Patricia Kamitsuji: “Não importa o tamanho do filme, o trabalho é achar o público certo”

Patricia Kamitsuji: “Não importa o tamanho do filme, o trabalho é achar o público certo”

Fabiano Ristow
13 ago 26

Imagem destaque

Flávio Florido / Filme B

Patricia Kamitsuji

A Imagem Filmes anunciou Patricia Kamitsuji como sua nova diretora-geral. Com mais de 30 anos de experiência na indústria audiovisual, com passagem pelas áreas de distribuição, produção e exibição, a executiva chega com a missão de impulsionar o desempenho da companhia e liderar um ciclo estratégico de lançamentos a partir do segundo semestre de 2026.

Ao longo da carreira, Kamitsuji participou da implantação da Cinemark no Brasil e foi gerente-geral da Hoyts General Cinema. Em 2003, tornou-se a primeira mulher diretora de vendas do mercado brasileiro, na Fox, onde criou a área de Trade Marketing. Em 2006, assumiu o cargo de managing director — novamente a primeira mulher no cargo —, posição que ocupou até 2019, e esteve à frente da operação conjunta entre 20th Century Fox e Warner Bros. no Brasil entre 2012 e 2019. No período, comandou lançamentos como Avatar, as franquias X-Men e A Era do Gelo, Deadpool, Logan, Rio e A culpa é das estrelas, líder de público em 2014, além de manter atuação próxima ao cinema brasileiro em títulos como Se eu fosse você, Nosso Lar e Ensaio sobre a cegueira. Entre 2019 e 2021, foi managing director da Universal Pictures no Brasil e, desde então, atuava como produtora e consultora.

Ativa desde 1998, a Imagem é responsável por sucessos como Vice, Os Mercenários 4, A substância e Backrooms: Um não-lugar, além de produções nacionais como Mamonas Assassinas — O filme. Para o segundo semestre de 2026, a distribuidora prepara um calendário encorpado, que inclui A morte de Robin Hood, da A24; a animação O bosque selvagem, do estúdio LAIKA; o coreano Hope, exibido em Cannes; e os nacionais Galinha Pintadinha — O filme e Por um fio.

Em entrevista à Filme B, Patricia falou sobre a transição dos grandes estúdios para uma distribuidora independente e destacou que o trabalho essencial do distribuidor é achar a vocação de cada filme e levar o máximo possível de seu público à sala. Disse que pretende combinar a nova distribuição com uma atuação forte na produção nacional, comentou o line-up do segundo semestre — com destaque para a animação O bosque selvagem e para o segmento religioso — e defendeu a venda antecipada de ingressos como caminho para aumentar a frequência do público no cinema.

Você construiu a carreira dentro de grandes estúdios — Fox, Warner, Universal — numa lógica de grande escala, e agora assume uma distribuidora de DNA mais independente. O que muda nessa passagem?

Existe, sim, uma diferença entre o modelo de um grande estúdio e o de uma independente. Mas, essencialmente, são filmes. Na Fox, por exemplo, a gente lançava os títulos da Searchlight, que hoje seriam tratados como filmes independentes, especializados, de nicho — e eu gostava particularmente de lançar esses filmes. A orientação sempre foi clara: não importa o tamanho do filme, o trabalho do distribuidor é encontrar o público certo. Às vezes você fazia 100, 150 mil pessoas e ficava muito feliz, porque era esse o objetivo daquele filme; às vezes fazia um milhão e meio e ficava triste, porque aquele filme precisava fazer dois ou três milhões. O trabalho essencial do distribuidor é justamente esse: identificar a vocação do filme e fazer com que o máximo possível de seu público vá ao cinema. E confesso que a independência tem uma vantagem: você não tem home office nem aquela estrutura pesada, com supervisores de diferentes setores. A responsabilidade é a mesma, mas a agilidade é outra.

A sua chegada à Imagem repercutiu bastante no mercado. O que te atraiu especificamente nesse convite?

Não foi uma decisão imediata. Depois que saí da Universal, me voltei para as coproduções — tenho projetos em que atuo como produtora criativa, associada e executiva, e é uma área de que gosto muito. Comecei na exibição, na chegada dos multiplexes ao Brasil, e depois fui para a distribuição, onde passei a maior parte dos meus 30 anos de carreira, quase 20 anos. A distribuição é isso: você faz o meio de campo entre quem vende o ingresso e quem produz o conteúdo que vai para a sala. O convite da Imagem veio num bom momento, e o que me chamou a atenção foi o line-up que eles montaram, muito poderoso para uma independente — eles investiram bastante. Tem uma animação, Alto nas nuvens, prevista para outubro de 2027, com a qual estou especialmente empolgada; cheguei a brincar que a gente ia trazer o Paul McCartney para o Brasil e me disseram “Patrícia, menos”. E, ao mesmo tempo, a Imagem também produz. É algo em que vou estar muito concentrada. Foi essa possibilidade de trabalhar tanto a nova distribuição quanto a produção que me atraiu.

Você mencionou a produção. Mamonas Assassinas — O filme foi um grande sucesso da casa. Que papel o cinema brasileiro terá na sua gestão?

