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Por Luiz Gonzaga de Luca
1.QUAIS SÃO AS TECNOLOGIAS DE EXIBIÇÃO EM 3D DIGITAL DISPONÍVEIS NO MERCADO? QUAIS SÃO AS EMPRESAS QUE AS PRODUZEM? ESSAS TECNOLOGIAS
SÃO COMPATÍVEIS?
Antes de chegar aos cinemas, a tecnologia digital 3D já era
amplamente utilizada, por meio de dezenas de processos estereoscópicos
diferentes, em áreas industriais (como a indústria
petrolífera), na medicina e, principalmente, na arquitetura. No
caso específico da projeção digital em 3D para cinemas, porém,
existem apenas quatro processos: o Real D, que foi pioneiro
com o lançamento do filme O galinho Chicken Little, em 2005;
o Dolby 3D; o XpanD e o coreano Master Image (este, menos
conhecido, é utilizado em apenas 85 cinemas, quase todos na
Ásia, motivo pelo qual não o abordaremos com detalhes).
2. QUAIS AS VANTAGENS E DESVANTAGENS DE CADA TECNOLOGIA 3D?
Todos os quatro sistemas apresentam vantagens e desvantagens.
Um fator comum a todos eles é que utilizam óculos polarizados e,
por conta disso, há um alto percentual de perda de luz.
O Real D é, atualmente, o líder de mercado, principalmente nos
EUA, onde está presente em quase 70% das salas com tecnologia
3D. No caso desse processo, há uma grande perda de luz, sendo
necessário utilizar uma tela de alto ganho – tipo Perlux (fator 1.8)
ou Spectral (fator 2.2 ou 2.4) –, e que tem alto custo: cerca de US$
70 a US$ 85 por metro quadrado (preço FOB, ou seja, preço de
fábrica). Outra desvantagem é a formação de ghosting, que são os
“fantasmas” na sobreposição da imagem, embora a empresa venha
aperfeiçoando esse aspecto nas matrizes. Contudo, a questão mais
sensível no Real D não é tecnológica, mas financeira. Além de se
cobrar o software e os acessórios para o processamento 3D, que
custam em média US$ 25 mil, também é cobrada uma licença que
precisa ser renovada anualmente, próxima a US$ 10 mil.
O Dolby 3D, por sua vez, tem como uma de suas vantagens a própria
marca Dolby. A empresa tem tradição no mercado e é líder nas
tecnologias de som. Embora o sistema 3D da empresa também tenha
uma grande perda de luminosidade (que pode passar de 65%),
ela não exige a instalação da tela de alto ganho, o que representa
uma significativa economia no investimento. Além disso, a Dolby
cobra apenas a venda do software e dos acessórios de adaptação,
não havendo taxas anuais.
O XpanD, teoricamente, é o melhor sistema, por perder menos
luz e também por não exigir telas especiais. O fato de utilizar a
mesma matriz do Dolby 3D compensa sua maior deficiência: a falta
de tradição da empresa na indústria cinematográfica. O custo de
adaptação é baixo, mas, em compensação, os óculos, que precisam
utilizar lentes de cristal líquido (LCD), custam mais caro e têm se
mostrado frágeis.
3. TODOS OS PROJETORES DIGITAIS PODEM EXIBIR FILMES EM 3D?
A projeção estereoscópica digital em 3D só se
tornou viável por causa do estabelecimento dos
parâmetros dos projetores pelo DCI (Digital
Cinema Initiative). Eles têm a capacidade de
processar imagens em altíssima velocidade, de
até 144 quadros por segundo, e são extremamente
luminosos, tornando possível a projeção
com duas imagens polarizadas (mesmo que,
para isso cheguem a perder até 80% da luminosidade).
Para exibir imagens estereoscópicas
em projetores digitais mais simples seria necessário
usar dois projetores simultaneamente, o
que resolveria o problema da luminosidade. Em
compensação, não resolveria a questão do processamento
da imagem, já que os servidores
e projetores sem os requisitos DCI, devido às
características de compressão da imagem, não
conseguem alcançar a mesma rapidez.
4. O TAMANHO DA TELA FAZ DIFERENÇA NA ESCOLHA DAS TECNOLOGIAS E EQUIPAMENTOS? HÁ
ALGUM LIMITE DO TAMANHO DE TELA?
Sim. Um projetor DLP-Cinema de 18,5 mil lumens é adequado
para projeções Cinemascope 2D em telas mate (ou
seja, a tradicional) de até 13 metros. No caso das projeções
estereoscópicas, esse projetor tem um limite de oito
metros com telas mate e de dez metros com telas de alta
reflexão (fator 1.8 – tipo Perlux). Os projetores de até 30
mil lumens são recomendados para projeções 2D em telas
(fator 1.8) com até 22 metros de largura. Nas projeções
3D, estas caem para 13,5 metros de largura. A partir destas
dimensões, é recomendável utilizar dois projetores ao
mesmo tempo, para aumentar a luminosidade da projeção.
