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A 79ª edição do Festival de Cannes terminou neste sábado, 23, com uma cerimônia que combinou emoção, declarações políticas e a confirmação de um veredito que boa parte da crítica já antecipava desde a segunda semana do festival. Cristian Mungiu levou a Palma de Ouro por Fjord, sua estreia em língua inglesa, tornando-se o décimo cineasta da história a conquistar o prêmio máximo do festival pela segunda vez — 19 anos após sua primeira Palma, com 4 meses, 3 semanas e 2 dias, em 2007. A cerimônia foi conduzida pela atriz francesa Eye Haïdara, que já havia apresentado a abertura em 12 de maio.
Fjord, que será distribuído pela Diamond no Brasil, conta com Sebastian Stan e Renate Reinsve no papel de evangélicos romenos que se mudam para a Noruega rural, mas logo têm seus filhos levados pelos serviços de proteção à infância após uma denúncia de palmadas, numa colisão entre valores conservadores e o progressismo hiper-organizado da sociedade escandinava.
Ao subir ao palco para receber a Palma das mãos de Tilda Swinton, Mungiu declarou que "o estado do mundo não é o melhor", que não se sente orgulhoso do que sua geração está deixando para seus filhos, e que algo precisa mudar. Foi o discurso de um diretor que passa a carreira inteira filmando instituições que falham com as pessoas, decisão burocrática por decisão burocrática — e o júri presidido por Park Chan-wook claramente o ouviu.
Dias antes da cerimônia, o próprio Mungiu havia se antecipado a possíveis mal-entendidos sobre o filme: "Expressar dúvidas sobre nossa sociedade liberal não significa, por um segundo, que sou defensor de uma sociedade conservadora. Significa que confio mais na sociedade progressista na sua capacidade de admitir autocrítica". A vitória garante à distribuidora americana Neon uma impressionante sequência de sete Palmas de Ouro consecutivas, iniciada com Parasita em 2019.
Grand Prix: Zvyagintsev manda recado a Putin
O Grand Prix — prêmio de vice-campeonato do festival — foi para Minotaur, de Andrey Zvyagintsev, o cineasta russo radicado na França que ficou gravemente doente em 2021, contraindo sepse e uma polineuropatia que o privaram temporariamente da capacidade de andar. Havia emoção audível na plateia quando o prêmio foi anunciado. No discurso, Zvyagintsev não desperdiçou o microfone: o diretor falou diretamente sobre Vladimir Putin: "Presidente, por favor, ponha fim a este derramamento de sangue. O mundo inteiro espera que o faça."
Direção: empate histórico entre Los Javis e Pawlikowski
O prêmio de melhor direção foi dividido — algo que não acontecia em Cannes desde 2016, quando o próprio Mungiu dividiu a honraria com Olivier Assayas. De um lado, os espanhóis Javier Calvo e Javier Ambrossi, os Los Javis, por La Bola Negra — o épico queer sobre Lorca e 85 anos de história gay espanhola que havia recebido a maior ovação desta edição, 20 minutos, na quinta-feira. Do outro, o polonês Pawel Pawlikowski por Fatherland, o drama com Sandra Hüller sobre Thomas e Erika Mann no exílio. Os dois filmes haviam sido os mais celebrados nas primeiras semanas do festival, e o júri se recusou a escolher entre eles.
Atuações: Hamaguchi, Dhont e dois pares emocionados
O prêmio de melhor atriz foi compartilhado entre Virginie Efira e Tao Okamoto, protagonistas do drama de Hamaguchi All of a Sudden. Ambas as atrizes começaram a chorar ao subir ao palco. O prêmio de melhor ator também foi dividido, indo para os dois jovens protagonistas de Coward, o drama de guerra de Lukas Dhont sobre soldados belgas apaixonados nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial — Valentin Campagne e o estreante Emmanuel Macchia. A entrega do prêmio foi um dos momentos mais alegres da noite: Campagne literalmente saltou nos braços do parceiro de cena ao ouvirem seus nomes.
Roteiro, Prêmio do Júri e Câmera de Ouro
O melhor roteiro foi para Emmanuel Marre por A Man of His Time, o drama sobre seu bisavô colaboracionista em Vichy. Marre usou o discurso para revelar um detalhe que surpreendeu a plateia: escreveu um roteiro, jogou-o fora e fez o filme inteiro com improvisação controlada. O Prêmio do Júri — essencialmente o terceiro lugar — foi para The Dreamed Adventure, de Valeska Grisebach, um drama experimental e de influência documental filmado na Bulgária. Ao receber o prêmio, a diretora alemã chamou ao palco sua protagonista Yana Radeva, descrevendo-a como sua colaboradora mais indispensável. A Câmera de Ouro, para o melhor filme de estreia do festival em qualquer seção, foi para Ben'Imana, de Marie-Clémentine Dusabejambo.
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