Cinema Independente de Buenos Aires, foi lançado em Portugal pela NOS Lusomundo Audiovisuais, e recentemente ganhou distribuição americana pela Magenta Light Studios.
Dois já defenderam o Brasil no Oscar
Entre os inscritos, há dois cineastas que já foram os escolhidos do país. Marcelo Gomes, codiretor de Dolores, representou o Brasil com Cinema, aspirinas e urubus, inscrito na 79ª edição do Oscar (2007), sem chegar à lista de indicados. E Gabriel Martins, de Vicentina pede desculpas, foi o representante brasileiro no Oscar 2023 com Marte Um, também sem avançar à reta final. Os dois voltam à briga — agora, um deles com a força da Netflix por trás.
Por que Yellow Cake ficou de fora
Uma ausência chamou a atenção: Yellow Cake (Olhar), ficção científica de Tiago Melo ambientada no sertão da Paraíba, era uma das apostas iniciais para representar o Brasil. Elogiado em festivais — estreou na competição principal (Tiger) do Festival de Roterdã de 2026, como único brasileiro, e abriu o Olhar de Cinema, em Curitiba —, o filme, no entanto, não foi inscrito para concorrer. Além disso, o Oscar exige exibição comercial por pelo menos sete dias consecutivos entre 1º de outubro de 2025 e 30 de setembro de 2026, e a estreia de Yellow Cake nos cinemas só está marcada para 29 de outubro de 2026 — depois do prazo. Ficou para o próximo ciclo.
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