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por
Ana Paula Sousa
A crise do mercado de homevideo no Brasil antecedeu, e
muito, a crise financeira que vem deixando o mundo
irrequieto desde o fim do ano passado. Entre 2006 e
2008, o número total de DVDs vendidos no país caiu cerca de
14% (de 28,7 milhões para 24,7 milhões). Desse total, a venda
para locadoras teve uma queda bem mais acentuada, de 8,5 milhões
de unidades para 4,6 milhões – ou seja, 45%.
Quais as razões para queda tão abrupta? E que efeitos esse encolhimento
pode ter sobre o mercado cinematográfico, uma
vez que as mais fortes distribuidoras independentes do cinema
atuam também no mercado de DVDs, e cerca de 70% dos valores
do artigo 3º da Lei do Audiovisual vêm das receitas (inclsive
das majors) do homevideo?
Para responder a essas perguntas é preciso, em primeiro lugar,
admitir que a pirataria, apesar de ter interferido diretamente
nesse quadro, não riscou a curva descendente sozinha. Outros
fatores concorreram para a crise que reduziu o mercado a patamares
semelhantes aos de uma década atrás.
Ao contrário do que acontece em boa parte dos países, o mercado
brasileiro de homevideo sempre esteve assentado na locação,
enquanto na Europa e nos EUA a venda direta ao consumidor
(sell-thru) é a base do negócio. A crise brasileira tem suas origens,
portanto, na queda das vendas para locadoras. Hoje, segundo a
União Brasileira de Vídeo (UBV), há cerca de oito mil locadoras
no país. Entre 2003 e 2005, havia 12 mil. Pelos cálculos da presidente
da UBV, Tânia Lima, a pirataria domina 60% do mercado.
Num ambiente em que a locação respondia
por pelo menos 70% do mercado,
a entrada dos grandes varejistas
no jogo foi, na visão de muita gente, um
golpe e tanto. “A venda canibalizou a locação
mais rápido do que poderíamos
imaginar”, diz Wilson Cabral, diretor da
Sony Home Entertainment. “As videolocadoras
perderam o timing da venda.
As distribuidoras, por sua vez, também
não foram atrás do varejista, o
varejo é que procurou as empresas.
O sell-thru entrou com
preços muitos baixos e, com
isso, o próprio consumidor
perdeu o referencial. Houve
uma banalização do produto.”
Maior comprador de DVDs do
Brasil, as Lojas Americanas repetiram
o que foi feito na época
áurea do CD, passando a
trabalhar com preços baixíssimos e aderindo
aos grandes cestos onde os produtos
são “pescados” pelo consumidor. Ao
adquirir as 127 lojas da Blockbuster, em
2007, as Americanas reduziram o espaço
físico para locação e acabaram por
desvalorizar a relação do consumidor
com o aluguel.
Na opinião de Fred Botelho, dono da
2001 Vídeo – rede especializada que
possui lojas em bairros nobres de São
Paulo –, ao temerem o varejo, as locadoras
criaram uma armadilha para o próprio
negócio. “Elas vendiam sorvete, cartão
de celular, tudo, menos filmes. Os donos
de locadoras sempre tiveram medo
de que a venda atrapalhasse a locação, o
que foi um erro. As vendas representam
metade do meu faturamento.”
Botelho assegura que na 2001 Vídeo
não há crise. Logicamente, a rede herdou
parte dos clientes da Blockbuster
depois que esta foi vendida, mas não se
trata só disso. “O que aconteceu, entre 2003 e 2006, é que o mercado cresceu
demais. Isso tinha acontecido já na época
do VHS, quando todo mundo vendia
seu carro, pegava o FGTS e abria uma
locadora”.
Uma “coincidência de fatores” levou ao
encolhimento do mercado, segundo
Fred Botelho. “O DVD, quando surgiu,
virou um objeto de desejo, era sinal de
status, de cultura. As pessoas compravam
compulsivamente. Isso passou. No
caso das locadoras, talvez esteja havendo
apenas uma readequação. Isso, claro,
sem falar em internet, pirataria. Mas havia
um excesso de locadoras.”
Quem partilha dessa opinião é Stella
Natale, responsável pela área de DVDs
da Imovision, distribuidora independente
voltada para o segmento de arte.
“Pegaram a pirataria para cristo, mas a
verdade é que esse mercado viveu uma
temporada de excessos. Houve uma
espécie de bolha. Alguns representantes
comerciais chegaram a ganhar
R$ 30 mil de comissão em apenas um
mês”, diz Estela.
Cabe notar que, por mais que
vendam para o varejo, as distribuidoras
jamais terão a mesma margem
de lucro. Enquanto uma peça
sai por R$ 90 para as locadoras,
no sell-thru, em média, esse valor
cai para aproximadamente R$ 20.
