Referência
no mercado de
cinema no Brasil
Às vésperas de completar 30 anos, a Gullane chega à 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo para discutir a própria história. Na sexta-feira, 23 de outubro, às 19h, os irmãos Caio e Fabiano Gullane participam, ao lado da sócia Débora Ivanov, do painel “Gullane, 30 anos: da Retomada à era do Streaming”, no Solar Fábio Prado, com mediação da jornalista Ana Paula Sousa. O encontro abre as comemorações das três décadas da produtora, que serão celebradas ao longo de 2027.
Fundada em 1996, a Gullane atravessou a Retomada, a Lei do Cabo, a chegada das plataformas e a pandemia. Do catálogo saíram títulos como Bicho de sete cabeças, Que horas ela volta?, Bingo – O rei das manhãs e a franquia Até que a sorte nos separe, além de séries como Sintonia, Senna e Emergência radioativa, todas da Netflix. Em 2025, a empresa ampliou a atuação com a Gullane+, braço de distribuição comandado por Débora.
Em conversa por vídeo com o Filme B, Caio e Fabiano falaram de incentivos públicos e privados, da relação com o streaming, da janela de exibição, dos planos da distribuidora e da ameaça de extinção da Ancine, tema que voltou ao debate com o projeto de lei 994/2026, apresentado na Câmara pelo deputado Capitão Augusto (PL-SP). “A gente é determinantemente contra qualquer tipo de retrocesso nessa área”, diz Caio.
São 30 anos. Vocês passaram pela Retomada, pela pandemia, pela retomada pós-pandemia. No começo, nos anos 1990, tudo envolvia a Lei do Audiovisual. Depois vieram a Ancine, o Fundo Setorial e outros mecanismos. Como vocês trabalham hoje com incentivos públicos e privados, e como foi essa trajetória?
Fabiano: A Gullane vem de um sonho meu e do Caio de estruturar uma vida no universo do audiovisual. A nossa vocação sempre foi contar histórias. A gente não era da publicidade nem da televisão, tinha mesmo essa pegada do conteúdo cinematográfico, que depois se transformou em séries premium e documentários premium. Começamos do começo, fazendo curtas. Entre 1992 e 1995, antes da Retomada, fizemos muitos curtas de gente que depois ficou importante nos longas, como a Laís Bodanzky, o Beto Brant e muitos outros da nossa geração que também estavam começando. Foi uma escola muito intensa, e ali começou essa parceria de produzir juntos, de um completar o outro.
Sempre investimos no projeto independente e sempre achamos importante contar histórias brasileiras, de autores e realizadores brasileiros. Nesse primeiro momento do boom do cinema brasileiro, do fim dos anos 1990 até 2010 e pouco, talvez o mecanismo mais importante tenha sido a Lei do Audiovisual, mas o Artigo 3º, que permitia que os estúdios investissem em produção nacional e deu oportunidade para muita gente chegar ao mercado. Isso foi realmente uma primeira virada de jogo.
Quando chegam 2011 e 2012, com o Fundo Setorial e a Lei do Cabo, a 12.485, mudamos imediatamente o nosso mindset para ampliar a produção. Além de cinema independente, quisemos fazer televisão independente, e fizemos muitos projetos com a HBO, a Turner e outros grupos por meio desse mecanismo. Em 2017 e 2018 começa a chegada forte das plataformas de streaming querendo produzir aqui. A gente sempre acreditou no conceito plural da Gullane: não fazemos um tipo só de conteúdo, a nossa meta é a qualidade, seja qual for o gênero. Então pensamos: vai mudar o mercado de novo, e o Brasil vai ser protagonista também nesse mundo das plataformas. Hoje estamos organizados com braços para atender três mercados: cinema independente, televisão independente e projetos originais com as plataformas.
Caio: Foram as leis de incentivo que possibilitaram o surgimento de produtoras como a Gullane. Naquela época havia muitos diretores querendo fazer seus filmes, e nós enxergamos ali uma oportunidade: decidimos que iríamos produzir, e essa decisão nunca foi colocada em xeque. É uma característica rara, porque as produtoras da nossa geração eram formadas, na maioria, por diretores, roteiristas ou outros talentos. A gente firmou a ideia de ter uma empresa no papel de produtores, de empresários, de empreendedores, apoiada em alguns pilares que levamos até hoje: criatividade, qualidade e ética. E, junto com isso, a capacidade de se adaptar ao novo, porque tudo muda o tempo inteiro.
