Cannes: 'The Black Ball' faz história com 20 minutos de ovação

Cannes: 'The Black Ball' faz história com 20 minutos de ovação

Redação
22 mai 26

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Divulgação

'The Black Ball'

A reta final do Festival de Cannes 2026 foi sacudida por um acontecimento histórico na noite desta quinta-feira, 21. O Grand Théâtre Lumière testemunhou uma das maiores catarses coletivas de sua história recente durante a estreia mundial de The Black Ball, o ambicioso épico queer dirigido pela dupla espanhola "Los Javis" (Javier Ambrossi e Javier Calvo). As palmas e os gritos de aclamação ecoaram por impressionantes 20 minutos ininterruptos, registrando oficialmente a segunda maior ovação já documentada no festival, ficando atrás apenas dos lendários 22 minutos dedicados a O labirinto do fauno, em 2006. Com o júri presidido por Park Chan-wook prestes a se isolar para as deliberações finais, o penúltimo dia de exibições da mostra competitiva provou que a disputa pelo prêmio máximo ainda guardava sua maior reviravolta.

Baseado em um texto inacabado de Federico García Lorca, o longa transformou o tapete vermelho em um evento monumental, atraindo os holofotes do mundo inteiro para as presenças de Penélope Cruz e Glenn Close. Na tela, segundo jornalistas, a obra funde o melodrama trágico espanhol com uma estética barroca e uma urgência política avassaladora. Enquanto o cronômetro avançava no Palácio dos Festivais, os diretores e o elenco de apoio foram vistos chorando diante da reação avassaladora da plateia, que se recusava a sentar.

A imprensa especializada de Hollywood reagiu de forma imediata ao impacto do filme, que se posicionou instantaneamente na linha de frente dos favoritos à premiação de sábado. O The Hollywood Reporter aclamou o projeto como um triunfo estético audacioso, destacando que a direção de Los Javis consegue equilibrar a tradição teatral com uma linguagem cinematográfica pulsante, além de colocar Penélope Cruz como uma fortíssima candidata ao prêmio de melhor atriz. O Deadline foi ainda mais enfático ao afirmar que a produção espanhola injetou uma dose de paixão e grandiosidade que vinha fazendo falta na competição, abalando o favoritismo que até então cercava Minotaur, de Andrey Zvyagintsev. A Variety classificou a obra como uma "obra-prima barroca", celebrando a audácia da dupla de diretores em atualizar o espírito de Lorca para o público contemporâneo, enquanto o IndieWire se mostrou ligeiramente mais comedido com uma nota B+, elogiando o visual exuberante e a performance de Glenn Close, mas ponderando que o ritmo operístico do terceiro ato pode testar os espectadores menos habituados ao maximalismo estético dos realizadores.

Un Certain Regard: o realismo cru de La más dulce

Pouco antes do abalo espanhol na competição oficial, os debates na Croisette já estavam aquecidos pelas exibições da mostra paralela Un Certain Regard, onde o destaque absoluto foi o drama social La más dulce , dirigido pela cineasta marroquina Laïla Marrakchi. O filme mergulha na realidade crua e frequentemente invisibilizada de mulheres imigrantes sazonais que trabalham na colheita de morangos no sul da Espanha, abordando as dinâmicas de exploração laboral, discriminação de classe e abuso patriarcal dentro do agronegócio europeu.

A recepção da crítica internacional ao longa de Marrakchi concentrou-se na performance avassaladora da protagonista Nisrin Erradi, no papel da intempestiva e volúvel Hasna. Veículos como o Screen International elogiaram a capacidade da diretora em conduzir um retrato de denúncia sem cair no melodrama assistencialista, transformando o drama social em um thriller de sobrevivência tenso e realista que evita transformar sua personagem principal em uma mártir passiva. Embora alguns críticos do portal francês Le Film Français tenham apontado que o roteiro por vezes adota um tom excessivamente didático para sublinhar as mazelas corporativas europeias, o consenso geral foi de que o impacto emocional da narrativa consagra o filme como um dos concorrentes mais potentes aos prêmios principais de sua categoria nesta edição.

Com o encerramento das atividades desta quinta-feira, o termômetro de Cannes entrou em estado de ebulição. A entrada histórica e arrebatadora de The Black Ball quebrou a aparente polarização que se desenhava entre o niilismo rigoroso de Minotaur e o drama histórico Fatherland, de Paweł Pawlikowski.