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O BNDES tem sido um dos principais aliados do governo no estímulo à atividade
audiovisual no Brasil. Inicialmente focado no estímulo à produção de filmes, o
banco aumentou seu escopo de atuação a partir da criação do Departamento de
Economia da Cultura (Decult), fundado em 2006. Na entrevista a seguir, Luciane
Gorgulho, chefe do departamento, analisa o papel do banco no desenvolvimento
do setor. Também participaram da conversa os gerentes de departamento Patricia
Alexandre e Marcelo Gondenstein.
Por Pedro Butcher
O que mudou na atuação do BNDES
no setor audiovisual nos últimos
anos?
LUCIANE – Desde 1995, o BNDES
tem apoiado sistematicamente o cinema
brasileiro. Mas esse apoio começou com
uma lógica de patrocínio, ligada ao departamento
de comunicação do gabinete
da presidência. Em 2005, começamos a
trabalhar o lado econômico dos setores
culturais, o que acabou resultando na
criação do Departamento de Economia
da Cultura. Com o Decult, que começou
a funcionar em junho de 2006, a cultura
foi elevada ao status de setor econômico
dentro do banco, que passou a olhar para
o audiovisual como olha para a siderurgia,
a informática, ou qualquer outro setor,
observando como se dá a cadeia produtiva,
onde está a geração de valor, onde
estão os gargalos e, a partir daí, utilizando
suas linhas de financiamento para tentar
suprir necessidades e induzir o desenvolvimento.
No audiovisual, temos três
instrumentos para fazer isso: o edital para
a produção, que foi reestruturado; o Procult,
linha de financiamento criada para o
setor, e os Funcines.
Que alterações foram feitas nas regras
dos editais de produção?
LUCIANE – Criamos uma categoria voltada
para a finalização, aumentamos o valor
máximo do apoio à produção e alteramos
os critérios de seleção. Até 2001,
o banco destinava em média R$ 236 mil
por filme, o que representa cerca de 10%
do orçamento médio de um longa-metragem
brasileiro. Como resultado, vários
projetos aprovados não conseguiam
completar a captação. No edital de 2006,
o valor médio do investimento pulou para
R$ 640 mil. Paralelamente, diminuímos a
quantidade de filmes apoiados. Ou seja,
deixamos de pulverizar recursos e resolvemos
focar mais.
PATRÍCIA – Um dos itens que entraram
no edital foi um plano de negócios que
indicasse as perspectivas do filme, sua
posição financeira, o plano de distribuição
e a rentabilidade esperada.
LUCIANE – No primeiro ano em que
exigimos o plano de negócios, houve
certo rebuliço no setor. O pessoal dizia
que não sabia fazer. Mas, pelo retorno
que tivemos, só o fato de precisar elaborar
um plano ajudou as produtoras a se
organizar melhor. Essas medidas tiveram
efeito imediato. Nos primeiros editais, os
filmes demoravam em média 33 meses
para estrear. Nos últimos, a média de lançamento
caiu para nove meses. Os projetos
apoiados até 1999 foram vistos, em
média, por 164 mil espectadores. Entre
2000 e 2004, esse número passou para
249 mil e nos anos mais recentes, o público
médio foi de 564 mil. Ou seja:
o ciclo de produção diminuiu e os
filmes contribuíram para um maior
impacto de bilheteria.
Nos editais, qual o formato de
investimento do banco?
LUCIANE – O banco é um dos poucos
agentes que continuam utilizando o artigo
1º da Lei do Audiovisual. Dá muito
mais trabalho, mas está de acordo com
nossa linha de pensamento. Com o artigo
1º, o investidor se torna sócio do
filme e ganha um certificado que dá direito
a royalties baseados no resultado
do filme. Na realidade brasileira, o que
se recebe de retorno é ínfimo. Ao todo,
o BNDES desembolsou R$ 118 milhões
nos editais, e o retorno não chegou a R$
2 milhões. Pela lógica do investidor, e se
não houvesse o benefício fiscal, seriam
R$ 116 milhões de prejuízo. É claro que
nem todo filme vai gerar retorno, mas,
de modo geral, as produtoras precisam
ter uma carteira que leve em conta o retorno
financeiro.
Qual a principal motivação para a
criação do Procult?
