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   Entrevista
  JORGE PEREGRINO




    Publicado em set/2008 – Revista Filme B Edição especial Festival do Rio



Com mais de 30 anos de experiência no mercado de cinema, Jorge Peregrino é, hoje, um dos executivos brasileiros que ocupam cargos internacionais de destaque no setor.

 

Depois de passar pelo Instituto Nacional de Cinema, pelo Concine e pela Embrafilme, em 1986 Peregrino entrou para a United International Pictures, a joint venture que distribuía os filmes da Paramount e da Universal no Brasil. Na UIP, teve uma rápida ascensão e chegou ao cargo de vice-presidente internacional. Em janeiro de do ano passado, quando a UIP foi dissolvida e a Paramount assumiu o escritório da companhia no Brasil, o executivo passou a ocupar o cargo de VP sênior de distribuição da Paramount Pictures International para a América Latina.

 

Nos últimos anos, a Paramount tem aumentado sua participação na co-produção e distribuição de filmes brasileiros. Entre os próximos lançamentos está o filme escolhido para abrir o Festival do Rio, Última parada - 174, de Bruno Barreto. Na entrevista a seguir, Peregrino analisa a importância da América Latina para Hollywood e os desafios do mercado de cinema no país.

 

 

FILME B: Qual a importância da América Latina – e do Brasil em particular – no atual panorama internacional do mercado de ci­nema? Existe espaço para o crescimento do segmento theatrical nesses países?

JORGE PEREGRINO: Dependendo do filme, a América Latina pode significar até 20% de sua renda bruta mundial. Ainda existe muito espaço para crescimento, e ele está ocorrendo em outros países que não o Brasil. Há aproximadamente oito anos, a América Latina, incluindo o Bra­sil, tinha cerca de 6,1 mil cinemas; hoje já supera nove mil. Territórios como Panamá e América Central são alvo, neste momento, de pesados investi­mentos na construção de novas salas por grupos como Cinemark e Cine­polis. Pequenos países como Costa Rica, Guatemala e El Salvador já con­tam com vários multiplex. A Cinepo­lis inaugurou em julho seu primeiro cinema na Colômbia. A aquisição do circuito da Hoyts no Chile e na Ar­gentina com fundos de equity supridos pelo JP Morgan, a aquisição do circuito MM Cinemas no México por um fundo de investimentos da Argentina, a entrada de um outro fundo de investimento as­sociado estrategicamente à Cinecolom­bia, e o crescimento exponencial dos multiplex no Equador são fatores que indicam, a meu ver, movimentação de capitais que não estariam sendo investi­dos se não houvesse perspectiva de re­torno na região. Junto com China, Índia, Vietnã e vários países do Leste Europeu, a América Latina ainda é um dos poucos pontos do globo onde há potencial de crescimento. O Brasil, atualmente, em virtude do fortalecimento do real frente ao dólar, ao menos para a Paramount, varia entre o 8º e o 10º lugar em termos de faturamento. Poderíamos faturar mais se houvesse mais cinemas.

 

As companhias americanas vêm tendo uma grande participação no market share do produto nacional, mas, pelo menos no Brasil, há uma grande irregularidade nos resulta­dos. O que se pode fazer para con­seguir melhorar os resultados dos filmes locais?

Não tenho a fórmula para melhorar os resultados, quem me dera. O que se tem notado, mais recentemente, é a pressa que as produtoras têm em desenvolver seus projetos. Mas elas não podem fazer de forma diferente, porque o próprio sistema obriga que elas façam filmes cada vez mais rapidamente, para que possam começar a captar de novo e manter a empresa com a cabeça fora d’água. En­quanto não se instalar uma política de produção que contemple a produtora e não os filmes, vamos acertar apenas nas exceções. Os Funcines podem ser uma importante arma, se permitirem que funcionem como devem: prover lucros para cotistas pela busca de filmes mais comerciais. A meu ver, no campo da produção, as pessoas não querem enca­rar duas coisas que precisam ser discuti­das. Em primeiro lugar, precisamos nos perguntar sobre o tipo de filme que tem sido feito, em geral sem qualquer com­promisso com sua viabilidade comercial. Em segundo lugar, não podemos deixar na fila dos editais os responsáveis pelos maiores sucessos do cinema brasileiro. É preciso criar um sistema de meritocracia. Por fim, não acredito que o Fundo Se­torial vá resolver coisa alguma. Do jeito que está se desenhando, tem um sentido muito mais político do que deveria ter.

 

O cinema enfrenta hoje uma forte competição com outras formas de lazer e, também, com outras jane­las do produto audiovisual. Neste momento, as outras janelas já es­tão no mercado no formato digi­tal – e o cinema, ainda não. Como o theatrical pode se tornar mais competitivo? Como evitar a queda de público?

