Luiz Carlos Barreto (1928–2026): o produtor que fez do cinema brasileiro uma indústria

Luiz Carlos Barreto (1928–2026): o produtor que fez do cinema brasileiro uma indústria

Redação
22 jul 26

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Divulgação

Luiz Carlos Barreto

Morreu aos 98 anos Luiz Carlos Barreto, o Barretão, ao fim de uma dura luta pela saúde. Com ele se encerra uma das trajetórias mais longevas e decisivas da história do audiovisual nacional, iniciada nos bastidores do Cinema Novo e estendida por mais de seis décadas de produção ininterrupta. Sua partida deixa um amplo vazio, pessoal e profissional: vai-se o amigo, o mestre e o guia — a referência de talento, força, resiliência e liderança de toda uma indústria.

Barreto foi um cineasta completo no sentido mais literal do termo: fotógrafo, roteirista, diretor, documentarista, produtor, distribuidor e formulador de política. Não havia campo do audiovisual que não conhecesse em profundidade. Mesmo aos 90 e poucos anos, incorporava a evolução da tecnologia com rapidez e a capacidade de adaptar suas obras a cada novo tempo — empenhado, ainda recentemente, em levar seus títulos mais emblemáticos à alta definição. Seu legado intelectual é profundo e perpétuo.

Nascido em 20 de maio de 1928, em Sobral, no interior do Ceará, Barreto chegou ao cinema pela porta do jornalismo. Foi repórter fotográfico da revista O Cruzeiro entre 1950 e 1963, no auge da publicação comandada por Assis Chateaubriand, com quem conviveu de perto e a quem sempre creditou parte de sua formação como leitor de país. A vocação cinematográfica se revelou em 1961, quando cobriu, para a revista, as filmagens de Barravento, o primeiro longa de Glauber Rocha, no litoral baiano. Dali em diante, o repórter que sabia enquadrar o Brasil não voltaria mais atrás.

Do Cinema Novo à construção de um mercado

A entrada efetiva no meio veio como roteirista, ao lado de Roberto Farias, em O assalto ao Trem Pagador (1962). Logo assinaria a fotografia de Vidas secas (1963), de Nelson Pereira dos Santos, clássico absoluto do Cinema Novo e prêmio da crítica no Festival de Cannes de 1964. Em 1965, abandonou de vez o jornalismo para se dedicar exclusivamente ao cinema.

Foi então que Barreto revelou sua contribuição mais duradoura: a de organizador e empreendedor de uma cinematografia que, até então, vivia de gestos isolados. Fundou a Difilm, distribuidora que reuniu diversos diretores do Cinema Novo sob uma mesma estrutura — um raro exercício de articulação industrial num cinema historicamente pulverizado. Em seguida, ao lado da mulher e sócia Lucy Barreto, criou a L.C. Barreto Produções Cinematográficas, uma das mais importantes e longevas produtoras do país, responsável por dezenas dos títulos que definem o cânone nacional.

Como produtor e coprodutor, seu currículo confunde-se com a própria história do cinema brasileiro moderno: Terra em transe* (1967), de Glauber Rocha, prêmio da crítica em Cannes; Brasil ano 2000 (1969), de Walter Lima Jr., Urso de Prata em Berlim; Bye Bye Brasil (1979), de Cacá Diegues; Memórias do cárcere (1983), de Nelson Pereira dos Santos, novamente premiado em Cannes. Documentou também o Brasil popular em Garrincha, alegria do povo (1963) e Isto é Pelé (1974), e chegou ao século XXI com títulos como Bossa Nova (2000) e Flores raras (2013). Ao longo da vida, Barreto contabilizava um universo de cerca de 150 títulos, entre produções e coproduções, com aproximadamente 70 a 80 filmes assinados pela produtora e 30 adaptações literárias — "filmamos o Brasil do extremo Norte ao extremo Sul", resumia.

O produtor de bilheteria — e de prestígio

Se o Cinema Novo lhe deu a formação, foi na conquista do público que Barreto cravou seu nome no mercado. Dona Flor e seus dois maridos (1976), dirigido pelo filho Bruno Barreto, tornou-se um marco: mais de 10 milhões de espectadores e um dos maiores fenômenos de bilheteria da história do cinema brasileiro. Barreto gostava de lembrar que o filme havia superado, nas salas nacionais, Tubarão, de Steven Spielberg — episódio que, para ele, era mais do que anedota: era a prova de que o cinema brasileiro podia dominar o próprio mercado.

