Referência
no mercado de
cinema no Brasil
A Paris Filmes vive um dos dias mais simbólicos de sua história recente. Nesta quarta-feira, 16, Feito pipa, de Allan Deberton, foi escolhido pela Academia Brasileira de Cinema para representar o Brasil na disputa por uma vaga no Oscar 2027 de melhor filme internacional. Quase ao mesmo tempo, Minha melhor amiga, comédia com Mônica Martelli e Ingrid Guimarães, ultrapassou 3 milhões de espectadores.
Marcio Fraccaroli, presidente da Paris Filmes, aproveitou o momento e anunciou, em entrevista exclusiva à Filme B, que Minha melhor amiga vai ganhar uma continuação. O executivo falou sobre os próximos passos da distribuidora na corrida pela estatueta e sobre os planos para manter de pé o apelo do cinema brasileiro.
A Paris lança em breve apostas como o novo Jogos Vorazes, A Ressurreição de Cristo (em 2027), o anime One Piece, As dez vantagens de morrer antes de você, entre outros.
A seleção de Feito pipa acabou de sair. Como o filme chegou até aqui e como você recebeu a escolha?
Uma amiga querida de vida, a Mariza Leão, me obrigou a assistir a Pacarrete, e eu fiquei maluco com aquele diretor. Liguei para o Allan e falei que queria trabalhar num próximo projeto com ele. Conseguimos conversar internamente, limos o roteiro, adoramos. Ele se associou à Biônica, uma empresa de maior capacidade técnica, e resolvemos embarcar — faz parte de um investimento regional da Paris. Recebi a notícia muito feliz, porque é um filme muito de amor, muito bem realizado e que já tinha sido testado: foi o grande vencedor de Gramado, ganhou dois prêmios importantes em Berlim, andou pela Ásia e pela Europa e esteve em Toronto neste fim de semana sendo exibido para o mercado de vendas.
E qual é a estratégia a partir de agora?
Essa fase é muito difícil porque, antes da indicação, nenhum agente de vendas estava olhando o filme com carinho. Agora acho que começam a olhar com outros olhos. A Biônica conseguiu levantar US$ 360 mil de um fundo para a promoção, então temos recursos para essa segunda etapa. Estou esperando a Karen [Castanho, produtora] e o Allan voltarem de Toronto; ele vem a São Paulo no dia 22 ou 23 para sentarmos e definirmos o planejamento. Desde o começo, o filme foi marcado para novembro. Passou por Gramado, terá cerca de oito sessões no Festival do Rio, será bastante exibido em São Paulo para criar massa crítica, e faremos um programa de exibições privadas, os screenings, com duas semanas de antecedência. É uma história de amor muito simples, de um menino que amava a avó, que se conecta com qualquer plateia do mundo.
E o mercado americano?
Ainda não tínhamos nenhuma proposta, mas isso é natural nesse tipo de projeto: os filmes costumam ser comprados depois da indicação. Nós temos capital privado para investir, o que é um diferencial que pouca gente tem. Vamos procurar um distribuidor americano, mesmo que menor, e o Allan está cem por cento disponível para rodar as cidades americanas apresentando o filme, nem que seja um cinema por cidade. A Paris fica com a distribuição no Brasil, na Argentina e na Colômbia, onde tem operação local; o Chile fica para mais adiante. Na Europa já há mercados garantidos, como Bélgica e Dinamarca, para lançamento em salas.
Como a Paris avalia o desempenho de Minha melhor amiga? Está dentro da expectativa?
Está completamente fora de controle, e digo isso no melhor sentido. É um filme que a Paris fabricou e distribuiu; participamos de todo o processo de criação do roteiro, numa sala que tinha quatro mulheres e eu. Foi um projeto bastante audacioso, custou R$ 35 milhões, financiado com recurso privado e público. A gente queria ter valor de tela, como os originais que o streaming faz hoje gastando entre R$ 30 e R$ 60 milhões, e colocamos isso na tela. Tínhamos duas atrizes gigantescas — na primeira cena que fizeram juntas dava para ver que estavam se divertindo, parecia vida real — e uma diretora muito talentosa, a Susana Garcia.
Em que momento você percebeu que a comédia estava "fora de controle"?
Lançamos o filme uma semana antes da semana de promoção de ingressos populares, com abertura em cerca de 1.500 salas. A estratégia era fazer 700, 800 mil espectadores na primeira semana, e o filme correspondeu. Andamos com o elenco em 12 territórios e, a cada pré-estreia, aprendíamos mais sobre a estratégia do filme. Imaginávamos dobrar o resultado na segunda semana, mas vamos praticamente triplicar. Projetávamos uma carreira de 3 milhões; hoje acho possível um filme entre 4 e 5 milhões de espectadores. Agora, a partir de sexta, chega a audiência do ingresso cheio, e os cinemas populares projetam muito crescimento.