“Como o mercado vem caindo,
reduzimos os preços para o varejo
porque eles vendem em escala.
Trabalhamos hoje com um preço
40% menor que há três anos”, confirma
Wilson Feitosa, da Europa. “Todos nós baixamos
as tiragens também. Vendíamos 70
mil cópias; hoje, não passamos de 30 mil.”
A queda na venda de DVDs de filmes
brasileiros é um bom exemplo do redimensionamento
do mercado. Campeão
de público entre os filmes nacionais em
2008, com mais de dois milhões de espectadores,
Meu nome não é Johnny vendeu
apenas 48 mil discos – sendo 18 mil
para locadoras e 30 mil em sell thru. Para
se ter uma idéia, Dois filhos de Francisco,
em 2005, vendeu 485 mil cópias.
Em março deste ano,
em compensação,
Bezerra de Menezes
- O diário de um
espírito, apresentou
números surpreendentes,
com 31 mil
unidades vendidas
em apenas 20 dias.
Mas trata-se de um
filme de tema espírita,
com um nicho
específico.
Para as distribuidoras, sobretudo as independentes,
a nova equação do vídeo
tem se mostrado delicada. “A queda na
locação tem um impacto muito grande”,
diz Eusébio Munhoz Junior, diretor comercial
da Califórnia Filmes. “Quando
lanço um filme, já paguei por ele, por isso
dependo do retorno para pagar o que
investi. Com a queda do faturamento
e a desvalorização da moeda, estamos
com uma operação difícil.”
Situação semelhante vive a Videofilmes,
que trabalha com títulos de viés autoral
e muitas produções européias. “O
último ano foi muito duro. Paramos de
comprar filmes comerciais porque são
muito caros e, sem o retorno do DVD,
é muito difícil que se paguem”, revela
Luiz Bretz, diretor da empresa. “Faz
uns dez meses que decidimos parar de
comprar para ver o que acontece no
mercado.” Bretz observa que, em geral,
as empresas compram os direitos
para todas as mídias, já sabendo que é
no cinema que está o maior risco, e, no
vídeo, a chance de recuperação. “Sem
o amortecimento do vídeo, todos ficam
cautelosos”, aposta.
CINEMA ALTERNATIVO PODERÁ SOFRER MAIS
Para Bretz, não há dúvida de que a crise
do mercado de homevideo atingirá, em
breve, os lançamentos em cinema. Ele
acredita que o cinema alternativo, que em
geral chega pelas mãos das distribuidoras
independentes, deverá sofrer mais. “Pode
até ser que isso não tenha acontecido ainda,
porque as compras são feitas antecipadamente.
Mas sei, por exemplo, que
não vale a pena lançar pequenos filmes
europeus em DVD. Isso significa, consequentemente,
que esses filmes também
não devem chegar nos cinemas.” A Videofilmes
lançava um filme europeu por
mês. Agora, lança um a cada três meses.
Bretz afirma que metade do problema
está na pirataria e outra metade na
concorrência pelo tempo das pessoas,
cada vez mais absorvidas pela internet e
variadas formas de entretenimento doméstico.
De acordo com ele, o mercado
norte-americano produzia, há uma década,
cerca de 500 filmes por ano. Com o
DVD e a tevê a cabo, esse número saltou
para mil. “Mas, com a queda do mercado
de vídeo, não haverá recursos para fazer
filmes na quantidade de antes.”
Outro risco é que se opte, cada vez mais,
pelo lançamento direto no vídeo, já que,
como todos sabem, colocar um filme
no circuito exibidor tem um custo nada
desprezível. Cabral, da Sony, pondera
que essa conta é altamente variável, mas
exemplifica: “Às vezes, um filme como
Punisher - War Zone, lançado direto em
vídeo (com o título O Justiceiro em Zona
de guerra), dá muito mais lucro para a
companhia porque não teve os custos
do lançamento em cinema”.
A Califórnia lançará O amante (The Other
Man), de Richard Eyre, com Liam Neeson
e Antonio Banderas, direto no vídeo.
A Europa, por sua vez, recuou nos lançamentos
de blockbusters. “Para um filme ir
bem no vídeo, ele precisa ter ação, um
elenco conhecido e, em geral, essas aquisições
são muito caras. Como o mercado
está complicado, é difícil apostar no retorno
disso”, explica Feitosa.
Munhoz, da Califórnia, diz ainda que,
devido à redução do espaço nas locadoras,
o próprio lançamento em vídeo tem
de ser cada vez mais bem pensado. “Temos
que oferecer um produto grande,
um produto que elas não tenham como
recusar.” Ele cita como exemplo As duas
faces da lei, com Al Pacino e Robert de
Niro, o filme mais alugado no Brasil em
janeiro. “Estamos buscando filmes de
primeira grandeza.”