Nossa trajetória é clara: partimos dos editais estaduais e municipais, depois ampliamos para o Artigo 3º, criando relacionamento com as distribuidoras, e buscamos o Artigo 1º por meio das marcas e do marketing. A Gullane é uma das produtoras que mais captaram recursos via Artigo 1º na história da Ancine. Também pusemos um pé no internacional muito cedo. O Fabiano tem quase 30 credenciais do Festival de Cannes. No começo eu reclamava, mas insistimos numa coisa que, no início, era terra arrasada, e frutificou depois. Já o Bicho de sete cabeças veio com recurso internacional. Depois entramos na produção independente de TV com a Lei do Cabo e, quando chegou o streaming, também nos preparamos. Essa é uma característica nossa: nos preparar para cada uma dessas fases.
Já que estamos falando de política pública: vamos entrar num próximo governo e há um projeto de lei no Congresso que propõe extinguir a Ancine. Vocês estão acompanhando isso? Como isso afetaria vocês e a indústria?
Caio: A gente viveu uma experiência muito maléfica para o setor com o governo anterior. Está claro que um país como o nosso, com um mercado tão consumidor, precisa ter realização brasileira, filmes e audiovisual que representem o país, sem precisar estar ligado diretamente a um streaming ou a um serviço. Temos que garantir as propriedades intelectuais para os produtores e realizadores independentes. Demoramos décadas para construir um conjunto de regras para o fomento e as políticas públicas que foi invejado pelo mundo inteiro. Como todo conjunto de políticas, ele tem críticas e coisas a melhorar, mas foi o que possibilitou, inclusive, a Gullane existir hoje. Então a gente é determinantemente contra qualquer tipo de retrocesso nessa área.
A Ancine é uma agência, como várias outras, que tem um papel fundamental no nosso setor. Ela precisa cada vez mais se modernizar e ampliar o diálogo com o setor. Seja qual for o cenário, vamos manter a atenção o tempo inteiro e pleitear a continuidade desse trabalho.
Fabiano: Sem política pública, não é só o Brasil: qualquer país que não seja falante de inglês já está dominado, seja Alemanha, França, Itália, Espanha, Canadá ou Colômbia. O nosso mercado já é dominado, com raras exceções: no cinema, 95% são filmes americanos; nas plataformas, 97% são conteúdos americanos. Na música e na literatura, muitas vezes, é igual. Se não tivermos um cuidado estratégico com a política pública, que não é só uma questão de cultura e identidade cultural, mas também de mercado, de indústria, de uma fonte enorme de receitas para o país… O setor audiovisual emprega mais do que a indústria automobilística. É muito importante que as políticas públicas continuem, para o mercado brasileiro do audiovisual e para todas as outras áreas da economia criativa.
Vocês produziram muito para o streaming, principalmente para a Netflix: Sintonia, Senna, Emergência radioativa, Nando entre dois mundos. Como lidam com o fato de serem prestadores de serviço para uma plataforma e, supostamente, não terem os direitos dessas obras?
Caio: São modelos de negócio diferentes, e isso é prática em vários lugares do mundo. A nossa característica é atuar nas duas pontas. Seguimos como uma das produtoras que entregam de dois a quatro projetos independentes por ano. São 30 anos e 83 filmes independentes realizados, um número bastante volumoso, que mostra como é importante para nós ter essas propriedades. Mas, quando percebemos as oportunidades e as tendências de mercado, nos mantemos ativos. Então produzimos, sim, para o streaming, e continuaremos produzindo. Encontramos internamente um equilíbrio para atender aos dois modelos, e hoje existem até modelos híbridos, como o pré-licenciamento, que ocupa o lugar do que antes se fazia com uma televisão. Uma coisa não exclui a outra, e não queremos abrir mão de nenhum dos dois modelos de negócio.
Fabiano: O que falta é a terceira perna do tripé. De um lado, a produção independente, com todo o conjunto de leis que temos. Do outro, as produções originais para plataformas, que são relações privadas entre uma plataforma e a produtora que ela contrata. No meio, está faltando a regulamentação do streaming, porque aí teremos uma terceira fonte de receita para o mercado, que vai aumentar a presença da obra brasileira nas plataformas. Isso é o mais importante hoje. As médias publicadas, inclusive pelo Filme B, são muito pequenas: todos os streamings, com exceção do Globoplay, têm menos de 5% de conteúdo brasileiro. A regulamentação vai abrir um novo caminho para produzirmos também de forma independente para o streaming.