LUCIANE – Foi oferecer ao setor linhas
de crédito para reduzir a dependência de
incentivos fiscais. Fizemos um diagnóstico
para cada elo da cadeia (produção,
distribuição, exibição e infraestrutura) e
definimos condições diferenciadas. O
valor mínimo para fazer uma operação
foi estabelecido em R$ 1 milhão (para
outras linhas é R$ 10 milhões), os custos
financeiros foram reduzidos e houve
dispensa de certas regras internas de exposição
ao risco. A questão das garantias
também foi alterada. Foram dispensadas
condições de hipoteca e garantias reais
típicas, desde que houvesse vinculação
de recebíveis. Temos testado várias fórmulas,
e as que têm dado mais certo são
a vinculação da bilheteria, no caso da
exibição, e a vinculação de contratos, no
caso da produção.
Como funciona a vinculação de bilheteria?
PATRICIA – A receita bruta dos complexos
construídos com recursos do Procult
é depositada em uma conta-arrecadadora,
administrada por um banco que tem a
obrigação de reservar a próxima prestação
a ser paga ao BNDES. O restante é
liberado para a conta do exibidor, de livre
movimentação. Como este é um negócio
que tem forte sazonalidade, durante
o período de carência é constituída uma
conta reserva que fica bloqueada até a duração
do financiamento.
E a vinculação de contratos, no caso
da produção?
LUCIANE – Nesse caso, realizamos um
adiantamento de recursos garantidos, aos
quais o produtor só poderá ter acesso no
futuro. A primeira produtora que utilizou
essa modalidade foi a Movi&Art, com Última
parada – 174, de Bruno Barreto. Eles
tinham um contrato com a Paramount,
mas os recursos só seriam liberados com
o filme pronto. A Movi&Art antecipou esse valor no BNDES e nós tomamos como garantia
o contrato da Paramount. Acabamos
de fechar um contrato semelhante com
Lope, da Conspiração. O financiamento foi
possível graças à vinculação ao contrato da
Warner e ao contrato de Artigo 1º com a
Telefonica, cujos recursos só serão liberados
no ano que vem. Quando a produtora
recebe esse dinheiro, devolve ao banco
em uma parcela única.
Exibidores nacionais e estrangeiros
têm o mesmo acesso ao
Procult?
PATRÍCIA - Todas as empresas estrangeiras
que entram no Brasil e estabelecem
sede aqui são consideradas
brasileiras, não há como o BNDES
discriminá-las. Mas, no caso de uma
empresa com controle estrangeiro, o
custo financeiro é diferente e pode ser
bem mais alto. Enquanto o financiamento
ao empresário nacional utiliza a
TJLP (Taxa de Juros de Longo Prazo), o
financiamento à empresa com controle
estrangeiro utiliza a “cesta de moedas”.
Além da remuneração básica do BNDES,
o custo financeiro inclui variação
cambial, custo de captação do BNDES
no exterior e o spread de risco.
Qual a importância do Funcine?
LUCIANE – O Funcine é um fundo de
investimento, e o BNDES tem tradição
de trabalhar com fundos desde 1994,
quando eles foram regulamentados. A
idéia é criar um condomínio de investidores,
com gestão privada feita por uma
empresa especializada. Sua lógica principal
é investir em uma empresa que ainda
está em estágio inicial, fazer essa empresa ampliar seu valor e trabalhar a liquidez
(abrir o capital, realizar uma venda estratégica).
É uma modalidade bem vista
pelo banco e muito utilizada em outros
setores. Hoje, o BNDES é investidor em
31 fundos, com patrimônio total de R$ 8
bilhões. A diferença do Funcine é que o
investidor ganhou direito a incentivo fiscal.
Para investimentos em Funcines, o banco
definiu um orçamento anual de R$ 25 milhões
entre recursos próprios e incentivados,
podendo investir em quatro a cinco
fundos por ano.
Como funciona o incentivo fiscal
dos Funcines?
PATRICIA – Quando você adquire cotas
de um Funcine, pode abater 100%
do valor investido no imposto de
renda a pagar.
LUCIANE – O incentivo é muito
importante para reforçar a tese de
venda ao investidor. De todos os instrumentos
que temos hoje, aquele
em que mais acredito é o Funcine. O edital
coloca recursos, mas depois não existe
um acompanhamento real. O Funcine
traz uma lógica diferente. Acredito muito
no papel da governança, principalmente
num setor desorganizado e cheio de distorções
como é o setor do audiovisual.
A governança significa você ter um gestor
acompanhando, uma auditoria independente.