O cinema brasileiro continua entregando boas comédias. Qual é o segredo de Minha melhor amiga que a fez se destacar?
A comédia brasileira, se não tiver uma mensagem, não vai emplacar. O segredo de Minha melhor amiga é que ela tem uma mensagem direta à mulher — não é só uma comédia de duas grandes atrizes e uma superprodução, é identificação, a pessoa se ver na tela. Comédia rasa hoje dificilmente engaja. Franquias como Os farofeiros continuam funcionando porque o público já conhece o formato e vai para se divertir; é outro tipo de coisa. A comédia que a Paris vai fabricar daqui para frente tem que carregar uma mensagem, qualquer que seja.
Vai ter continuação?
Já tem, e estou dando em primeira mão. Desde segunda-feira começamos a captar histórias para desenvolver a segunda parte. Tomamos a decisão, com a Susana, a Mônica e a Ingrid, de empurrar Os homens são de Marte para depois e filmar primeiro Minha melhor amiga 2, no ano que vem; Marte fica para 2028. Como a Mônica e a Ingrid têm vida privada, fazem novela e teatro, cada uma consegue fazer um filme por ano. A Susana está compilando tudo o que as pessoas falaram sobre o filme neste fim de semana para contar a segunda história. Ainda não há um recorte definido, mas a segunda parte já está oficialmente sendo trabalhada.
Além do carisma da Ingrid e da Mônica, vocês fizeram um marketing muito agressivo. O que ainda vem para manter o filme em alta?
A partir de agora entra uma peça comemorando os 3 milhões de ingressos — um comercial muito engraçado das duas na TV Globo e nas redes sociais. Como sabemos que haverá uma queda natural na terceira semana, e porque nesta semana ainda estamos na promoção de ingressos populares, decidimos concentrar investimento justamente na terceira semana. A TV aberta ainda funciona muito bem para praças como Madureira e Nova Iguaçu. Não vou medir esforço — sou dono da marca e distribuidor — e quero tomar até o último ingresso possível. No Rock in Rio, por exemplo, colocamos as duas na tela principal, no intervalo do show, ao lado da propaganda de banco, numa ação com a Kinoplex. Esse tipo de publicidade normalmente é só para banco, não para filme.
Qual foi o orçamento de comercialização de Minha melhor amiga?
Saiu acima de R$ 7 milhões. Ou você acredita no seu projeto e não fica no meio do caminho, ou não acredita. A Paris é uma companhia grande, tradicional, com fluxo para tomar risco. Quando é necessário, temos orçamentos gigantes — normalmente só o filme americano voa nesse tipo de orçamento. Nesse a gente resolveu gastar mesmo.
Fazendo uma provocação: até que ponto os exibidores têm parte da culpa quando um filme brasileiro fracassa, mesmo com potencial?
Em geral, o exibidor é dotado, ele sente o cheiro — hoje existem ferramentas como a Nielsen, os números e as tendências, e o exibidor segue o mesmo caminho, sabendo se o filme está aquecido. Ou você trabalha o filme com antecedência, seis, oito meses, um ano antes, ou você é atropelado pelo caminhão de filmes americanos, que voltaram para o jogo. Um filme popular concorre com todos os populares americanos. O cinema brasileiro, muitas vezes, não entrega uma peça, não fecha um trailer. Cabe a nós, produtores, saber para onde levar o filme: se Minha melhor amiga não falasse com Madureira e Nova Iguaçu, não seria um filme de milhões de ingressos.
A Paris também tem devolvido filmes para os produtores. Como é isso?
Estou tomando a coragem de devolver filmes que os colegas me entregaram e que não ficaram bons. Neste momento, já devolvi quatro filmes para os produtores melhorarem; se querem o filme no cinema, vão ter que melhorar. Cabe a nós, como distribuidora, ter mais ingerência — não sobre a criação, mas ao menos sobre o corte do filme. Isso é muito comum lá fora, esse conflito entre a distribuição e a produção. O público hoje está muito seletivo e, quando o filme não está bom, ele te destrói em horas. Não adianta lançar mais um filme ruim.
O que a Paris ainda lança neste ano?
Em outubro chega As dez vantagens de morrer antes de você, do Diego Freitas, diretor de Caramelo (Netflix), baseado em livro — é a nossa aposta para o público jovem, no espírito de A culpa é das estrelas. Depois vem Feito pipa, em novembro. O novo Jogos Vorazes é uma grande aposta. Acreditamos que no ano que vem teremos o dobro de filmes que temos este ano, entre fabricados e distribuídos, no line-up brasileiro e no internacional.
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