Vale ressaltar que é preciso ter cuidado com a indicação de
luminosidade ou luminância, pois tal indicação depende da
forma como foi medida.
5. NÃO HÁ RISCOS DE SE REPETIR O MESMO
PROBLEMA DO SOM DIGITAL, QUANDO TRÊS
SISTEMAS DIFERENTES E INCOMPATÍVEIS FORAM
LANÇADOS E APENAS UM SOBREVIVEU?
Os especialistas afirmam que esse risco não existe,
porque os projetores DLP Cinema servem para todos
os sistemas 3D. A Dolby é uma respeitada empresa
que trabalha na atividade cinematográfica há muitas décadas.
Líder mundial, a Real D, embora nova no setor,
é uma empresa tradicional em informática (diferentemente
da DTS, que era uma empresa totalmente nova,
ou da Sony, que até aquele momento nunca havia lançado
equipamentos para cinema). Os maiores receios
recaem sobre a Xpand, que é uma empresa de capital
esloveno, país de pouca tradição tecnológica.
6. AS MAJORS APOIAM ALGUM SISTEMA DE
PROCESSAMENTO EM 3D EM ESPECIAL?
Não. A matriz “bruta” do filme (DSM – Digital Source Master),
equivalente ao negativo em película, não se encontra
em nenhum sistema ou formato destinado especificamente
ao 3D, podendo ser adaptada para qualquer sistema. Como
o Xpand utiliza a mesma matriz de distribuição (DCDM –
Digital Cinema Distribution Master) que o Dolby 3D, os
estúdios estão oferecendo matrizes nos dois sistemas: Real
D e Dolby 3D, atendendo, portanto, aos três sistemas.
7. QUANTO CUSTA UM CONJUNTO DE EQUIPAMENTOS E
OS SOFTWARES PARA A EXIBIÇÃO EM 3D?
Para telas pequenas de até dez metros (com tela
mate), o conjunto de aparelhos e softwares custará
algo entre US$ 115 mil e US$ 130 mil. Para telas
maiores, o conjunto custará de US$ 135 mil a US$
145 mil. Esses custos incluem o projetor, o servidor,
os acessórios de interligação, o processador 3D, os
óculos e uma máquina de lavagem para os óculos.
No caso do sistema Real D, o investimento inicial em
softwares e adaptações é cerca de US$ 10 mil mais
barato que os seus concorrentes, mas, em compensação,
é preciso computar o custo da tela de alta
reflexão e os fees anuais. Para se calcular o preço final
da importação, de forma grosseira, pode-se aplicar
sobre o valor FOB (de fábrica) os impostos e os
fretes, que podem chegar a algo em torno de 50% a
75%, dependendo do ICMS do estado federativo do
importador. Recentemente, o estado do Rio de Janeiro
passou a oferecer isenção de ICMS – a alíquota era
de 18% sobre o custo final.
8. OS DISTRIBUIDORES PAGAM ALGUM VALOR
ADICIONAL (VIRTUAL PRINT FEE) PARA O
FORNECIMENTO DE CÓPIAS DIGITAIS EM 3D?
Os distribuidores entendem que a cobrança
de um valor mais alto de ingresso e o aumento
da frequência de público nas exibições em 3D
são suficientes para que os exibidores recuperem
os investimentos a longo prazo. Ademais,
argumentam que a digitalização das salas é mais
importante, pois solucionaria, inclusive, os problemas
de aquisição para as projeções 3D, já
que o projetor é o mesmo. Em territórios específicos,
alguns distribuidores têm liberado um
pequeno valor de contribuição para incentivar
a instalação dos sistemas 3D nos cinemas. De
toda forma, essas contribuições são inferiores
aos valores dos vpfs, que são as compensações
que os estúdios pagam aos cinemas que substituem
o 35mm pelo digital.
9. O DISTRIBUIDOR PARTICIPA DO PAGAMENTO DOS ÓCULOS?
OS ÓCULOS UTILIZADOS NAS PROJEÇÕES 3D SÃO
DESCARTÁVEIS? ELES PODEM SER REAPROVEITADOS?
A Real D utilizava apenas óculos descartáveis que tinham um custo FOB
de US$ 0,75. Os distribuidores fornecem esses óculos gratuitamente para
os cinemas. Não há, contudo, nenhum compromisso firmado para que isto
continue assim. No Brasil, a Cinemark e a Uci -Ribeiro (no NorteShopping,
Rio de Janeiro) têm reciclado os óculos, lavando-os até três vezes.
