Vera Zaverucha: Mais empresas, menos indústrias

Vera Zaverucha: Mais empresas, menos indústrias

Vera Zaverucha, artigo*
10 mar 26

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Divulgação

Vera Zaverucha

O audiovisual nacional não padece de escassez de capital, mas de uma falha estrutural em sua arquitetura de fomento; este é o diagnóstico crítico exposto por esta análise, que se fundamenta na reconstrução histórica do desempenho de longas-metragens brasileiros (com CPB emitido entre 2016 e 2025 e lançamento em salas como primeira janela).

Os dados, extraídos das séries históricas da Ancine (Agência Nacional do Cinema), revelam que o mercado de produção se consolidou como uma 'pirâmide de base larga e topo estagnado', na qual 85% das empresas permanecem retidas no Nível 1-2, sem conseguir ultrapassar a marca histórica de duas obras produzidas.

 
A ascensão empresarial, que deveria ser o motor de uma indústria saudável, foi interrompida por um gargalo temporal e regulatório. O tempo médio para uma produtora migrar do Nível 1 (iniciante) para o Nível 3 (status de média produtora) saltou de 4,5 anos, na geração 2010-2016, para uma projeção de mais de 9 anos no período atual.
 
Este atraso forçado não é apenas um dado estatístico; ele representa a insustentabilidade financeira de manter uma estrutura jurídica e técnica ativa por quase uma década para entregar apenas quatro obras. O hiato observado entre 2019 e 2022 no fluxo do FSA atuou como um "vazio" cronológico, adicionando até cinco anos de espera forçada na carreira de novos produtores. O resultado é um mercado onde 85% das empresas não conseguem sair do Nível 1-2, muitas fechando ou tornando-se inativas antes de consolidar sua trajetória industrial.

A eficiência comercial do setor entrou numa rota para baixo, evidenciada por um "efeito tesoura" perverso: o aumento nos custos de produção frente à deflação acentuada de público.

 
O ROI médio do setor, conforme as séries históricas de bilheteria e investimento público analisadas, que em 2016 permitia a recuperação, nas salas, de cerca de 59% do investimento do FSA/Incentivos, projeta-se para apenas 10% em 2026.
 
 
Um ROI de 0,10 indica que, para cada R$ 1,00 investido pelo FSA/incentivos em produção para salas de cinema no Brasil, apenas R$ 0,10 retornam via bilheteria. Mesmo os maiores players (Nível 5), que em 2016 apresentavam um ROI de 2,40, enfrentam hoje um cenário de ROI deficitário de 0,85. Os dados confirmam que o mercado de salas de cinema deixou de ser o modelo de negócio central da indústria para tornar-se uma janela de prestígio ou de cumprimento de metas regulatórias.
 
A descentralização da produção é um pilar inalienável para a nossa diversidade cultural e soberania nacional. No entanto, o modelo atual de execução ignora que a produção regional enfrenta barreiras logísticas que o mercado de salas pune severamente. Sem uma política de distribuição regionalizada e específica, colocar um filme de fora do eixo Rio-SP nas telas chega a custar ao Estado até 6,7 vezes mais caro do que uma obra produzida no eixo. O desafio, portanto, não é questionar a importância da diversidade, mas reformular as regras de escoamento para que o investimento público na produção regional não fique represado em um funil geográfico ineficiente.
 
 
No Nível 1-2, o Estado investe cerca de R$ 416 mil em fomento à produção para cada sala que uma produtora fora do eixo consegue ocupar, enquanto no Rio ou em São Paulo esse valor cai para R$ 138 mil. Essa disparidade não reflete a qualidade da obra, mas a ausência de uma estrutura de distribuição que sustente a descentralização. 
Sem uma política de acesso às telas que acompanhe o fomento à produção, o dinheiro público acaba financiando obras que ficam presas em um "funil geográfico", com lançamentos que raramente ultrapassam a média de 6 salas de exibição.
 
O caminho para a recuperação do setor exige a coragem de separar nitidamente as funções da Secretaria do Audiovisual (SAV) e do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA). Para que essa engrenagem funcione, é imperativo contar com um Ministério da Cultura forte, capaz de garantir que a SAV execute uma fatia estratégica dos recursos do FSA em modalidades não reembolsáveis (apoio com recursos não reembolsáveis).
 
À SAV cabe o papel de garantidora da diversidade e do acesso. É ela quem deve combater o "pedágio geográfico" que hoje torna a exibição de um filme regional até 6,7 vezes mais cara para o Estado do que uma obra do eixo RJ-SP. Sem o suporte não reembolsável para a base da pirâmide (Nível 1-2) e para o escoamento regional, a diversidade cultural continuará sendo uma "produção sem circulação".
 
Ao FSA, por sua vez, cabe a missão de indutor industrial. Seu foco deve estar com foco na escala para as empresas de Nível 3 e 4, e na exigência de metas de desempenho e internacionalização para o topo da cadeia (Nível 5), que hoje absorve a maioria dos recursos com retornos decrescentes.
 
O futuro do audiovisual brasileiro depende de aceitarmos que nem todo filme é indústria e nem toda empresa é iniciante. Se não reconstruirmos uma escada de crescimento sustentável — onde o Estado protege a cultura e o Fundo acelera a indústria —, continuaremos a queimar recursos em um modelo que ignora a perenidade das empresas em favor de um volume efêmero de CNPJ.
 
O sistema atual é excelente em criar CNPJs (Nível 1-2), mas falha em consolidar a "classe média" industrial (Nível 3), deixando o topo isolado e espremido e com rentabilidade decrescente.
 
Metodologia
 
Metodologia: A base de dados utilizada nesta pesquisa foi extraída do Sistema de Informações e Monitoramento da Ancine (Agência Nacional do Cinema), cruzando informações dos Certificados de Produto Brasileiro (CPB) com os dados de bilheteria e fomento do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA/incentivos fiscais) entre 2016 e 2025. Das informações obtidas junto à Ancine foram selecionadas obras destinadas prioritariamente ao mercado de salas de cinema como escolha, pelo produtor, de primeira janela de exibição. Esta pesquisa utiliza o Estoque de Capital Intelectual e Produtivo como régua de nível. Para cada obra analisada, a produtora foi classificada segundo o número de obras (Longas ou Séries) já produzidas até o ano de lançamento da obra em questão.
 
*Vera Zaverucha é ex-diretora da Ancine, especialista em políticas audiovisuais e autora do livro ‘Desvendando a Ancine’