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  ShoWest




    Publicado em abril de 2010 – Revista Filme B - Edição Especial - Show de Inverno

   Por Pedro Butcher e Paulo Sérgio Almeida



A Filme B visitou a maior convenção de cinema dos Estados Unidos, em Las Vegas, onde o futuro da indústria do cinema está em jogo.

LAS VEGAS, EUA – Robert Bagby, veterano exibidor americano com mais de 30 anos de experiência, resumiu assim o atual estado do mercado cinematográfico nos EUA: “Este é o momento mais intenso e incomum que já presenciei neste negócio. Mas os problemas são ótimos, estimulantes”, disse ele, em entrevista ao jornal Los Angeles Times.

Bagby referia-se, é claro, à revolução digital e à febre do 3D, temas dominantes do último ShoWest, que se realizou em Las Vegas entre 15 e 18 de março. Frequentadores da maior convenção de cinema dos Estados Unidos foram unânimes em defini-la como a mais movimentada dos últimos anos. As sessões especiais dos filmes da próxima temporada de férias – com destaque para Toy Story 3, Shrek para sempre, Príncipe da Pérsia e Karate Kid –, bem como as apresentações dos estúdios, só reforçaram o clima de entusiasmo: “Nunca vi os exibidores tão excitados”, afirmou Luiz Severiano Ribeiro, do GSR, um dos representantes do Brasil presentes no evento.

Como ficou claro no ShoWest, depois de anos de grande estabilidade tanto do ponto de vista estrutural como das possibilidades de negócio, a exibição de filmes em tela grande atravessa um período de mudanças radicais e irreversíveis. Diante do desembarque da tecnologia digital nos cinemas – mas já de olho na chegada dos aparelhos de Blu-ray e das TVs 3D às lojas –, os executivos precisam tomar decisões cada vez mais complexas envolvendo difíceis apostas. As perguntas são muitas. Qual a melhor tecnologia de projeção: 2K ou 4K? Que sistema 3D deve ser adotado? Quais os melhores projetores e servidores?

Entre as várias possibilidades que se apresentam, algumas tendências são evidentes. A primeira delas é o 3D digital. Depois de idas e vindas, a tecnologia chegou para ficar e tem tudo para ser um divisor de águas. Com o sucesso de Avatar e Alice no país das maravilhas, a corrida dos exibidores para equipar suas salas foi tanta que os fabricantes de projetores e de telas prateadas não estão dando conta dos pedidos, com muitas encomendas prometidas apenas para o segundo semestre.

“Com a demanda aquecida e o atraso do lançamento da segunda série dos projetores – já compatível com o sistema 4K e com incrementos no sistema de segurança –, os pedidos de janeiro serão entregues em junho e os de fevereiro, em setembro. Ou seja: os exibidores precisam planejar seus pedidos já pensando no Natal”, afirma Isaac Besso, da Transisom, empresa especializada na infraestrutura das salas.

Mas o que garante que o 3D veio para ficar? “Desde Avatar não há mais volta, a demanda do mercado é evidente”, afirmou Michael Lewis, presidente da Real D, líder do segmento 3D, no ShoWest. Na apresentação da Warner, o presidente do estúdio, Alan Horn, anunciou que todas as grandes produções serão feitas em 3D ou convertidas para o formato. A Fox também divulgou que apenas os filmes de sua divisão de filmes de arte, a Fox Searchlight, não serão em 3D. Há mais tempo, DreamWorks Animation e Pixar já haviam definido que suas animações serão todas em 3D. Ou seja: a adesão dos estúdios é total.