ARRECADAÇÃO DO ARTIGO 3º JÁ CAIU
Um dos efeitos preocupantes da queda
de faturamento no Brasil diz respeito à
utilização do Artigo 3º da Lei do Audiovisual,
que permite às majors e às distribuidoras
independentes que remetem
royalties para o exterior a aplicar parte
do imposto sobre as remessas em produções
nacionais. Os números de 2008
ainda não haviam sido fechados pela Ancine
até o fim de março, mas de 2006
para 2007 a arrecadação geral do Artigo
3º já havia caído 30%.
Segundo Cabral, em 2005, 70% do
que a Sony investiu em cinema brasileiro,
via Artigo 3º, vinha do vídeo. Em 2006, 60%. “Para simplificar, é possível
dizer que, para cada real vindo do cinema,
são colocados R$ 2 do vídeo. Não
tenho dúvida de que o investimento
diminuirá”. Luiz Bretz tem outra conta
feita na ponta do lápis. “Como o mercado
caiu cerca de 50%, se você conseguia
R$ 50 milhões por ano, conseguirá
metade disso, o que significa uma perda
de dez filmes brasileiros fortes
por ano”.
Os riscos da crise, como se
vê, não são poucos. E quais
seriam as saídas? A indústria
responde, em coro, que o pó
de pirlimpimpim é o Blu-ray. O
ponto de interrogação surge,
porém, quando se sabe que,
para aproveitar a alta definição do novo
formato, é preciso não só um novo aparelho,
mas também uma TV adequada.
Em compensação, ao contrário do que
aconteceu com o VHS, o Blu-ray reproduz
também o DVD normal – portanto,
o consumidor não precisará repor sua
filmoteca imediatamente. “Já passei por
todas as mudanças de formato, desde a
indústria fonográfica. Num primeiro momento,
sempre se põe em dúvida a mudança
na base de aparelhos”, diz Cabral.
“O que tem acontecido é que a tecnologia
é cada vez mais veloz. O VHS durou
23 anos. O DVD, uns dez. Vamos ver o que acontecerá com o Blu-ray. Mas que
ele virá, virá.”
Fred Botelho tinha a idéia de começar
a alugar Blu-Ray no primeiro semestre
deste ano, mas, simplesmente, isso não
aconteceu. “Os clientes não têm demonstrado
interesse. E eu achava que,
pelo público que frequenta a 2001, seria
a primeira porta onde deveriam bater.”
CERCA DE 200 TÍTULOS FORAM LANÇADOS EM BLU-RAY
Ainda assim, a exemplo do que acontece
com a Sony, as outras majors, como
Fox e Warner, apostam muitas fichas no
novo formato que, em 2008, teve 202
títulos lançados e vendeu 93 mil unidades.
“Mas era o começo. Em 2009, isso
já mudará”, aposta Cabral. Mesmo com a
crise econômica? “Em tese, a crise pode
dificultar a aquisição de equipamentos
por parte da população. Por outro lado,
todos dizem que, em época de crise, o
homevideo cresce.”
Outro investimento da indústria é no
chamado entretenimento doméstico
– que não depende apenas dos filmes.
A Warner, por exemplo, registrou, de
2007 para 2008, um crescimento de
38% no número de unidades vendidas
de séries de tevê e, cada vez mais apostará
em games e download.
“A Warner deixou de se chamar Homevideo
para virar Home Entertainment.
Estamos interessados
em todo o entretenimento doméstico”,
pontua o diretor de
marketing Rodrigo Drysdale. Ele
lembra que, em 2008, o mundo
vendeu US$ 26 bilhões em DVD
e US$ 32 bilhões em games. A
empresa começará este ano a
disponibilizar filmes para download.
Wilson Zaveri, diretor comercial da
PlayArte, duvida que a integração entre
vídeo e internet ocorra tão cedo. “Deve
demorar ainda uns quatro anos para que
isso tenha um volume expressivo. O
Brasil é muito carente no que diz respeito
à banda larga”.
A despeito do cenário cheio de nuvens,
quem está há tempos no mercado
aposta que esta crise, como outras,
será superada. “O mercado de videolocadoras
sempre viveu de altos e baixos”,
resume Munhoz.
Recentemente reunidos no Mip-TV,
profissionais da área afirmaram ser difícil
prever o futuro do mercado de homevideo.
No Brasil, tendo em vista o cenário
atual, é provável que o DVD ganhe
uma sobrevida, pois a crise financeira
deve atrasar a implantação do Blu-ray
e a chegada maciça da banda larga. Daí
em diante, tentar adivinhar a rapidez e
o alcance da convergência seria apenas
um exercício de futurologia. Enquanto
isso, o DVD busca maneiras de se reposicionar
no mercado, como está acontecendo
nos Estados Unidos, onde as
locadoras estão oferecendo superpromoções
e as distribuidoras investindo
em estratégias de preço e marketing.
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