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   Entrevista
  MARCELO CARVALHO

   Presidente da Associação Brasileira de Shopping Centers




    Publicado em nov/2008 – Revista Filme B Edição especial Show Búzios


Nos últimos anos, a expansão do circuito exibidor brasileiro esteve estritamente relacionada ao crescimento dos shopping centers. Os dois setores se modernizaram e foram alvos de investimentos estrangeiros que contribuíram para estabelecer um novo padrão para o consumidor. Desde 2000, o número de shoppings no Brasil aumentou 35%, e a previsão é de que, até o fim de 2009, o setor chegue à marca de 400 shoppings, segundo a Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce). “O boom dos shoppings convergiu com o boom dos multiplex. E o multiplex representa a modernidade do cinema, é tudo o que o shopping quer”, confirma Marcelo Carvalho, presidente da Abrasce e do Grupo Ancar, do qual fazem parte os shoppings Rio Design Leblon e Barra, no Rio de Janeiro, entre outros.

 

Na entrevista a seguir, Marcelo Carvalho fala da importância do cinema para os shoppings e analisa os possíveis efeitos da crise econômica mundial no processo de expansão do setor, que está em pleno curso. Se a expectativa era de que, em 2008, a taxa de crescimento dos shoppings repetisse a de 2007 (16%), hoje a previsão baixou para algo entre 11% e 12%. Um crescimento, ainda assim, considerável.

 

Quais os critérios da Abrasce para considerar um estabelecimento como shopping center?

Seguimos o padrão internacional, que estabelece determinados parâmetros. Um deles é que o shopping center precisa ser uma propriedade única, com administração centralizada e regras de conduta claras. As lojas, em sua grande maioria, são locadas, e não vendidas. Em um shopping “vendido”, você pode chegar no sábado às quatro da tarde e encontrar metade das lojas fechadas. Não há controle de “mix” e, por isso, o dono do ponto pode utilizar o espaço para a atividade que quiser. Nos shoppings associados à Abrasce, o dono do ponto somos nós. Fazemos uma locação dentro de regras definidas. O sucesso do shopping center vem desse modelo bastante fundamentado.

 

Por que os shopping centers se tornaram uma verdadeira “paixão nacional” do brasileiro?

A indústria de shoppings é bem-sucedida em todo o mundo. É um equipamento urbano que deu certo e se transformou, na verdade, em uma “paixão mundial”, principalmente nas grandes cidades. O planeta está se tornando cada vez mais urbanizado e, com os problemas que surgem daí, o shopping center costuma representar um oásis de organização, estrutura e planejamento. A gente costuma dizer que o sucesso do shopping center brasileiro é fruto do caos urbano.

 

E qual a importância do cinema para os shoppings?

Dentro desse contexto, entra a questão do consumo e do lazer das famílias – e o cinema tem uma importância muito grande quando você fala em entretenimento em shopping. O cinema é, disparado, nossa maior categoria de entretenimento: 85% dos shoppings têm cinemas, enquanto 44% oferecem jogos eletrônicos e parques infantis, e apenas 20% têm boliche.

 

Qual a importância do formato multiplex, especificamente?

O boom dos shoppings no Brasil convergiu com o boom dos multiplex. O multiplex representa a modernidade do cinema, é tudo o que o shopping quer. Houve uma coincidência grande, favorável para os dois setores. Com o tempo, é claro, foram feitas adaptações. Os primeiros multiplex tinham entre 10 e 12 salas, mas nos últimos anos estão diminuindo de tamanho. Eu diria que, hoje, a tendência é a construção de multiplex com cinco e seis salas, em média. O conceito de stadium é fundamental por causa do conforto que ele proporciona ao espectador. E a questão do 3D está chegando também. Todos os novos complexos estão vindo com o formato digital 3D, e os shoppings estão dispostos a ser parceiros nessa empreitada.

 

O cinema é considerado “âncora” de um shopping?

Sim, o cinema é uma âncora, mas não a principal. As principais são, sempre, as grandes lojas de departamento – como Renner, C&A e Lojas Americanas, por exemplo. O cinema ocupa muita área e exige muito investimento do empreendedor, é um modelo de negócio com rentabilidade baixa para o shopping. Porém, é uma atividade necessária.

 

Fala-se em um novo boom de investimentos no setor de shoppings. O senhor confirma?