Telas gigantes são forte tendência

Além do 3D, mais uma forte tendência que se pôde ver no ShoWest foi a projeção em tela gigante – outra maneira de diferenciar a experiência cinematográfica do home entertainment e de cobrar ingressos premium. No ano passado, a IMAX, empresa pioneira do formato, flexibilizou o padrão do tamanho de suas telas e introduziu a possibilidade da projeção digital, ampliando seu circuito principalmente no mercado internacional. Apesar de ter sofrido críticas, a resposta do público foi positiva, com resultados ainda mais impressionantes que os do 3D. Alguns exibidores seguiram a onda e lançaram formatos próprios de projeção em tela gigante. A Cinemark é um exemplo: a empresa já inaugurou, inclusive no Brasil (no complexo de Osasco, em São Paulo), as salas X-D (Extreme Digital Cinema), com tela maior que o normal e preços diferenciados.

A opção pelas telas gigantes acaba somando pontos para a tecnologia 4K, de presença ainda tímida no mercado americano, mas que, pelo que se soube no ShoWest, deverá crescer já a partir deste ano. Até há pouco tempo, os principais exibidores pareciam preferir o sistema 2K, que atende ao padrão mínimo exigido pelos estúdios para a projeção digital. Durante o ShoWest, porém, AMC e Regal, líderes da exibição nos EUA, anunciaram que adotarão o sistema de altíssima definição desenvolvido pela Sony.

Maior vantagem do 4K é competitiva

Segundo Amy Myles, diretora geral da Regal Entertainment, a empresa optou pelo 4K por ele oferecer “a melhor resolução de imagem possível”. A nota oficial da Sony explica que a definição de seu sistema é “quatro vezes maior que a dos sistemas de projeção 2K e das televisões de alta definição”. Ou seja, sutilmente, a nota afirma que a qualidade do 2K não está muito longe daquela de uma TV de última geração. Na opinião de analistas do mercado, o 4K dará à AMC e à Regal maior vantagem competitiva na hora de vender o novo produto, que, além de tudo, também é mais adequado para exibição em telas gigantes.
O 4K, porém, também é alvo de algumas críticas. Há exibidores que consideram a definição 2K satisfatória para a experiência do espectador, e o 4K, supérfluo. Outros argumentam que a tecnologia da Sony não teria a mesma capacidade de manter a vivacidade da imagem do chip 2K, que se utiliza de microespelhos. Durante algum tempo, também, apenas o 2K era capaz de produzir o efeito 3D, o que tinha deixado a Sony para trás. Mas esse quadro se reverteu.




Real D lidera mercado de 3D

A “virada” a favor do 4K terá outra importante consequência no mercado, pois deve reforçar a presença da Real D, tecnologia 3D dominante no mundo até agora, com 85% de market share na América do Norte e cinco mil salas 3D no total (três mil delas nos EUA e Canadá). Pelo menos por enquanto, apenas a Real D oferece uma solução tecnológica para operar com a definição 4K. Ainda assim, a competição no mercado 3D continua altíssima.

Além da Real D, outros três sistemas de projeção 3D estão à disposição dos exibidores: o da empresa coreana MasterImage (que possui 500 salas no mundo, a maior parte no mercado asiático), o da X-Pand (2,5 mil salas espalhadas principalmente pelo Japão, Coreia e alguns países da Europa), e o da Dolby (com 2,8 mil salas no mundo, boa parte na América Latina). No Brasil, a Cinemark trabalha com o sistema da Real D, mas todos os outros exibidores optaram pelo 3D da Dolby Digital. A opção pela Dolby teve como principal motivação a fuga dos altos custos da Real D. Todos os sistemas disponíveis são capazes de projetar filmes em 3D com qualidade semelhante – a principal diferença está no modelo de negócio que cada um oferece.

No caso da Real D, os exibidores precisam pagar uma licença anual pelo uso da tecnologia, que pode variar de US$ 5 mil a US$ 10 mil, dependendo do número de salas convertidas. Além disso, a empresa cobra uma participação na bilheteria de US$ 0,05 por ingresso vendido. A Real D também exige o uso da tela prateada, o que encarece ainda mais seu sistema. Em compensação, seus custos de instalação são menores. Dolby e X-Pand não exigem a substituição da tela, mas trabalham com óculos mais caros que os da Real D – e, por isso, recicláveis. No ShoWest, no entanto, a Real D anunciou que está testando o uso de óculos recicláveis, enquanto a Dolby afirmou que poderá adotar óculos descartáveis.