A Real D anunciou o lançamento de óculos que permitem até 50 usos e
que têm um custo mais elevado. Nesse caso, o distribuidor não participa
da compra. A Real D tem proposto também o lançamento de óculos que
serão adquiridos pelo espectador, podendo ser customizados ao seu desejo.
A Ray-Ban já anuncia esta alternativa, inclusive ofertando óculos com
correção de grau.
No caso do Dolby 3D, os óculos podem ser utilizados entre 500 e 600
vezes. O custo dos óculos da Dolby gira em torno de US$ 30, mas a
empresa tem feito promoções por até US$ 15, como para o lançamento
de Avatar.
No caso do Xpand, os óculos são bem mais caros e sofisticados, pois pulsam
em sincronia com sinais infravermelhos. O preço dos óculos gira em torno
de US$ 55 e eles podem ser utilizados na mesma quantidade de vezes que o
Dolby. O problema com este sistema é que os óculos podem ter problemas
com a bateria elétrica e com seus conectores. Outro problema é o rompimento
da cápsula de LCD (cristal líquido), que vaza. Recentemente, foi
lançado um modelo que pretende corrigir tais problemas.
Apenas os óculos descartáveis da Real D exigem a aquisição de uma
lavadora especializada. Elas trabalham em alta temperatura, esterilizando
e aplicando líquidos secantes que evitam as manchas provocadas pelas
gotas d’água. Além da lavadora, é recomendável a compra de dispositivos
antifurto, como os usados nas lojas de departamentos, que disparam um
alarme quando alguém atravessa transportando os óculos. Esses podem
ser de fabricação nacional, em modelos que ajustam a frequência de uso.
Outra recomendação importante é que se tenha o dobro de óculos da
lotação do cinema, visto que enquanto um grupo de óculos é usado, o
outro é lavado.
10. OS EXIBIDORES PODEM COBRAR VALORES
ADICIONAIS NO INGRESSO PARA A EXIBIÇÃO DE
FILMES EM 3D? COMO ESSE VALOR É CALCULADO?
O exibidor tem a liberdade de cobrar o preço que lhe interessar. No Brasil,
os principais exibidores têm cobrado um valor adicional entre R$ 5 e R$ 8.
Se, por exemplo, o preço é de R$ 18, o valor do ingresso ficará entre R$ 23
e R$ 26. A questão é que este adicional não pode ser destacado do preço
final, permanecendo o direito da meia-entrada – portanto, o distribuidor
terá direito a participar sobre o valor total do preço da entrada. Nos três
primeiros lançamentos realizados pela PlayArte em 3D, foi permitido que o
exibidor retivesse todo o valor adicional. Esta fórmula, porém, não foi aceita
por nenhum outro distribuidor.
11. É NECESSÁRIO TROCAR A TELA DOS CINEMAS QUE PROJETARÃO FILMES 3D?
A troca da tela mate por telas de alta
reflexão (fator 1.8 ou 2.2) só é recomendada
quando se utiliza o processo
Real D ou quando se estiver no limite
da luminosidade dos projetores digitais,
o que pode evitar a aquisição de um
projetor de maior luminosidade ou de
um segundo projetor para telas maiores
que 13,5 metros de largura.
12. O EXIBIDOR PODE OBTER
PATROCÍNIOS E MERCHANDISING
PARA AS PROJEÇÕES 3D?
Pode, desde que não se vincule o patrocínio
com os personagens ou com os direitos
promocionais do filme em exibição.
13. OUTROS TIPOS DE CONTEÚdO PODEM
SER EXIBIDOS NOS EQUIPAMENTOS
3D? E FILMES DIGITAIS COM A
RESOLUÇÃO 1,3K (TIPO RAIN
NETWORkS) OU 2K (PADRÃO DCI)?
O projetor DLP Cinema usado nas
projeções estereoscópicas é o mesmo
projetor no padrão DCI. Com poucas
operações rotineiras ele realiza projeções
de filmes digitais em 2D no padrão
DCI. Além disso, também está apto a
exibir outros formatos. Os fabricantes
produzem switchers que selecionam o
tipo de material fornecido, seja por meio
de processadores digitais, seja de gravadores
(Betacam digital, DVCam, DVD,
Blu-ray), remetendo o sinal ao projetor
de forma adequada.
