Pixinguinha, o filme, oito anos depois

Pixinguinha, o filme, oito anos depois

Thayz Guimarães
25 jan 17

Imagem destaque

Divulgação

A diretora ao lado dos atores que viverão Pixinguinha

Um dos expoentes maiores da música brasileira, Alfredo da Rocha Vianna Filho, o Pixinguinha, finalmente vai ganhar as telas de cinema. Começaram nesta semana as filmagens de Pixinguinha – Um homem carinhoso, longa-metragem dirigido por Denise Saraceni (no ar também com a novela A lei do amor) e que promete contar a ascensão e a glória (e também episódios menos felizes) da vida e da obra do gênio por trás de composições como Carinhoso e Lamento, imortalizadas nas letras de João de Barro e Vinícius de Moraes. No filme, Seu Jorge viverá o personagem principal na fase adulta e Taís Araújo, sua mãe.

A produção é de Carlos Moletta, que idealizou o projeto oito anos atrás, mas por divergências regulatórias com a Ancine não pôde seguir adiante na primeira tentativa de tirá-lo do papel. “Em 2012, nós armamos para filmar [ainda não era Denise Saraceni a diretora], mas tivemos que interromper as filmagens, porque a agência não aprovou o segundo orçamento, que era muito maior do que o original”, explicou.

Somente agora, após a entrada da Downtown Filmes como distribuidora e de um aporte da Globo Filmes é que Pixinguinha finalmente vai virar realidade. “Sem eles, o projeto não seria retomado. Há um entusiasmo muito grande para que esse filme seja feito, pela importância cultural e mercadológica também”, afirmou, referindo-se ao sucesso de outras biografias musicais, como 2 filhos de Francisco (4,8 milhões de espectadores), Faroeste caboclo (1,5 milhão) e Elis (561 mil), esta ainda está em cartaz.

Captação ainda incompleta

Pixinguinha – Um homem carinhoso foi orçado em R$ 6 milhões, sendo uma fatia de R$ 3,5 milhões a R$ 4 milhões para a produção e o restante para a pós. “Tem uns efeitos especiais que a gente quer fazer, não vou contar porque estraga a surpresa, mas é muita coisa”, revelou o produtor. Ainda segundo Moletta, do total necessário para as filmagens, ainda faltam captar cerca de 10%, além do que já foi obtido via Lei do Audiovisual e do investimento feito pela Globo Filmes.

De acordo com o produtor, a ideia é lançar o filme com cerca de 300 cópias, no mesmo padrão de Elis (2016), atingindo todo o circuito comercial. “Pixinguinha não é um filme para 800 cópias porque não tem cabimento, mas também não chega a ser um lançamento só no circuito de arte”, defendeu. “A gente está querendo fazer um filme muito bonito e grande – grande em termos – com pouco dinheiro, e essa química está quase chegando lá”.

História mais enxuta

Nem tudo se perdeu do projeto original - a música, que já tinha sido toda gravada, e os figurinos, que estavam quase todos feitos, por exemplo. Por outro lado, o roteiro, assinado por Manoela Dias (da série Justiça), teve de sofrer cortes drásticos. “Tudo é caro e a gente precisa diminuir os custos”, lembrou Moletta.

Segundo o produtor, o novo roteiro segue a mesma trajetória do inicial, porém com menos ênfase na infância de Pixinguinha. “Alguém disse que a infância do gênio não interessa a ninguém. Não é exatamente isso, mas é mais ou menos por aí”, ironizou. “A versão que será filmada chega mais rápido à vida adulta de Pixinguinha e à sua ida a Paris com o conjunto Oito Batutas”. O grupo, do qual Donga também fazia parte, foi criado em 1919 para se apresentar no Cine Palais, no Rio, inspirado nas disputadas apresentações de Ernesto Nazareth na sala de espera do Cine Odeon.

A ida a Paris é um dos episódios fundamentais na história de Pixinguinha e será retratada com destaque no filme - mas filmada em locações no Brasil. “Em Paris ele teve o seu primeiro contato com o jazz, viu o profissionalismo dos músicos americanos e conheceu o saxofone, que ele nunca tinha visto na vida”, explicou Moletta. Na volta para o Brasil, Pixinguinha se dedicou aos estudos para maestro, se tornou arranjador da RCA Victor e, em 1929, assinou o arranjo do primeiro grande sucesso de Carmem Miranda, Taí. Antes disso, casaria com Betí, uma corista de teatro de revista, seu grande amor, com quem ficou durante 45 anos, até sua morte.

Muitas emoções num cenário tipicamente carioca

O roteiro segue repleto de pontos de virada: o ostracismo de Pixinguinha nos anos 1930, devido à bebida e às mudanças no cenário musical brasileiro; a demissão da RCA; a retomada de sua carreira nos anos 40, auxiliada pela parceria musical com o flautista Benedito Lacerda, com quem escreveu os clássicos Um a zero, André de sapato novo e Naquele tempo; a aposentadoria; e a redescoberta de Pixinguinha pelos ícones da bossa nova Tom Jobim e Vinícius de Moraes, na década de 60.

Para dar vida a essa história, Um homem carinhoso terá como locações o Centro Histórico do Rio, o Teatro Municipal de Niterói, o Teatro Dulcina e, eventualmente, o Theatro Municipal do Rio de Janeiro. “Gostaríamos de filmar no Salão Assyrio, onde o Pixinguinha tocou já mais velho, no final dos anos 40, mas não sei se conseguiremos devido à burocracia do Estado”, comentou Moletta. Segundo o produtor, na impossibilidade de usar o teatro, o hall do Palácio das Laranjeiras, sede do governo do estado, pode ser uma das opções. “Ainda estamos negociando valores, mas nossa intenção é filmar lá uma das sequências mais emblemáticas do filme, a estreia dos Oito Batutas”.

Filmagens em pleno carnaval

Segundo Denise Saraceni, para entregar Pixinguinha até outubro deste ano (a data de lançamento ainda não está definida), serão necessárias cinco semanas de trabalho intenso e contínuo até o fim de fevereiro. “Além de ser de época, o filme é grande no sentido do volume de produção”, afirmou. E a iminência do carnaval pode ser um dos complicadores. “O Rio vai estar tomado de bandas, algumas a gente precisa, como a Banda de Ipanema e as tradicionais do Centro, mas nós temos que construir esse ambiente e não estarmos lá no meio, senão a gente não faz nada”, riu a diretora. Assim como o maestro e compositor que dá nome à obra, Pixinguinha, segundo ela, “é um filme de produção delicada”.

O longa terá distribuição da dobradinha Downtown/Paris nos cinemas e depois vai virar uma minissérie em dois capítulos, com previsão de ser exibida na Globo até o início de 2018.