Nesta corrida, ainda sujeita a muitas reviravoltas, a Real D está na frente, e a Dolby, aparentemente, está ficando para trás – o que tem preocupado os exibidores brasileiros. Na verdade, o que deve garantir o futuro dessas empresas não é o 3D no cinema, que tem um limite de receita a partir do momento em que a transição digital se completar; o pote de ouro, na verdade, está na aplicação da tecnologia 3D para a televisão. Esse, por exemplo, é o verdadeiro foco da X-Pand, que já assinou acordos de licenciamento com vários fabricantes. O estande da empresa no ShoWest só confirmava isso: sua principal atração era uma TV 3D que mostrava o jogo de Avatar (ainda não disponibilizado no mercado neste formato). O mesmo vale para a Real D, que também já avançou neste terreno. A Dolby, porém, ainda não encontrou uma solução tecnológica para a TV 3D.

Transição digital avança nos EUA

A chegada da segunda série de projetores digitais da Dolby também apresentou uma limitação. No novo sistema, o servidor não é capaz de introduzir legendas na exibição do filme (caso se opte pela legendagem via servidor). No Brasil, isso ainda não é um problema, já que a preferência tem recaído na legendagem na cópia digital. De qualquer maneira, como solução provisória, a Dolby está oferecendo a possibilidade de usar o servidor Doremi para fins de legendagem, e, segundo Isaac Besso, essa questão já está perto de ser resolvida.

Se o sucesso do 3D garantiu o avanço da digitalização das salas em plena crise financeira, ainda que a passos miúdos, a transição digital nos EUA deve sofrer uma nova aceleração já a partir deste ano, na medida em que os problemas de crédito começam a ser superados. Recentemente, o Digital Cinema Implementation Partners (DCIP) – consórcio formado por AMC, Regal e Cinemark, três maiores grupos de exibição americanos – anunciou que, enfim, conseguiu levantar os US$ 660 milhões necessários para trocar, na íntegra, os projetores de suas salas. A digitalização completa de vários complexos deve proporcionar um novo boom de salas 3D nos EUA nos próximos dois anos (segundo estimativa da NATO, a associação nacional de exibidores dos EUA, até o fim de 2010 o mercado americano deve estar equipado com pelo menos sete mil salas 3D). O presidente da DreamWorks Animation, Jeffrey Katzenberg, que durante o ShoWest apresentou Shrek para sempre exclusivamente para os exibidores estrangeiros, lembrou que há três anos vem chamando atenção para a revolução do 3D, e frisou que a digitalização completa é muito mais vantajosa do que a compra de projetores isolados. “Com a digitalização integral dos circuitos, não é apenas uma sala por complexo que pode passar filmes em 3D, e sim três, quatro salas, pelo menos, por cinema”. É esse processo, justamente, que enfim está deslanchando nos EUA.

Ou seja: tudo indica que a substituição integral dos projetores 35mm por projetores digitais já está garantida para os grandes grupos de exibição americanos, enquanto as soluções para os pequenos e médios exibidores e para as realidades dos mercados internacionais ainda se encontram em um impasse – a ponto de a Technicolor ter apresentado, no ShoWest, uma solução provisória: com pequenas adaptações (lente e cópia especiais fornecidas pela empresa), qualquer projetor 35mm pode oferecer projeções em 3D. O sistema é considerado uma alternativa para se ampliar o circuito 3D enquanto ainda houver “gargalo”, mas apesar de ter recebido o apoio de quase todos os estúdios, a Disney ficou de fora, e muitos exibidores que investiram altas somas para converter suas salas para o digital são contra a adoção dessa solução.