Tudo isso coloca o produtor com
um olhar diferente.
PATRICIA – O mais importante é que um
filme pode dar muita ou pouca bilheteria,
porque o Funcine é alinhado a uma lógica
de carteiras. Isto é, mesmo que alguns filmes
não atinjam resultado financeiro, dois
filmes de sucesso podem sustentar uma
carreira de dez, 12 filmes.
Como está a participação do BNDES
nos Funcines até agora?
LUCIANE – A regulamentação do Funcine
saiu em 2003 e, em 2005, houve um
investimento no Fundo da Rio Bravo – RB
Cinema 1, no qual o banco atuou como
um piloto. Esse fundo hoje tem um patrimônio
de R$ 15 milhões e investiu em
onze filmes, na estruturação de um agente
de vendas internacional e, recentemente,
o comitê gestor do fundo aprovou um investimento
minoritário na Conspiração. É
a primeira vez que um fundo investe em
uma empresa produtora.
MARCELO – Esse será o primeiro investimento
em participação acionária, algo que
o banco quer estimular. Afinal, os fundos
foram criados principalmente para isso.
E o Funcine Lacan-Downtown, voltado
para a distribuição?
LUCIANE - Analisando o resultado do
Procult, observamos que as distribuidoras
independentes não se interessaram em
recorrer a recursos do banco para concorrer
com as majors, que tinham dinheiro
100% incentivado do artigo 3º. Criamos
então uma modalidade de Funcine focado
na distribuição. O primeiro a ser estruturado
foi o da Lacan Investimentos,
em parceria com a Downtown, uma das
distribuidoras mais ativas no lançamento
de filmes nacionais. O fundo contou com
metade de recursos do BNDES e metade
de investidores privados, e já investiu
em Divã, Tempos de paz e Salve geral. Recentemente,
aprovamos o investimento
em Roque Santeiro. Divã já foi um caso
de sucesso. Todos os filmes que tinham
potencial de blockbuster costumavam ficar
com as majors, que têm R$ 3 milhões disponíveis
(limite por filme) no artigo 3º. As
distribuidoras nacionais ficavam sem condições
de disputar.
Como está o projeto de apoio à
construção de salas de cinema em
cidades com mais de 100 mil habitantes
que não têm cinema?
LUCIANE – Estamos desenvolvendo com
a Ancine um programa que tem sido chamado
de “PAC Exibidor”, com o objetivo
de ampliar o circuito de salas em cidades de menor porte e em áreas de classe C e
D. Estamos trabalhando fundo nessa parceria,
de forma que a gente possa associar
os recursos do Fundo Setorial. Não é um
financiamento reembolsável a custo fixo.
O BNDES deverá ser o agente financeiro,
operador de uma linha nova do FSA exclusivamente
voltada para a expansão das
salas de exibição.
Existe a possibilidade de o BNDES
participar do processo de transição
digital no Brasil?
LUCIANE - Sim. Uma das possibilidades
é ter uma fábrica de projetores digitais
no Brasil. O BNDES poderia financiar a
implantação da fábrica, embora isso não
me pareça um problema – nesse caso, a
negociação seria feita com o departamento
que trabalha com a indústria
microeletrônica. A consulta que estão
nos fazendo é se o BNDES poderia
financiar a compra dos projetores
pelos exibidores. Estamos estudando
as condições. A rigor, os exibidores já podem
pegar financiamento aqui para comprar
equipamento, mas a transição digital
tem uma questão complicada. Os donos
de cinema entendem que, com exceção
do 3D, o modelo digital não tem impacto
de bilheteria, e só os distribuidores lucram
com ele. Nos EUA, desenvolveram um
modelo em que os distribuidores arcam
com a maior parte dos custos, chamado
virtual print fee (vpf). Estamos tentando replicar
esse modelo. O pagamento do vpf
seria uma garantia para o financiamento.
A questão é que há muitos elementos
em jogo, e eles precisam estar combinados.
Com a expansão de salas, muitos
exibidores já estarão comprometidos com
financiamento. Em segundo lugar, a Christie,
fabricante de projetores digitais, só se
interessa em montar a fábrica se houver
escala mínima, e para se ter certeza de escala
mínima é preciso saber se o BNDES
financiará a substituição de equipamentos.
Para nós é uma questão essencial que a
digitalização atenda a todos - grandes e pequenos
-, de forma a haver uma expansão
sustentável e inclusiva do parque exibidor
em todo o país.
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