14. TODO FILME EM 3D ESTÁ DISPONÍVEL NO FORMATO IMAX?
Não. A IMAX produz conteúdos específicos para seus
cinemas, com formatos e proporções de telas e sonorizações
diferentes do cinema tradicional. O que de
fato mudou é que a IMAX deixou de usar os projetores
15/70mm para dispor de dois projetores digitais que
exibem nas mesmas telas e proporções dos sistemas
de projeção anterior. Apenas alguns blockbusters são
lançados também em IMAX, nem todos em 3D.
15. O PROJETOR SXR D DA SONY (4K) PERMITE A
PROJEÇÃO DE FILMES EM 3D?
15 Só recentemente os projetores SXRD fabricados pela SONY, aptos
para exibir filmes em uma resolução ainda maior (4K), estão
sendo adotados para projeções em cinema, devido à sua pouca
luminosidade e ao seu complexo processamento de quatro chips
simultâneos com 1K de resolução cada. Os processos estereoscópicos
utilizados nos projetores DLP Cinema não são compatíveis
com esse tipo de projetor. A Real D lançou um processo
totalmente diferente dos demais, que vem sendo adotado por
algumas empresas, com bons resultados.
16. OS SISTEMAS DE PROCESSAMENTO 3D SÃO
DEFINITIVOS OU HAVERÁ OUTRAS TECNOLOGIAS
QUE VÃO SUCEDÊ-LOS?
Os especialistas acreditam que os atuais sistemas
estereoscópicos serão aperfeiçoados, melhorando a
resolução e a nitidez da imagem. Porém, já existem
outros processos, em desenvolvimento, que dispensam
o uso dos óculos. Um deles pode ser visto no
site www.musionmedia.co.uk.
17. O GOVERNO TEM ALGUM PLANO
PARA DIGITALIZAR CINEMAS 3D?
O governo, por meio da Ancine e do BNDES,
estuda algumas formas de financiamento destinadas
à digitalização das salas de cinema no Brasil, com a
preocupação mais específica que se atenda a todos
os cinemas no país e não apenas aqueles com maior
potencial econômico. Não há qualquer estudo ou
plano específico para os cinemas 3D.
18. O 3D É UMA MODA QUE PASSARÁ LOGO OU ELE
VEIO PARA FICAR?
Como existem pesquisas que levam ao 3D sem óculos e
também estudos para a introdução da projeção tridimensional
no homevideo e na televisão, indica-se que a projeção
3D será uma tendência de longo prazo, assim como o som
e a cor foram no passado. As projeções 3D já estão sendo
usadas para transmitir espetáculos esportivos e musicais.
Nem todos os filmes utilizarão essa tecnologia. É importante
lembrar que, entre a sala de cinema e as tecnologias de
alta definição domésticas, as projeções 3D em tela grande
são um importante diferencial.
19. QUANDO O 3D CHEGARÁ AO DVD E À TELEVISÃO?
Esta é uma questão controversa. Os estúdios anunciam
que, em breve, lançarão o 3D em homevideo,
mas as tecnologias existentes ainda não permitem
uma exibição de boa qualidade.
A digitalização das transmissões de televisão está apenas
começando, com uma resolução de imagem muito
inferior ao necessário para projeções tridimensionais.
A NHK, a emissora que é conhecida como a vanguarda
das tecnologias da televisão, sugere que as exibições
3D para as emissoras só começarão em 2025.
20. HÁ POSSIBILIDADE DE SE TER UM SISTEMA 3D COM
BOA QUALIDADE UTILIZANdO A PELÍCULA DE 35MM?
As exibições 3D em película de 70mm (IMAX) têm altíssima qualidade,
superior à dos sistemas digitais 3D. O mecanismo é complexo
e caro, com a projeção simultânea de duas cópias 70mm
a 48 quadros por segundo. Recentemente, a IMAX começou a
substituir seus projetores 70mm por dois projetores digitais de
alta luminosidade. As projeções 3D em 35mm sempre foram
deficientes. Contudo, a Technicolor desenvolveu um sistema de
projeção que foi apresentado no último ShowEast. Aqueles que
viram os seus testes ficaram satisfeitos. Alguns estúdios, porém,
não concordaram em ofertar seus títulos no sistema, especialmente
a Disney/Pixar e a Fox, que têm lançamentos importantes
em 3D. Outra reação negativa partiu de alguns exibidores norteamericanos.
Eles avaliam que a exibição em qualidade inferior
poderá prejudicar a imagem pública do 3D junto aos espectadores,
afetando a confiança em sistemas de projeção digitais,
nos quais essas empresas fizeram pesados investimentos. É cedo
para avaliar a repercussão da oferta da Technicolor, mas é bom
lembrar que esse laboratório tem grande prestígio e pertence à
Thomson, um grande conglomerado das telecomunicações.
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