A produção brasileira está cada vez mais importante. Nos últimos dois, três anos, o conteúdo brasileiro vem numa crescente, ganhando reconhecimento também nas plataformas e fora do país. O Brasil está produzindo e vivendo uma onda muito positiva. Meu plano é atrair produtores e novos projetos, oferecer um serviço de distribuição e de estratégia para as produções que a Imagem já tem em casa e trazer gente nova. Gosto de trabalhar bem próximo desde as fases iniciais, porque, quando o diretor está dirigindo, ele está focado no filme, não no lançamento nem em como aquilo vai conversar com a audiência. O trabalho do distribuidor não começa quando o filme termina — começa antes. Sempre com muito respeito à criação e ao roteiro: não sou diretora nem roteirista, mas já li muitos roteiros, e essa contribuição, quando bem-vinda, é boa para o resultado final.

A Imagem tem hoje um catálogo forte em terror — Backrooms: Um não-lugar, Terrifier 2, Baghead — e também no segmento religioso. Qual é o seu diagnóstico para a distribuidora neste momento?

Eu chego com uma experiência que ajuda bastante nesse ponto. Quando olho para um lançamento de temática religiosa, por exemplo, lembro que lancei A Paixão de Cristo numa época em que esse segmento nem existia como hoje. Então trago um repertório que aponta caminhos mais claros. Mas a audiência muda, e a questão é como trazer esse segmento para o público atual. O cinema é muito isso: saber como a audiência se comporta e comparece em cada gênero — e isso varia de país para país e muda o tempo todo; exige atualização constante. É o que me motiva: usar toda essa bagagem e, ao mesmo tempo, seguir aprendendo. Vocês acompanham os números toda semana; tem uma parte que confirma: “é isso mesmo, é o Brasil”, e tem as pequenas surpresas, gêneros que respondem de um jeito que você não esperava.

Hoje o marketing é muito mais segmentado do que na época dos grandes lançamentos que você comandou. Como isso mudou a relação com o público?

Mudou muito. Antes, o plano era extenso: você dava um tiro de canhão mirando o Brasil inteiro. Hoje você consegue segmentar, conversar e obter respostas das pessoas em tempo real, antes do lançamento. É um relacionamento muito diferente com a audiência. Antes, era o exibidor que tinha essa bagagem e trazia as informações; eu mesma ia ao cinema ver a reação ao trailer — quantas vezes falei “gente, vai estrear o trailer, vamos todos ao cinema ver como as pessoas reagem”, porque aquela era a reação real, não a nossa. Hoje, quando você coloca isso na arena das redes sociais, o feedback é imediato — claro que para determinados segmentos, porque não é uma verdade única e absoluta para todos os gêneros. Mas é uma forma de se relacionar muito interessante que muda todos os dias.

Divulgação
'O bosque selvagem': animação da LAIKA já é vista como candidata ao Oscar

Entre os destaques do line-up da Imagem, estão a animação O bosque selvagem, da LAIKA, a estreia de A morte de Robin Hood, que marca mais uma parceria da Imagem com a A24, Galinha Pintadinha e o coreano Hope. Qual é a aposta mais forte?

A gente vai ter filme para todo mundo — até o fim do ano, para todos os públicos. A animação que apresentamos com destaque no evento para exibidores é O bosque selvagem, da LAIKA, que certamente vai estar entre os indicados ao Oscar. É stop motion, uma técnica diferente, uma arte — não é a animação de um grande estúdio —, e a gente quer atrair todos os públicos, não só os fãs do estúdio. Tem também Zero D.C., de temática religiosa, previsto para 3 de dezembro, a que assisti ontem: a data é perfeita, naquele momento de reflexão de fim de ano, para falar do nascimento de Cristo numa produção como essa; é um público religioso, entre outros. E tem a Galinha Pintadinha, que tem números que eu nem imaginava, bilhões de views. É uma propriedade que se mantém desde lá atrás e que, surpreendentemente, traz uma história muito bonita sobre maternidade — não é só a musiquinha e os personagens.

Você defende a criação do hábito de ir ao cinema. Na prática, qual é a estratégia?

O cinema tem muito a aprender com outros setores que, na pandemia, mudaram a forma de se relacionar com o consumidor. Um exemplo que já dei em alguns eventos é a venda antecipada. É como fazem as drogarias: passaram a vender muito mais quando deram desconto na compra online, muitas vezes mais barata do que na loja física. Para o exibidor, seria a mesma lógica: vender ingressos com desconto válidos para 30, 60 dias — o direito de ocupar uma poltrona naquele cinema ou rede. Quem já pagou por aquele ingresso passa a prestar atenção na programação, porque tem um direito adquirido: “deixa eu ver o que vou assistir, porque tenho ingresso e não posso perder”. Vira um público proativo. Antigamente a gente tinha os guias de cinema nos jornais — eu amava aquela programação, ficava vendo filmes e horários mesmo antes de trabalhar na indústria; um pouco disso se perdeu. Se você multiplica esse hábito por milhões de pessoas, isso deveria ser um objetivo comum da indústria: não se trata de um filme específico, e sim de aumentar a frequência. Assim, as pessoas não vão apenas aos blockbusters — passam a consumir outros filmes também. Esse é o desafio.