Nos
últimos anos, a expansão do circuito exibidor brasileiro esteve estritamente
relacionada ao crescimento dos shopping centers. Os dois setores se modernizaram e foram alvos de investimentos
estrangeiros que contribuíram para estabelecer um novo padrão para o consumidor.
Desde 2000, o número de shoppings no
Brasil aumentou 35%, e a previsão é de que, até o fim de 2009, o setor chegue à
marca de 400 shoppings, segundo a Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce). “O boom dos shoppings convergiu com o boom
dos multiplex.
E o multiplex representa a modernidade do cinema, é
tudo o que o shopping quer”, confirma Marcelo Carvalho, presidente da
Abrasce e do Grupo Ancar, do qual fazem parte os shoppings Rio Design Leblon e Barra, no Rio de Janeiro, entre
outros.
Na
entrevista a seguir, Marcelo Carvalho fala da importância do cinema para os shoppings e analisa os possíveis efeitos da crise econômica mundial no processo de
expansão do setor, que está em pleno curso. Se a expectativa era de que, em 2008, a taxa de crescimento
dos shoppings repetisse a de 2007 (16%), hoje a previsão baixou
para algo entre 11% e 12%. Um crescimento, ainda assim, considerável.
Quais os critérios
da Abrasce para considerar um estabelecimento como shopping
center?
Seguimos o padrão internacional, que estabelece determinados
parâmetros. Um deles é que o shopping center precisa ser uma propriedade
única, com administração centralizada e regras de conduta claras. As lojas, em
sua grande maioria, são locadas, e não vendidas. Em um shopping “vendido”, você pode chegar no sábado às quatro da tarde e encontrar metade das lojas
fechadas. Não há controle de “mix” e, por isso, o dono do ponto pode utilizar o
espaço para a atividade que quiser. Nos shoppings associados à Abrasce, o dono do ponto somos
nós. Fazemos uma locação dentro de regras definidas. O sucesso do shopping center
vem desse modelo
bastante fundamentado.
Por que os shopping
centers se tornaram uma verdadeira “paixão
nacional” do brasileiro?
A indústria de shoppings é bem-sucedida em todo o mundo. É
um equipamento urbano que deu certo e se transformou, na verdade, em uma “paixão
mundial”, principalmente nas grandes cidades. O planeta está se tornando cada
vez mais urbanizado e, com os problemas que surgem daí, o shopping center
costuma representar
um oásis de organização, estrutura e planejamento. A gente costuma dizer que o
sucesso do shopping center brasileiro é fruto do caos
urbano.
E qual a
importância do cinema para os shoppings?
Dentro desse contexto, entra a questão do consumo e
do lazer das famílias – e o cinema tem uma importância muito grande quando você
fala em entretenimento em shopping. O cinema é, disparado, nossa maior categoria de entretenimento:
85% dos shoppings
têm cinemas,
enquanto 44% oferecem jogos eletrônicos e parques infantis, e apenas 20% têm
boliche.
Qual a importância
do formato multiplex, especificamente?
O boom dos shoppings no Brasil convergiu com o boom dos multiplex.
O multiplex representa a modernidade do cinema, é
tudo o que o shopping quer. Houve uma coincidência grande, favorável para os dois setores. Com
o tempo, é claro, foram feitas adaptações. Os primeiros multiplex
tinham entre 10 e 12 salas, mas nos últimos anos estão diminuindo de tamanho.
Eu diria que, hoje, a tendência é a construção de multiplex
com cinco e seis salas, em média. O conceito de stadium é fundamental por causa do conforto
que ele proporciona ao espectador. E a questão do 3D
está chegando também. Todos os novos complexos estão vindo com o formato
digital 3D, e os shoppings estão dispostos a ser parceiros nessa
empreitada.
O cinema é
considerado “âncora” de um shopping?
Sim, o cinema é uma âncora, mas não a principal. As
principais são, sempre, as grandes lojas de departamento – como Renner, C&A e Lojas Americanas, por exemplo. O cinema
ocupa muita área e exige muito investimento do empreendedor, é um modelo de
negócio com rentabilidade baixa para o shopping. Porém, é uma atividade necessária.
Fala-se em um novo
boom de investimentos no
setor de shoppings.
O senhor confirma?
Nos últimos dois anos e meio, o Brasil viveu um
momento de muitos investimentos em empresas de shopping centers. Sete “players” estrangeiros que representam as
maiores empresas do setor no mundo chegaram ao país. Mas esse processo ainda
está em andamento, e é difícil saber o quanto a crise
econômica mundial vai afetá-lo. Estão todos em compasso de
espera. O que está havendo no mundo é uma nova “precificação”
– os preços das coisas estão sendo redimensionados. Mas já houve uma grande
entrada de capital estrangeiro e o processo de consolidação do setor já teve
início. Os dez maiores players americanos têm mais de 70% do
mercado nos EUA. Os cinco maiores players canadenses têm 85% do mercado no
Canadá. Aqui, esse percentual está em 30%. Até o fim de 2008, mais nove shoppings serão inaugurados. O shopping center
é um bom negócio,
mas é também um equipamento de custo muito alto. Com a retração mundial, deve
haver uma retração do mercado.