Mas também é importante para o Brasil ter o streaming como uma entidade privada que faz negócios privados e compra conteúdo. Pouco tempo atrás havia um ou dois compradores para as janelas grandes. Hoje você tem cinco ou seis opções para fazer uma primeira venda grande depois do cinema. O próprio streaming diz: se você tem desejo como artista e realizador de fazer o seu projeto e manter os direitos, faça e venha me vender. Já fizemos isso, com filmes de vários tamanhos que o streaming comprou prontos. Não dá para colocar uma coisa contra a outra. O mundo não tem como fugir dessa atividade, que hoje virou o consumo majoritário de audiovisual.
Quando uma plataforma faz uma pré-compra ou licencia um filme lá no começo, isso já estabelece uma janela. Como vocês veem a janela de cinema e a importância dela?
Caio: Certamente precisa melhorar. Temos alguns exemplos de filmes que estavam performando no cinema e precisaram entrar no streaming antes. Mas, primeiro, vamos lembrar: isso não está regulado. Trata-se de uma livre negociação entre o streaming e quem está vendendo o filme. A nossa opinião é que deveria haver uma janela de pelo menos dois meses, nove semanas de cinema.
Fabiano: Nove semanas é um número de que o mercado fala. O nosso mercado independente, de distribuidoras e produtores independentes, gostaria de ter pelo menos nove semanas asseguradas no cinema. É isso que estamos buscando, também como parte da regulação.
E queria deixar registrado, sobre produzir para os streamings, que a indústria brasileira, considerando produtores, atores, diretores, todo mundo, só está pronta hoje para fazer séries e projetos enormes para as plataformas porque tivemos essa realidade da produção independente no Brasil. Só conseguimos produzir um Senna, uma Emergência radioativa e essas séries que fazem muito sucesso no streaming porque o Brasil formou um mercado independente por meio desse conjunto de políticas públicas. Os streamings chegaram e o mercado, inclusive o de fornecedores, já estava meio pronto para eles.
Vocês começaram na Retomada com Bicho de sete cabeças e depois fizeram de tudo: streaming, Senna, Emergência radioativa, Bingo, que foi o representante do Brasil no Oscar. Nos eventos de mercado, cada distribuidora ou produtora diz qual é o seu perfil. Caio disse que o critério de vocês é a qualidade. Sem cair no clichê: qual é a identidade da Gullane hoje?
Fabiano: Dramaturgia de alta qualidade. É o que mais fazemos: dramaturgia premium, seja para o cinema, seja para séries. Esse é o DNA da Gullane. Dentro disso, temos três produtos: filme, série e documentário. E não temos muito preconceito de gênero, ao contrário. Fizemos comédias bem-sucedidas, dramas bem-sucedidos, filmes crossover que funcionaram fora e dentro do Brasil, dramáticos, mais autorais. A Gullane tem esse perfil plural, mas sempre focado na dramaturgia de alta qualidade.
Caio: Acho que conquistamos uma visão clara dos projetos. Com as comédias, ficamos três anos no topo da bilheteria com Até que a sorte nos separe. Ao mesmo tempo, estivemos na competição de Cannes, de Veneza e de Berlim. Entregamos projetos com essas características, e isso também é fruto de uma equipe de anos. Somos três sócios com atuações plurais, o que é um caminho diferente: uma produtora acostumada a lidar com diversos gêneros e com equipes para isso. A qualidade é uma marca: em tudo que fazemos existe esse compromisso de entrega. Não é pelo giro, e sim pela obra. O nosso sonho de fazer cinema é contar histórias relevantes.
E o fracasso? Vocês já lidaram com ele? Como lidam?
Caio: Já, algumas vezes, e aprendemos. São muitos projetos. Mas não costumamos chamar de fracasso, porque, de certa forma, cumprimos o caminho proposto, dentro de todos os compromissos que o filme tinha estabelecido, seja com o streaming, seja no cinema independente. O Brasil tem dificuldade de encontrar o seu público. Falando de cinema aqui para o Filme B: estamos vivendo uma fase difícil, mas que aponta para um caminho muito interessante. Há filmes brasileiros que fizeram bilheterias gigantescas, outros virão, e o cinema brasileiro como um todo continua presente nos festivais. É mais um motivo para as leis se manterem dessa maneira. Não existe argumento para derrubar isso, inclusive economicamente.
