‘A Odisseia’ acende debate sobre acesso a salas IMAX no Brasil e expõe desafios para expansão do circuito

‘A Odisseia’ acende debate sobre acesso a salas IMAX no Brasil e expõe desafios para expansão do circuito

Fabiano Ristow
16 jul 26

Imagem destaque

Divulgação

'A Odisseia'

A estreia de A Odisseia (Universal), novo épico de Christopher Nolan, promete mais do que lotar salas: já está recolocando o IMAX no centro da conversa do público brasileiro.

Primeiro longa-metragem da história rodado inteiramente com câmeras IMAX 1570, o filme levou ao compartilhamento nas redes sociais de vídeos comparativos que mostram, lado a lado, a mesma cena na versão IMAX e na versão convencional. A diferença salta aos olhos: pelo ratio maior do formato, a imagem IMAX abrange muito mais área — céus, cenários e enquadramentos que simplesmente desaparecem na projeção comum.

O efeito foi imediato. Segundo o Google Trends, as buscas por "IMAX" no Brasil cresceram 140% no último mês na comparação com o mês anterior — e 70% em relação ao mesmo período do ano passado —, com o pico de interesse registrado nesta semana. Lá fora, a demanda também bateu recordes: o BFI IMAX de Londres vendeu 28 mil ingressos em 24 horas, superando marcas de Oppenheimer e Duna: Parte 2 no melhor primeiro dia de vendas da história da sala, e a rede americana AMC registrou recorde de pré-venda em salas premium.

Mas a viralização trouxe junto um incômodo. Diante das poucas salas aptas a exibir o filme como Nolan concebeu — e do ingresso mais caro —, parte do público passou a chamar o formato de "elitista", como se houvesse má vontade dos exibidores brasileiros em ampliar o circuito. A questão, porém, é bem mais complexa do que parece.

Por que não abrir mais salas?

Três fatores principais explicam o circuito enxuto. O primeiro é infraestrutura: uma sala IMAX não é uma sala comum com tela maior. O formato exige projeto arquitetônico específico, com pé-direito elevado, geometria de auditório própria, tela gigante instalada praticamente do chão ao teto e sistema de som específico (patenteado). Poucos complexos — e poucos shoppings, onde está a maior parte do parque exibidor brasileiro — comportam uma adaptação desse porte; na prática, o ideal é que a sala já nasça IMAX.

O segundo é orçamentário. A instalação de uma sala IMAX envolve investimento milionário em equipamento, licenciamento da marca e obras, além de remuneração contínua à IMAX Corporation sobre a operação. Para o exibidor, a conta só fecha em praças com densidade de público suficiente para sustentar ocupação alta o ano inteiro — não apenas nas semanas de um blockbuster como A Odisseia.

O terceiro fator, menos conhecido do público, são os acordos de territorialidade. Em termos gerais, quando a IMAX licencia sua tecnologia a um exibidor, o contrato costuma garantir a ele exclusividade sobre uma determinada zona geográfica — um raio de proteção no qual a empresa se compromete a não instalar outra sala com a marca. O mecanismo protege o investimento de quem assumiu o risco, mas também trava a expansão: mesmo que outro exibidor queira abrir um IMAX na mesma região, pode estar contratualmente impedido de fazê-lo.

A Filme B procurou a Abraplex (Associação Brasileira das Empresas Exibidoras Cinematográficas Operadoras de Multiplex) para comentar o modelo desses acordos e aguarda posicionamento.

Nem os EUA escapam

O gargalo não é exclusividade brasileira — e nem sempre é resolvível com dinheiro. Nos Estados Unidos, a escassez de salas capazes de projetar A Odisseia em IMAX 70mm, formato em que o filme foi concebido (há cerca de 40 delas em todo o mundo, nenhuma no Brasil, onde o circuito IMAX é todo digital), levou o próprio CEO da IMAX, Richard Gelfond, a explicar os limites da expansão em entrevista à Variety nesta semana.

"Estamos com sessões esgotadas em alguns cinemas já na quinta semana, sessões de 2h e de 7h da manhã, então certamente há mais demanda. O problema é que não se fabricam novos projetores de filme IMAX há cerca de 50 anos. Então nós os recondicionamos, os reconstruímos, e parte da nossa estratégia é ver até onde conseguimos levar isso", afirmou Gelfond. Questionado sobre a possibilidade de simplesmente fabricar novos projetores 1570, disse: "Construímos projetores novos todos os dias, mas projetores de película nesse formato, não é viável. Temos que encontrá-los e reconstruí-los, que foi o que fizemos para A Odisseia. Todos os nossos 2 mil cinemas podem ter projetores de película? Não, simplesmente não existem tantos por aí."

