Com mais de 30 anos de experiência no mercado de cinema, Jorge
Peregrino é, hoje, um dos executivos brasileiros que ocupam cargos
internacionais de destaque no setor.
Depois de passar pelo Instituto Nacional de Cinema, pelo Concine
e pela Embrafilme, em 1986 Peregrino entrou para a United International
Pictures, a joint
venture que distribuía os filmes da Paramount e da Universal no
Brasil. Na UIP, teve uma rápida ascensão e chegou ao cargo de vice-presidente
internacional. Em janeiro de do ano passado, quando a UIP foi dissolvida e a
Paramount assumiu o escritório da companhia no Brasil, o executivo passou a
ocupar o cargo de VP sênior de distribuição da Paramount Pictures International
para a América Latina.
Nos últimos anos, a Paramount tem aumentado sua
participação na co-produção e distribuição de filmes brasileiros. Entre os
próximos lançamentos está o filme escolhido para abrir o Festival do Rio, Última
parada - 174, de Bruno Barreto. Na entrevista a seguir,
Peregrino analisa a importância da América Latina para Hollywood e os desafios
do mercado de cinema no país.
FILME B:
Qual a importância da América Latina – e do Brasil em particular – no atual
panorama internacional do mercado de cinema? Existe espaço para o crescimento
do segmento theatrical nesses países?
JORGE
PEREGRINO: Dependendo do filme, a América Latina pode significar até 20% de sua
renda bruta mundial. Ainda existe muito espaço para crescimento, e ele está
ocorrendo em outros países que não o Brasil. Há aproximadamente oito anos, a
América Latina, incluindo o Brasil, tinha cerca de 6,1 mil cinemas; hoje já
supera nove mil. Territórios como Panamá e América Central são alvo, neste
momento, de pesados investimentos na construção de novas salas por grupos como
Cinemark e Cinepolis. Pequenos países como Costa Rica, Guatemala e El Salvador
já contam com vários multiplex. A Cinepolis inaugurou em julho seu
primeiro cinema na Colômbia. A aquisição do circuito da Hoyts no Chile e na Argentina
com fundos de equity supridos pelo JP Morgan, a aquisição do circuito MM
Cinemas no México por um fundo de investimentos da Argentina, a entrada de um
outro fundo de investimento associado estrategicamente à Cinecolombia, e o
crescimento exponencial dos multiplex no Equador são fatores que indicam, a meu
ver, movimentação de capitais que não estariam sendo investidos se não
houvesse perspectiva de retorno na região. Junto com China, Índia, Vietnã e
vários países do Leste Europeu, a América Latina ainda é um dos poucos pontos
do globo onde há potencial de crescimento. O Brasil, atualmente, em virtude do
fortalecimento do real frente ao dólar, ao menos para a Paramount, varia entre
o 8º e o 10º lugar em termos de faturamento. Poderíamos faturar mais se
houvesse mais cinemas.
As
companhias americanas vêm tendo uma grande participação no market share do
produto nacional, mas, pelo menos no Brasil, há uma grande irregularidade nos
resultados. O que se pode fazer para conseguir melhorar os resultados dos
filmes locais?
Não
tenho a fórmula para melhorar os resultados, quem me dera. O que se tem notado,
mais recentemente, é a pressa que as produtoras têm em desenvolver seus
projetos. Mas elas não podem fazer de forma diferente, porque o próprio sistema
obriga que elas façam filmes cada vez mais rapidamente, para que possam começar
a captar de novo e manter a empresa com a cabeça fora d’água. Enquanto não se
instalar uma política de produção que contemple a produtora e não os filmes,
vamos acertar apenas nas exceções. Os Funcines podem ser uma importante arma,
se permitirem que funcionem como devem: prover lucros para cotistas pela busca
de filmes mais comerciais. A meu ver, no campo da produção, as pessoas não
querem encarar duas coisas que precisam ser discutidas. Em primeiro lugar,
precisamos nos perguntar sobre o tipo de filme que tem sido feito, em geral sem
qualquer compromisso com sua viabilidade comercial. Em segundo lugar, não
podemos deixar na fila dos editais os responsáveis pelos maiores sucessos do
cinema brasileiro. É preciso criar um sistema de meritocracia. Por fim, não
acredito que o Fundo Setorial vá resolver coisa alguma. Do jeito que está se
desenhando, tem um sentido muito mais político do que deveria ter.
O cinema
enfrenta hoje uma forte competição com outras formas de lazer e, também, com
outras janelas do produto audiovisual. Neste momento, as outras janelas já estão
no mercado no formato digital – e o cinema, ainda não. Como o theatrical pode
se tornar mais competitivo? Como evitar a queda de público?
A atividade cinematográfica no Brasil está
engessada, e isto não é bom. Outro dia, ouvindo o discurso do velho e ainda
mais sábio Luiz Carlos Barreto após receber a medalha Pedro Ernesto, fiquei
pensando como ele falou bem: o cinema, que é uma linguagem, foi transformado em
um simples conteúdo. Se nós adotarmos uma definição boba, infantil e “da hora”
que iguala tudo a um simples conteúdo, apenas conseguiremos esmagar a
originalidade e o contato com o público. Afinal, qualquer coisa é chamada de
conteúdo atualmente. O governo diz estar cumprindo sua parte, mas não concordo.