Em um primeiro
momento os shoppings se
concentraram nos grandes centros urbanos e nas classes A/B. Esta nova expansão
vai contemplar cidades médias e pequenas e as classes C/D, que estão sendo
incorporadas ao mercado consumidor?
Sim, os shoppings brasileiros estão migrando para as cidades de
médio porte e procurando contemplar as classes B e C. As cidades de grande
porte e as classes A e B, de uma forma geral, já estão atendidas, e há muitas
oportunidades em outros setores da sociedade. Um bom exemplo é o Itaquera, em São Paulo, um complexo que chega para uma
comunidade de classe C, em um bairro de um milhão de pessoas, em uma região que
não era atendida por shoppings, ao lado da estação do metrô e do terminal rodoviário. Em breve, será
inaugurado o primeiro complexo de Porto Velho, em Rondônia. É uma cidade de 400
mil habitantes, que tem duas salas de cinema.
O shopping levará para a cidade o primeiro multiplex (da Cinematográfica Araújo). Em Porto Velho, uma
cidade que não tem lazer e está em franco crescimento, será construído o maior
projeto do PAC, a hidrelétrica do Rio Madeira, um investimento de R$ 12
milhões. Muitos engenheiros estão se mudando para lá, para participar da
construção.
Qual o tamanho
ideal de uma cidade para abrigar um shopping?
Não existe regra, tudo depende do tamanho do shopping. No caso da nossa empresa, por
exemplo, gostamos de cidades com mais de 400 mil habitantes, pois somos
especializados em shoppings de tamanho médio para grande. Mas existem empresas especializadas em
cidades de médio e pequeno porte. Recentemente, por exemplo, foi inaugurado o
primeiro shopping de Macaé, que tem 170 mil habitantes. O que existe é a necessidade de uma
compatibilidade entre o tamanho do mercado e o tamanho do shopping.
O formato do shopping
de lazer ainda é uma tendência forte do setor?
Não. O shopping de lazer que deu certo é aquele localizado em
cidades com altos índices de turismo, como Miami, Orlando, Cancun, Los Angeles. É um conceito diferente. Em um shopping tradicional, você vende produtos
e serviços que se renovam (as coleções, promoções, etc),
então o cliente está sempre buscando uma novidade. No shopping de lazer não tem essa mudança; o
que muda é o cliente, e é o fluxo de turistas que sustenta o negócio.
Qual a principal
tendência do setor?
São os chamados “complexos multiuso”,
com shopping, complexo residencial e complexo
comercial funcionando de forma integrada. Essa é uma tendência mundial. Em
função dos problemas urbanos, as pessoas querem se deslocar menos. Uma outra
tendência é a verticalização. O Morumbi Shopping, por
exemplo, um dos mais antigos de São Paulo, fez uma torre comercial agora. É um
formato interessante, pois gera movimento desde cedo. Outro exemplo é o shopping
Nova América, no Rio, que tem 240 lojas, 60 salas comerciais
e um complexo da White Martins, que tem sua sede operacional lá, com 600
funcionários e escritórios de quatro mil metros quadrados.
Como é a relação
entre os shoppings e
os grupos exibidores? Existe preferência por grupos estrangeiros em relação aos
nacionais, ou por alguma marca em relação a outra?
A relação é boa, respeitosa e bem sucedida. Não
faria distinção entre os grupos estrangeiros e os nacionais e não acredito que
existam preferências nesse sentido. Cada negociação é uma negociação. A Cinemark, talvez, seja mais agressiva. Construir cinemas é uma
conta cara para um empreendedor, e em geral a Cinemark
consegue oferecer mais vantagens.
Por fim, qual
deverá ser o real impacto da crise econômica mundial?
O mundo está vivendo uma readequação. Em relação aos
novos investimentos em shoppings, nos Estados Unidos, o que se fala é que só aquilo
que realmente faz sentido econômico e mercadológico será levado adiante, e o
resto será abortado. O mundo está tomando uma proporção muito mais realista, e provavelmente
isso também vai valer no Brasil. Um exemplo: em Jundiaí, onde já existe um shopping center, há projetos de construção de
dois novos shoppings. Mas o fato é que não cabem três shoppings lá, então, provavelmente, esses dois em projeto
se transformarão em um.
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