Nos últimos dois anos e meio, o Brasil viveu um momento de muitos investimentos em empresas de shopping centers. Sete “players” estrangeiros que representam as maiores empresas do setor no mundo chegaram ao país. Mas esse processo ainda está em andamento, e é difícil saber o quanto a crise econômica mundial vai afetá-lo. Estão todos em compasso de espera. O que está havendo no mundo é uma nova “precificação” – os preços das coisas estão sendo redimensionados. Mas já houve uma grande entrada de capital estrangeiro e o processo de consolidação do setor já teve início. Os dez maiores players americanos têm mais de 70% do mercado nos EUA. Os cinco maiores players canadenses têm 85% do mercado no Canadá. Aqui, esse percentual está em 30%. Até o fim de 2008, mais nove shoppings serão inaugurados. O shopping center é um bom negócio, mas é também um equipamento de custo muito alto. Com a retração mundial, deve haver uma retração do mercado.

 

Em um primeiro momento os shoppings se concentraram nos grandes centros urbanos e nas classes A/B. Esta nova expansão vai contemplar cidades médias e pequenas e as classes C/D, que estão sendo incorporadas ao mercado consumidor?

Sim, os shoppings brasileiros estão migrando para as cidades de médio porte e procurando contemplar as classes B e C. As cidades de grande porte e as classes A e B, de uma forma geral, já estão atendidas, e há muitas oportunidades em outros setores da sociedade. Um bom exemplo é o Itaquera, em São Paulo, um complexo que chega para uma comunidade de classe C, em um bairro de um milhão de pessoas, em uma região que não era atendida por shoppings, ao lado da estação do metrô e do terminal rodoviário. Em breve, será inaugurado o primeiro complexo de Porto Velho, em Rondônia. É uma cidade de 400 mil habitantes, que tem duas salas de cinema.

O shopping levará para a cidade o primeiro multiplex (da Cinematográfica Araújo). Em Porto Velho, uma cidade que não tem lazer e está em franco crescimento, será construído o maior projeto do PAC, a hidrelétrica do Rio Madeira, um investimento de R$ 12 milhões. Muitos engenheiros estão se mudando para lá, para participar da construção.

 

Qual o tamanho ideal de uma cidade para abrigar um shopping?

Não existe regra, tudo depende do tamanho do shopping. No caso da nossa empresa, por exemplo, gostamos de cidades com mais de 400 mil habitantes, pois somos especializados em shoppings de tamanho médio para grande. Mas existem empresas especializadas em cidades de médio e pequeno porte. Recentemente, por exemplo, foi inaugurado o primeiro shopping de Macaé, que tem 170 mil habitantes. O que existe é a necessidade de uma compatibilidade entre o tamanho do mercado e o tamanho do shopping.

 

O formato do shopping de lazer ainda é uma tendência forte do setor?

Não. O shopping de lazer que deu certo é aquele localizado em cidades com altos índices de turismo, como Miami, Orlando, Cancun, Los Angeles. É um conceito diferente. Em um shopping tradicional, você vende produtos e serviços que se renovam (as coleções, promoções, etc), então o cliente está sempre buscando uma novidade. No shopping de lazer não tem essa mudança; o que muda é o cliente, e é o fluxo de turistas que sustenta o negócio.

 



Qual a principal tendência do setor?

São os chamados “complexos multiuso”, com shopping, complexo residencial e complexo comercial funcionando de forma integrada. Essa é uma tendência mundial. Em função dos problemas urbanos, as pessoas querem se deslocar menos. Uma outra tendência é a verticalização. O Morumbi Shopping, por exemplo, um dos mais antigos de São Paulo, fez uma torre comercial agora. É um formato interessante, pois gera movimento desde cedo. Outro exemplo é o shopping Nova América, no Rio, que tem 240 lojas, 60 salas comerciais e um complexo da White Martins, que tem sua sede operacional lá, com 600 funcionários e escritórios de quatro mil metros quadrados.

 

Como é a relação entre os shoppings e os grupos exibidores? Existe preferência por grupos estrangeiros em relação aos nacionais, ou por alguma marca em relação a outra?

A relação é boa, respeitosa e bem sucedida. Não faria distinção entre os grupos estrangeiros e os nacionais e não acredito que existam preferências nesse sentido. Cada negociação é uma negociação. A Cinemark, talvez, seja mais agressiva. Construir cinemas é uma conta cara para um empreendedor, e em geral a Cinemark consegue oferecer mais vantagens.

 

Por fim, qual deverá ser o real impacto da crise econômica mundial?

O mundo está vivendo uma readequação. Em relação aos novos investimentos em shoppings, nos Estados Unidos, o que se fala é que só aquilo que realmente faz sentido econômico e mercadológico será levado adiante, e o resto será abortado. O mundo está tomando uma proporção muito mais realista, e provavelmente isso também vai valer no Brasil. Um exemplo: em Jundiaí, onde já existe um shopping center, há projetos de construção de dois novos shoppings. Mas o fato é que não cabem três shoppings lá, então, provavelmente, esses dois em projeto se transformarão em um.


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