O avanço da transição digital nos EUA poderá provocar uma grande mudança no atual panorama do mercado de cinema – a começar por uma possível concentração do setor de exibição nos EUA, com uma absorção dos pequenos e médios exibidores pelos grandes circuitos. Dependendo de como a transição digital ocorrer no restante do mundo, esse processo de concentração também pode se repetir em outros países.

Em segundo lugar, é bem possível que aconteça uma reversão de uma tendência que havia se firmado nos últimos anos, quando o faturamento dos estúdios nos mercados internacionais superou o doméstico em uma proporção que chegou a 70% para as rendas estrangeiras, contra 30% das bilheterias domésticas. Se a transição digital for mais lenta nos mercados internacionais do que nos EUA, como parece ser a tendência, a ampliação do número de salas 3D poderá dar um novo impulso ao mercado interno para os grandes blockbusters, invertendo esse quadro.

Em meio a tantas incertezas, no entanto, uma coisa é certa: diante de mais uma série de desafios econômicos e tecnológicos, o cinema está encontrando novos e surpreendentes caminhos de superação.

Seminário de exibição

Alice reacende debate sobre janela

Um dos destaques da programação do ShoWest 2010 foi o seminário voltado para os desafios e estratégias do setor da exibição, que contou com a participação de cinco executivos do ramo – entre eles o brasileiro Valmir Fernandes, presidente da Cinemark International. Conduzido por Elizabeth Guider, da Hollywood Reporter, o debate teve como foco os filmes 3D, o crescimento do conteúdo alternativo e a questão da janela de exibição – motivo de polêmica após a decisão da Disney de antecipar em algumas semanas o lançamento em DVD de Alice no país das maravilhas.
Sobre o “efeito Avatar”, Valmir Fernandes afirmou que a aventura de James Cameron se tornou um marco para o mercado latino-americano: “O filme abriu novas portas e levou o 3D para um novo patamar. Mesmo assim, o circuito 3D representa menos de 10% do total de salas”. Paul Heth, da Rising Star Media, que possui cinemas na Rússia, contou que Avatar atraiu espectadores que nunca tinham frequentado um cinema moderno no país.

A questão de uma possível diminuição da janela de filmes preocupa os exibidores. “No Brasil, a janela costuma ser de quatro meses e, em casos especiais, pode chegar a 90 dias. Não gosto da forma como os estúdios estão lidando com a questão e temo as consequências de se flexibilizar as janelas”, disse Valmir Fernandes.
Steve Wiener, da rede britânica Cineworld, se diz “realista” em relação à questão. “Sei que a janela vai encolher, mas precisamos ter cuidado. Reconheço também que precisamos ser flexíveis. No Reino Unido, por exemplo, a janela costuma ser de 17 semanas, o que cria problemas também para nós exibidores. Se um distribuidor estrear o filme em agosto, não conseguirá ter o filme em DVD no Natal. Então ele antecipa o lançamento para julho, o que causa uma sobrecarga no mês. É preciso ter bom senso”. Tom Stephenson, do grupo americano Rave Motion Pictures, disse que os esforços dos estúdios para antecipar a janela não estão necessariamente ligados ao DVD, um mercado em baixa. “Na verdade, é uma preparação para o futuro. O que está em jogo é o vídeo on demand. Temos uma geração que vai querer a opção de baixar o filme no mesmo dia em que estrear nos cinemas”. Paul Heth, da Rising Star Medias, foi categórico: “É fundamental tratar essa questão com cuidado. Não vamos prejudicar o setor da indústria que está indo bem”.

Antes visto com reticências pelos executivos, o conteúdo alternativo ganhou aceitação a partir de experiências positivas realizadas por vários grupos. Para Valmir Fernandes, é provável que os circuitos se transformem em centros de entretenimento. “Estamos fazendo algumas experiências nesse sentido”, disse. “Acho que temos grandes chances com shows exclusivos. E as vendas com bebidas e comida são bem melhores também”.Tom Stephenson, por fim, acredita que a emergência da transmissão de eventos esportivos em 3D será um marco nesta tendência.


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