A atividade cinematográfica no Brasil está engessada, e isto não é bom. Outro dia, ouvindo o discurso do velho e ainda mais sábio Luiz Carlos Barreto após receber a medalha Pedro Ernesto, fiquei pensando como ele falou bem: o cinema, que é uma linguagem, foi transformado em um simples conteúdo. Se nós adotarmos uma definição boba, infantil e “da hora” que iguala tudo a um simples conteúdo, apenas conseguiremos esmagar a originalidade e o contato com o público. Afinal, qualquer coisa é chamada de conteúdo atualmente. O governo diz estar cumprindo sua parte, mas não concordo. A Ancine é a Agência Nacional do Cinema, mas quer ser a Agência Nacional do Audiovisual. Cinema é linguagem, não é conteúdo; é a primeira janela do audio­visual e é a atividade mais arriscada em termos de investimento. Então, merece uma atenção especial. Em breve, o thea­trical irá se tornar mais competitivo com o digital e com a construção de novas salas. O passo seguinte será o 3D. Países muito menores já têm mais instalações em digital e em 3D – sem falar do IMAX –, do que o Brasil. Você pode lançar todos os filmes – blockbusters, de arte, de todas as nacionalidades –, simultane­amente ao lançamento em seus países de origem. A utilização do cinema para outras exibições que não apenas filmes certamente vai contribuir para que ele possa competir com a distribuição digital em suas diversas plataformas. Se nós fôs­semos contar as vezes em que o cinema iria acabar, seja pelo advento do vídeo, do DVD, da TV a cores, da TV paga e agora do celular, há muito tempo terí­amos desistido. A queda de público se evita com produto bom.

 

Mas para voltar a crescer, o que é preciso?

O cinema, para se expandir, precisa das classes C e D – mas isso não é novidade nenhuma. A questão é: como você vai promover e financiar essa expansão? É claro que a questão do preço do ingresso afeta, mas é uma falsa questão. O preço médio está aumentando porque os exi­bidores estão construindo cinemas em zonas de maior poder aquisitivo – uma escolha natural. Hoje, construir em zo­nas populares, só com muito incentivo. Idealmente todos os exibidores gosta­riam de cobrar R$ 8, R$ 6, mas a meia-entrada e os custos não permitem. Se fo­rem construídos mais cinemas em zonas populares, o preço cai automaticamente, como aconteceu no México. Não vamos a lugar algum enquanto não resolvermos o problema do financiamento à exibição. E já sabemos que os modelos propos­tos via BNDES não funcionam: os juros são menores, mas não suficientemente, e as exigências de garantia são muitas, quando os exibidores já não são mais donos de imóveis, como antigamente. O governo deveria tomar uma decisão radical: a exibição teria acesso ao mes­mo volume de dinheiro destinado anu­almente à produção. Esse dinheiro seria devolvido sem juros, num prazo de dez anos, por exemplo. Baixar o preço, sim­plesmente, não vai solucionar a questão. E também não é a distribuição do vale-cultura. O sujeito não vai passar a ir ao cinema porque tem um vale na mão. Em que cinema ele vai, se não tem salas perto de onde ele mora? A explicação não é tão simplista. Vale-cultura é puro discurso.

 

A crise da economia americana e suas conseqüências no mundo po­dem afetar os estúdios e suas divisões internacionais? Como? O que fazer para evitar a contaminação da crise?

Não vejo como a crise da economia americana possa afetar os estúdios. Ao contrário: em tempos de crise, o cinema é o escape. Maio de 2008 nos Estados Unidos foi melhor que maio de 2007, em público e renda, graças ao produto. Por que o cinema seria diferente perante seu consumidor? Se for bom, o produ­to é consumido e pronto. Quando você observa que maio de 2008 foi pior que maio de 2007 no Brasil, é só admitir que o público acha melhor Homem-aranha 3 do que Homem de Ferro e Indiana Jones e o reino da caveira de cristal, só para citar dois filmes lançados pela Paramount.

 

O processo do cinema digital já está definido e entrando em prática nos Estados Unidos e na Europa. Qual a melhor política para o Brasil se adaptar à transição digi­tal e qual seria a melhor estratégia para os grandes, médios e peque­nos exibidores?

A política a ser seguida no Brasil não vai diferir da que já foi seguida pelos estúdios na Europa e nos Estados Unidos. Aliás, a política será a mesma em toda a América Latina. Os estúdios já acertaram um mo­delo de financiamento, como já se sabe, por meio do VPF (virtual print fee), e não será diferente por aqui. Existem pontos que dificultam um pouco mais, como os impostos, ou inverdades como a que diz que o sistema DCI seria inviável para o produto brasileiro em função do preço de conversão para o digital 2K, etc. Mas é apenas uma questão de tempo.

 

Por fim, quais as suas expectativas em relação a Última parada – 174 e quais serão as próximas co-pro­duções da Paramount Pictures In­ternational no Brasil?

Acredito que Última Parada – 174, assim como Tropa de elite e Meu nome não é Johnny, toca em um assunto que está muito perto das pessoas de uma maneira geral. Daí a saber se ele atende à de­manda do público em relação aos filmes brasileiros, é outra história. O que posso dizer é que as reações que eu presenciei, sem exceção, são excelentes. Vamos ver o que o público diz... No momento, a Paramount já tem assinado o contrato para quatro novos filmes: Aparecida, com direção de Rogério Gomes, A suprema felicidade, o próximo filme de Arnaldo Jabor, um documentário sobre Raul Seixas, com produção de Alain Fresnot, e Além do amor, o próximo filme de Miguel Faria Jr, diretor do Vinícius. Outros projetos ainda estão sendo negociados, mas ainda é prematuro falar.


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