Precisamos de interlocução com qualquer governo. O governo atual certamente é muito mais proativo, mas também precisa melhorar o seu diálogo. Fazemos isso há 30 anos, a ponto de uma sócia nossa ter se afastado da produtora para participar da política pública. É um trabalho constante, não existe pausa, como acontece com nossos colegas na França, na Argentina e na Itália que convivem com o cinema independente. O que mudou é que hoje também produzimos para o streaming, e fazemos bem: trabalhamos com todas as plataformas. Quando fazemos uma biografia como a de Marília Mendonça, um filme necessário, de orçamento enorme, quem chegou primeiro para comprar os direitos foi o streaming. Esse filme não aconteceria de outra forma. Então entendemos que são esses os desenhos.
E vida longa ao cinema e à sala de cinema. Para nós isso é importantíssimo. Foi emocionante ontem, na abertura da Mostra, ver os 50 cartazes e lembrar o quanto aquilo nos formou, ver uma geração de pessoas que conviveram ali e pensam o cinema. Essa é a essência da Gullane.
Falando em cinema, quais são os planos da Gullane+? Hoje vemos distribuidoras querendo produzir, como H2O e Paris, que já fazem isso há algum tempo, e produtoras entrando na distribuição, como vocês. Quais são os planos para os cinemas especificamente?
Fabiano: A Gullane, como produtora, o Caio, eu e a Débora acreditamos muito no tripé produtor, distribuidor e exibidor. Achamos essa combinação incrível. A primeira coisa é que a vocação da Gullane+ é se abrir para o mercado, não ser uma distribuidora restrita aos filmes da Gullane. Temos feito isso com algum sucesso. Pegamos o documentário sobre o Bituca, que coproduzimos, e ele fez 70 mil ingressos. Relançamos Iracema, do Jorge Bodanzky. Lançamos 3 Obás de Xangô, junto com alguns filmes nossos. Muitas vezes são filmes da própria Gullane que não encontram boas oportunidades de distribuição no mercado, e obviamente os trazemos para a Gullane+ para fazer o melhor possível. Mas acreditamos na Gullane+ como um núcleo de negócio independente, que vá construir uma carreira. Como tudo aqui, fazemos passo a passo, porque não temos uma fortuna para investir.
Convidamos a Débora Ivanov para ser a gestora da distribuidora. Ela está na linha de frente, com uma equipe muito boa: o Fred Avellar no marketing, o Alberto Neiva na programação e a Ana ajudando com vendas. Eu e o Caio participamos muito da seleção dos filmes que vamos distribuir. O planejamento tem etapas. Estamos na primeira, com filmes brasileiros no Brasil. Começamos a querer entrar na segunda, que é vender filmes brasileiros, inclusive filmes que não são nossos, fora do Brasil, aproveitando a nossa circulação no mercado internacional e atuando como uma espécie de agente de vendas. E, quando a coisa estiver um pouco mais estruturada financeiramente, entraríamos numa terceira fase, trazendo também filmes estrangeiros para lançar no Brasil.
Caio: A Gullane+ é um braço principalmente para dar vazão a projetos específicos que talvez não encontrem lugar ou não viabilizem negócios com outras distribuidoras. Mantemos relação com diversas distribuidoras para os projetos que precisam de empresas mais robustas e maiores. É uma maneira de fomentar alguns tipos de projeto. Como o Fabiano disse, 3 Obás de Xangô foi o documentário mais visto nos cinemas naquele ano. Agora vamos distribuir Elza, que acabou de ganhar o prêmio de melhor documentário no Festival do Rio e pode ser um filme bastante promissor. Para nós, é um trabalho de dar espaço a projetos específicos, com uma projeção de crescimento e a intenção de navegar também por esse modelo de negócio.
Fabiano: Só para puxar uma cordinha: é importante também que esse incentivo à distribuição entre na política pública. Sentimos que esse dinheiro está muito concentrado, até pelas regras do fundo, que permitem concentrar até 25% numa única casa. Os recursos de produção estão sendo bastante democratizados, mas os de distribuição ainda estão, de alguma maneira, concentrados. É outro pleito do setor: que os recursos do fundo ligados às distribuidoras sejam um pouco mais espalhados, sem tirar nenhum mérito de quem está fazendo sucesso e retornando dinheiro para o fundo. Temos três ou quatro distribuidoras brasileiras grandes, mas temos mais 25 pequenas e médias, que agora precisam se olhar de um jeito mais industrial. É também um recado e um movimento que a Gullane+ está fazendo com as colegas distribuidoras do mesmo porte.
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