Cannes: Almodóvar divide opiniões, Zvyagintsev entrega noir devastador e Refn chora na Croisette

Cannes: Almodóvar divide opiniões, Zvyagintsev entrega noir devastador e Refn chora na Croisette

Redação
20 mai 26

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Divulgação

'Natal amargo'

O oitavo dia da competição do Festival de Cannes 2026 foi marcado pelo retorno à Croisette de dois gigantes do cinema autoral contemporâneo, trazendo propostas estéticas e temáticas radicalmente opostas que incendiaram os debates na Riviera Francesa. Pedro Almodóvar dividiu os críticos com sua mais nova e labiríntica auto-metaficção, Natal amargo (Warner), que, apesar de reações mistas na imprensa, foi recebida com enorme entusiasmo pelo público no Grand Théâtre Lumière. Por outro lado, o aclamado cineasta russo Andrey Zvyagintsev entregou, segundo jornalistas, o retrato mais sombrio, cirúrgico e politicamente carregado do festival até agora com Minotaur. Nas mostras paralelas, o realismo social deu o tom na Un Certain Regard com o impacto cru de La más dulce, da diretora marroquina Laïla Marrakchi.

Almodóvar e a dolorosa autoficção de Natal amargo

Pedro Almodóvar cruzou o tapete vermelho cercado por um elenco estelar que incluía Leonardo Sbaraglia, Bárbara Lennie, Aitana Sánchez-Gijón, Milena Smit e Rossy de Palma para a aguardada estreia mundial de Natal amargo. O filme acompanha Raúl (Sbaraglia), um cineasta em crise tentando finalizar o roteiro sobre uma diretora cult atormentada por enxaquecas e crises de pânico. Na coletiva de imprensa, Almodóvar definiu a obra como um "díptico espiritual" com seu premiado Dor e glória (2019): "Em Dor e glória, a dor era física; neste filme, é uma dor agonizante, a dor do próprio processo criativo". Ao final da sessão, o público respondeu com uma calorosa e prolongada ovação de pé.

No entanto, a recepção da crítica especializada revelou uma forte polarização. O The Guardian descreveu o longa como "ligeiramente confuso", argumentando que a estrutura de "um diretor dirigindo um diretor que dirige um diretor" atenua o impacto emocional se comparado a Mães paralelas, embora tenha elogiado a atmosfera sensual e melancólica do mestre espanhol. O Screen Daily seguiu uma linha semelhante, chamando a produção de "intensamente pessoal, autoconsciente e melodramática ao extremo", apontando que Almodóvar retorna a um universo totalmente seu, mas com um roteiro irregular. Uma visão bem mais entusiasmada veio do Financial Times, que concedeu quatro estrelas ao filme, definindo-o como "sombriamente atraente" e mostrando "Almodóvar em sua forma mais ácida".

Zvyagintsev evoca Chabrol e Chaplin no "gélido" Minotaur

Se Almodóvar trouxe as cores quentes e o melodrama espanhol, Andrey Zvyagintsev congelou a plateia com Minotaur, seu retorno à Competição oficial. O filme é uma releitura "gélida" e "milimetricamente composta", nas palavras de críticos, de A mulher infiel (1969), clássico de Claude Chabrol, mas inteiramente transplantada para a Rússia contemporânea sob o peso moral e social da guerra na Ucrânia. A trama acompanha Gleb (Dmitriy Mazurov), um homem que suspeita da traição de sua esposa Galina (Iris Lebedeva), desencadeando um colapso doméstico silencioso e sufocante, emoldurado pela fotografia geométrica e precisa de Mikhail Krichman.

A crítica abraçou o longa com entusiasmo, consolidando-o imediatamente como um forte candidato aos prêmios principais. O World of Reel aclamou a obra como um "noir político frio e devastador", elogiando a habilidade do diretor em transformar uma crise conjugal em uma alegoria sobre a deterioração ética de seu país natal. O Screen Daily destacou o filme como um "thriller doméstico impecável" que justifica a prática de refilmagens devido ao seu novo e cortante contexto. A publicação ainda chamou a atenção para um surpreendente momento de humor ácido — uma sequência de farsa pura que evoca os clássicos do cinema mudo de Charlie Chaplin e Buster Keaton, na qual o protagonista tenta desesperadamente limpar os vestígios de um crime em um apartamento decadente da era soviética. 

Un Certain Regard: o sabor amargo de La más dulce

Na mostra Un Certain Regard, os holofotes se voltaram para La más dulce (Strawberries), o terceiro longa-metragem da diretora marroquina Laïla Marrakchi. O drama joga luz sobre as condições de exploração e vulnerabilidade vividas por mulheres imigrantes sazonais que trabalham na colheita de morangos na Andaluzia, Espanha, abordando temas complexos como discriminação de classe e violência sexualizada dentro do agronegócio europeu.

O desempenho da protagonista Nisrin Erradi, no papel da volúvel e intempestiva Hasna, foi o ponto alto do consenso crítico. O site AwardsWatch avaliou o filme com uma nota B, elogiando a cineasta por "dar visibilidade aos trabalhadores invisíveis de Marrocos" e destacando que Erradi evita transformar Hasna em uma mártir passiva, retratando-a de forma desconfortavelmente prática.

Refn e o termômetro na corrida pela Palma

Fora da competição oficial, o dia também guardou momentos de forte carga emocional na Croisette. O cineasta dinamarquês Nicolas Winding Refn apresentou sua nova e delirante fantasia, Her Private Hell. Durante os eventos de imprensa, Refn caiu no choro ao relembrar uma experiência de quase morte recente provocada por um problema cardíaco grave. A recepção ao seu novo filme foi divisiva: enquanto o Screen Daily o descartou como um mero "exercício de estilo sobre substância", o The Guardian saiu em defesa da produção, descrevendo-a como um "turbilhão onírico de estranheza".

Com o encerramento das atividades desta terça-feira, o termômetro da Palma de Ouro sofreu alterações importantes no painel dos críticos. Enquanto o Natal amargo de Almodóvar se distanciou do topo devido ao seu caráter divisivo, Minotaur subiu posições rapidamente nas bolsas de apostas, juntando-se a Fatherland, de Paweł Pawlikowski, e All of a Sudden, de Ryusuke Hamaguchi, na liderança dos favoritos do júri presidido por Park Chan-wook. Com poucos dias restantes de exibições antes do anúncio dos vencedores no sábado, 23, a disputa pelo prêmio máximo de Cannes entra em sua reta final em um clima de imprevisibilidade.