Duas vezes levou o país à disputa do Oscar, com filmes dirigidos pelos filhos: O Quatrilho (1996), de Fábio Barreto, e O que é isso, companheiro? (1997), de Bruno Barreto, ambos finalistas na categoria de melhor filme estrangeiro. Poucos produtores brasileiros reuniram, numa só trajetória, bilheteria recorde e reconhecimento nos grandes festivais e na Academia.

Nos últimos anos, sua obra foi celebrada em retrospectivas no Lincoln Center, em Nova York, no segmento Cannes Classic do Festival de Cannes, na Cinemateca Portuguesa e no Festival de Berlim. Em 2024, recebeu a Medalha da Abolição, principal honraria do governo do Ceará. Recentemente, seu acervo fotográfico — testemunho de um Brasil registrado lente a lente — foi destinado ao Instituto Moreira Salles, passando a integrar um dos mais importantes arquivos do fotojornalismo brasileiro.

Um agente das políticas audiovisuais

Mais do que produzir filmes, Barreto pensava o sistema que os tornava possíveis. Foi presença constante na formulação de políticas para a produção nacional e um dos mais insistentes defensores da autossustentabilidade da indústria audiovisual brasileira. Sua militância remonta aos tempos do Grupo Executivo da Indústria Cinematográfica (GEICINE) e atravessa toda a era da Embrafilme, período que ele considerava o ápice da conquista de mercado pelo cinema nacional. Foi um dos principais líderes da sociedade civil no processo de construção, entre 1993 e 2012, do atual marco legal do audiovisual brasileiro. 

"A luta toda do cinema brasileiro foi a de conquistar o seu próprio mercado. Isso foi conseguido na época da Embrafilme. Chegamos a alcançar 42% do mercado", declarou ao Correio Braziliense, em 2023. Na mesma entrevista, comparava aquele patamar com o cenário mais recente — "hoje, não temos nem 1%. Isto é um escândalo" — e cobrava do Estado a regulação e o arcabouço criado pela Medida Provisória 2228-1.

Barreto fazia questão de situar o cinema acima das disputas ideológicas do momento. "O cinema tem que ser livre e independente de direita ou esquerda. O cinema é uma atividade ampla, de pensamento largo", afirmou, citando Roberto Rossellini: "O cinema é a alma de cada país." Para ele, filme era, simultaneamente, obra de autor e produto de uma indústria — e essa dupla natureza foi a bússola de sua atuação como empresário e como articulador político do setor.

Sua ausência se faz sentir num momento particularmente delicado. O cinema brasileiro vive hoje um quadro de alarmante desordem estrutural, e é difícil não imaginar que, tivesse Barreto conservado a saúde nesses últimos dois anos, em condições de exercer suas conhecidas capacidades de articulação e liderança, a situação não seria tão grave. Que seu exemplo ilumine os operadores políticos do presente.

Legado

Patriarca de uma das mais influentes famílias do cinema brasileiro — ao lado de Lucy Barreto e dos filhos Bruno, Fábio (morto em 2019) e Paula —, Luiz Carlos Barreto deixa uma obra que é, ao mesmo tempo, acervo estético e infraestrutura de mercado. Foi um dos raros que entenderam, desde cedo, que o cinema brasileiro só existiria de forma perene se tivesse público, distribuição e política pública sustentando a criação.

Ao mercado que ajudou a fundar, Barretão lega a certeza incômoda e mobilizadora que repetiu por décadas: um país só é dono de sua imagem quando é dono de suas telas.

Aqui na Filme B guardamos dele uma lembrança à altura do personagem. Um dia, o telefone da redação tocou e do outro lado estava o próprio Barretão, pedindo para falar com o Paulo. Diante da ausência, foi logo ao ponto: "Ah, é que escreveram aí uma matéria sobre mim me chamando de lendário. Sempre que escrevem sobre mim botam esses adjetivos. Parece que eu morri. Quem escreveu?" Prometemos tirar o adjetivo. "Obrigado", respondeu ele, satisfeito. Agora, enfim, pode: o lendário cineasta Luiz Carlos Barreto.

A Lucy, Bruno, Paula e Cláudio, netos, netas, bisnetos e bisnetas, o carinho e as condolências da Filme B.