Kleber Mendonça fala sobre engajamento brasileiro em campanhas e define 'O agente secreto': "Queria fazer um puta filme"

Kleber Mendonça fala sobre engajamento brasileiro em campanhas e define 'O agente secreto': "Queria fazer um puta filme"

Fabiano Ristow, do Recife
12 set 25

Imagem destaque

Nicole Rodrigues / Divulgação

Kleber Mendonça Filho

Kleber Mendonça Filho reconhece que, talvez, haja algo de diferente desta vez. No auge de sua carreira, é reconhecido mundialmente e, particularmente, em sua cidade natal, o Recife, onde é paparicado como celebridade. "Me reconhecem na padaria", ri.

Sua ascensão à posição de um dos cineastas brasileiros de maior prestígio dentro e fora do país, no entanto, não foi calculada, ele assegura. O fato é que O agente secreto estreia em 6 de novembro com uma expectativa rara para um filme nacional.

As primeiras exibições aconteceram nesta quarta-feira, 10, no Cinema São Luiz, no Recife, onde é ambientada parte da trama do thriller político estrelado por Wagner Moura. Quando o diretor e o ator entraram na sala para apresentar a sessão, os gritos da plateia ecoavam forte do lado de fora do cinema. Ao fim da exibição, os aplausos deixaram clara a aprovação do público, e Kleber pôde respirar aliviado.

"É um filme de mercado, mas não foi necessariamente projetado para ser assim. Eu só queria fazer um puta filme", diz o realizador pernambucano à Filme B. "Existe um abismo entre o cinema comercial e o autoral, e ele às vezes é muito pouco explorado."

Nicole Rodrigues / Divulgação
Pré-estreia lotada de 'O agente secreto', no Cinema São Luiz

Atesta a favor do cineasta o fato de O agente secreto ser, de fato, um filme com o seu estilo típico: aborda temas caros ao Brasil, como a violência e a corrupção do Estado e/ou dos poderosos; e inclui referências pessoais — como a paixão pelos cinemas de rua, assunto explorado em seu documentário Retratos fantasmas (2023) — e a lendas urbanas locais, como a perna cabeluda que mata recifenses. Algumas piadas e o tom do humor também podem ser difíceis de ser traduzidos.

Kleber não parece disposto a fazer concessões em busca da aprovação "dos gringos" ou do mercado, porque, para ele, é difícil prever o que funciona ou não.

"Minha teoria é que o artista pode ter a sua assinatura própria 'comprada' pelo público por meio da consistência de seu trabalho", explica, usando a banda Nirvana para provar o seu ponto. "A banda é um grande exemplo na minha vida. Eram três caras superjovens que só queriam tocar guitarra e, de repente, começaram a chamar atenção, até assinar com a Geffen [David Geffen Company, ou DGC Records], um selo global. Fizeram isso sem nunca mudar o seu estilo."

Sem estratégia comercial pensada previamente

Ele e sua parceira, a produtora Emilie Lesclaux, não fazem pesquisa de mercado, nem sessões de teste. Não existe estratégia comercial, ele garante.

"Eu só mostro meus filmes, quando estão quase prontos, para um grupo de oito ou nove amigos, numa sexta-feira à noite. Tem sempre o bonzinho, cuja expressão eu sei ler. E tem o cruel, que, quando não faz muitas críticas, acho ótimo."

Os longas de ficção anteriores de Kleber Mendonça Filho cresceram exponencialmente. O som ao redor (2013) foi visto por quase 100 mil pessoas nos cinemas ("Esse filme foi preterido por distribuidoras que priorizaram projetos que venderam menos de 20 mil ingressos", provoca o cineasta, sem citar nomes). Aquarius (2016) ultrapassou a marca de 330 mil espectadores. Bacurau (2019) girou em torno de 700 mil.

Agora, O agente secreto, desde que saiu com três troféus de Cannes (melhor direção, melhor ator e o prêmio da crítica), tem feito ainda mais estardalhaço. É o favorito para representar o Brasil no Oscar, cuja campanha está nas mãos da prestigiada distribuidora Neon; mantém uma aprovação de 100% no Rotten Tomatoes; e, recentemente, gerou comoção nos festivais de Telluride e Toronto. "A repercussão me surpreendeu", diz Kleber.

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Equipe de 'O agente secreto' no Recife

E há, ainda, um fator específico dos tempos modernos: o engajamento dos brasileiros na internet. Ainda estou aqui (Sony) foi o primeiro longa nacional a ser indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro na era das redes sociais. O público rapidamente percebeu que a interação no ambiente digital tinha consequências práticas, pois não passava despercebida pelos integrantes que compõem a Academia do Oscar. O retrato de Fernanda Torres feito no Governors Awards 2024 é, até hoje, a postagem mais curtida do perfil do Oscar. Kleber ri quando lembra que os fãs chegavam a comparar a quantidade de "likes" com a foto de Nicole Kidman.

"O brasileiro é muito sensível em relação à forma como é retratado lá fora, seja pela Seleção de futebol, um atleta, um músico ou, nesse caso, um filme", pondera o diretor. "Tem um meme muito interessante chamado 'Brazil mentioned!', que as pessoas usam quando veem um estrangeiro fazendo referência ao país. Lembro do Hideo Kojima [criador japonês de games populares] aparecendo com uma camisa de Bacurau."

Cinema é o soft power do momento

Nesta equação, há também a questão da nossa autoestima.

"O Brasil tem uma síndrome de achar que está sempre 'meio de fora'. Talvez pelo fato de não falarmos inglês, não temos uma participação de soft power tão maciça, e o cinema é um grande jeito de reverter isso. Meus filmes são reconhecidos internacionalmente, assim como os do Walter Salles. Tem o próprio Wagner, com a série Narcos. É uma questão complicada, porque nos EUA é comum não nos considerarem brasileiros, e sim latinos de uma forma genérica. O brasileiro é muito consciente de sua imagem, e, portanto, quando um filme entra nessa roda de discussões, vira algo impactante."

Sim, Kleber Mendonça Filho já recebeu convites de Hollywood. Mas, até o momento, permanece fazendo filmes sobre o Recife. A decisão é alvo de perguntas constantes de jornalistas, ele diz.

"Minha resposta é sempre a mesma: faço isso porque sou do Recife. Queria que eu fizesse um filme na Barra da Tijuca, é?".