A Ancine é a Agência Nacional do Cinema, mas quer ser a Agência Nacional do
Audiovisual. Cinema é linguagem, não é conteúdo; é a primeira janela do audiovisual
e é a atividade mais arriscada em termos de investimento. Então, merece uma
atenção especial. Em breve, o theatrical irá se tornar mais competitivo
com o digital e com a construção de novas salas. O passo seguinte será o 3D.
Países muito menores já têm mais instalações em digital e em 3D – sem falar do
IMAX –, do que o Brasil. Você pode lançar todos os filmes – blockbusters,
de arte, de todas as nacionalidades –, simultaneamente ao lançamento em seus
países de origem. A utilização do cinema para outras exibições que não apenas
filmes certamente vai contribuir para que ele possa competir com a distribuição
digital em suas diversas plataformas. Se nós fôssemos contar as vezes em que o
cinema iria acabar, seja pelo advento do vídeo, do DVD, da TV a cores, da TV
paga e agora do celular, há muito tempo teríamos desistido. A queda de público
se evita com produto bom.
Mas para
voltar a crescer, o que é preciso?
O
cinema, para se expandir, precisa das classes C e D – mas isso não é novidade
nenhuma. A questão é: como você vai promover e financiar essa expansão? É claro
que a questão do preço do ingresso afeta, mas é uma falsa questão. O preço
médio está aumentando porque os exibidores estão construindo cinemas em zonas
de maior poder aquisitivo – uma escolha natural. Hoje, construir em zonas
populares, só com muito incentivo. Idealmente todos os exibidores gostariam de
cobrar R$ 8, R$ 6, mas a meia-entrada e os custos não permitem. Se forem
construídos mais cinemas em zonas populares, o preço cai automaticamente, como
aconteceu no México. Não vamos a lugar algum enquanto não resolvermos o
problema do financiamento à exibição. E já sabemos que os modelos propostos
via BNDES não funcionam: os juros são menores, mas não suficientemente, e as
exigências de garantia são muitas, quando os exibidores já não são mais donos
de imóveis, como antigamente. O governo deveria tomar uma decisão radical: a
exibição teria acesso ao mesmo volume de dinheiro destinado anualmente à
produção. Esse dinheiro seria devolvido sem juros, num prazo de dez anos, por
exemplo. Baixar o preço, simplesmente, não vai solucionar a questão. E também
não é a distribuição do vale-cultura. O sujeito não vai passar a ir ao cinema
porque tem um vale na mão. Em que cinema ele vai, se não tem salas perto de
onde ele mora? A explicação não é tão simplista. Vale-cultura é puro discurso.
A crise
da economia americana e suas conseqüências no mundo podem afetar os estúdios e
suas divisões internacionais? Como? O que fazer para evitar a contaminação da crise?
Não
vejo como a crise da economia americana possa afetar os estúdios. Ao contrário:
em tempos de crise, o cinema é o escape. Maio de 2008 nos Estados Unidos foi
melhor que maio de 2007, em público e renda, graças ao produto. Por que o
cinema seria diferente perante seu consumidor? Se for bom, o produto é
consumido e pronto. Quando você observa que maio de 2008 foi pior que maio de
2007 no Brasil, é só admitir que o público acha melhor Homem-aranha 3 do
que Homem de Ferro e Indiana Jones e o reino da caveira de cristal, só
para citar dois filmes lançados pela Paramount.
O
processo do cinema digital já está definido e entrando em prática nos Estados
Unidos e na Europa. Qual a melhor política para o Brasil se adaptar à
transição digital e qual seria a melhor estratégia para os grandes, médios e
pequenos exibidores?
A
política a ser seguida no Brasil não vai diferir da que já foi seguida pelos
estúdios na Europa e nos Estados Unidos. Aliás, a política será a mesma em toda
a América Latina. Os estúdios já acertaram um modelo de financiamento, como já
se sabe, por meio do VPF (virtual print fee), e não será diferente por
aqui. Existem pontos que dificultam um pouco mais, como os impostos, ou
inverdades como a que diz que o sistema DCI seria inviável para o produto
brasileiro em função do preço de conversão para o digital 2K, etc. Mas é apenas
uma questão de tempo.
Por fim,
quais as suas expectativas em relação a Última parada – 174 e quais
serão as próximas co-produções da Paramount Pictures International no Brasil?
Acredito que Última Parada – 174, assim como Tropa
de elite e Meu nome não é Johnny, toca em um assunto que está muito
perto das pessoas de uma maneira geral. Daí a saber se ele atende à demanda
do público em relação aos filmes brasileiros, é outra história. O que posso
dizer é que as reações que eu presenciei, sem exceção, são excelentes. Vamos
ver o que o público diz... No momento, a Paramount já tem assinado o contrato
para quatro novos filmes: Aparecida, com direção de Rogério Gomes, A
suprema felicidade, o próximo filme de Arnaldo Jabor, um documentário sobre
Raul Seixas, com produção de Alain Fresnot, e Além do amor, o próximo
filme de Miguel Faria Jr, diretor do Vinícius. Outros projetos ainda
estão sendo negociados, mas ainda é prematuro falar.
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