O IMAX no Brasil em números

Hoje, o Brasil conta com 12 salas IMAX, concentradas nas capitais e em grandes centros do interior paulista:

  • IMAX Palladium — Curitiba (PR)
  • UCI Kinoplex Shopping Iguatemi — Fortaleza (CE)
  • Kinoplex D. Pedro — Campinas (SP)
  • UCI Anália Franco — São Paulo (SP)
  • UCI Kinoplex De Lux — Recife (PE)
  • UCI New York — Rio de Janeiro (RJ)
  • UCI Ribeirão Preto — Ribeirão Preto (SP)
  • Cinesystem Pompéia — São Paulo (SP)
  • Cineart Boulevard Shopping — Belo Horizonte (MG)
  • Cinépolis JK Iguatemi — São Paulo (SP)
  • UCI Orient De Lux — Salvador (BA)
  • Cinemark Wallig Porto Alegre — Porto Alegre (RS)

Apesar de representar fração mínima do parque exibidor nacional, o circuito IMAX movimenta resultados desproporcionais ao seu tamanho — e em trajetória de alta. Segundo dados do Filme B Box Office Brasil, a renda das sessões IMAX saiu de R$ 24,3 milhões em 2022 para R$ 26,9 milhões em 2023, ano puxado por Oppenheimer, recuou para R$ 23,7 milhões em 2024 — reflexo do calendário enfraquecido pelas greves de Hollywood — e voltou a subir em 2025, para R$ 26,7 milhões. O público seguiu curva semelhante: 893 mil espectadores em 2022, pico de 1,02 milhão em 2023, 890 mil em 2024 e 981 mil em 2025.

O primeiro semestre de 2026, porém, indica que o formato vive seu melhor momento: só até junho, as salas IMAX somaram R$ 13,9 milhões de renda e 467,7 mil espectadores — mais da metade da renda de todo o ano de 2025, antes mesmo da estreia de A Odisseia, que entra na conta a partir de hoje, quinta-feira, 16. Mantido o ritmo, 2026 caminha para ser o melhor ano da história do IMAX no Brasil.

O preço médio do ingresso (PMI) das sessões IMAX também avança: era de R$ 27,21 em 2022 e chegou a R$ 29,67 no primeiro semestre de 2026, alta de 9% — patamar consistentemente cerca de 35% acima do PMI médio do mercado brasileiro, que hoje é de R$ 21,76. É esse ingresso premium que faz as 12 salas responderem por cerca de 1% de toda a renda do cinema no país, com share de renda sistematicamente superior ao de público.

Evolução do IMAX no Brasil (2022–2026)
Ano Público Renda (R$) PMI (R$)
2022 893.341 24.305.897 27,21
2023 1.015.425 26.870.303 26,46
2024 890.005 23.705.101 26,63
2025 981.420 26.694.608 27,20
2026 (1º sem.) 467.710 13.878.989 29,67
PMI = preço médio do ingresso. Fonte: Filme B Box Office Brasil

 

As perspectivas para o formato são favoráveis — no mundo e no Brasil. A IMAX Corporation projeta 2026 recorde, com US$ 1,4 bilhão de bilheteria global e ao menos 12 lançamentos "Filmed for IMAX", e segue expandindo o circuito internacional, incluindo o maior acordo de sua história, para dez novas salas na Austrália.

O comportamento das novas gerações reforça o otimismo. O estudo anual de tendências da Fandango, divulgado em 2026 com mais de 5 mil espectadores ouvidos, mostrou que a Geração Z se tornou o público mais assíduo dos cinemas — 87% foram ao menos uma vez ao cinema no último ano, com média de sete idas anuais — e é a que mais opta por formatos premium como IMAX e Dolby Cinema, tratando a ida ao cinema como evento social e experiência que justifica o ingresso mais caro.

E o calendário reserva um marco: As Crônicas de Nárnia: O Sobrinho do Mago, de Greta Gerwig, produção da Netflix originalmente anunciada para estrear com exclusividade nas salas IMAX do mundo todo, chega aos cinemas em 12 de fevereiro de 2027 — com pré-estreias exclusivas em IMAX em 10 de fevereiro — antes de entrar no streaming em abril. Será o maior lançamento nos cinemas da história da Netflix, e a escolha do IMAX como vitrine diz muito sobre o novo status do formato: de nicho de cinéfilos a ativo estratégico disputado até por quem construiu o negócio fora das salas.