os últimos anos, a indústria audiovisual russa vem atravessando uma fase de crescimento exponencial em termos de volume de produção e arrecadação. Somente em 2004, a soma total das bilheterias aumentou 41% em relação ao ano anterior, e 86 longas-metragens foram produzidos – o maior número em mais de uma década.
Os números, porém, mal fazem sombra àqueles registrados durante a vigência do regime socialista. Em 1989, cerca de 150 filmes foram produzidos e quase dois bilhões de ingressos foram vendidos na União Soviética – uma média de 11 ingressos por capita. Com o início da década de 1990, uma crise avassaladora se instalou no setor, como conseqüência direta do desmonte das estruturas de produção, distribuição e exibição estatais. Entre 1991 e 1993, as salas de cinema perderam mais de 1 bilhão de espectadores; precisamente neste período, os estúdios norte-americanos iniciaram a tomada do mercado russo.
Nos primeiros anos depois da queda do regime, a indústria cinematográfica era um dos poucos setores que permitiam a aplicação de capital privado no país, de modo que o negócio ofereceu uma oportunidade excelente para a lavagem de dinheiro oriundo de negócios escusos. Com a oferta de novas oportunidades de negócio nos anos seguintes, o setor teve de arcar com o legado do dinheiro sujo, cuja injeção afastou o capital legal. O resultado foi uma crise brutal, com um total de apenas 12 filmes produzidos no ano de 1997.
Ao longo do período soviético, a responsabilidade pelo financiamento e gerenciamento de toda a indústria cinematográfica foi atribuída a uma série infindável de sucessivos órgãos governamentais. As funções de regulação estatal para o setor couberam ao Comitê de Cinematografia (Goskino) durante a passagem para o capitalismo. O Goskino russo, porém, seria radicalmente diferente de seu antecessor soviético, tornando-se apenas uma pequena parte da intrincada estrutura econômica da indústria.
Por iniciativa conjunta do Comitê e do Sindicato de Diretores, foi instituída em 1996 a Lei de Suporte Estatal para a Atividade Cinematográfica que regulamentou o financiamento público para a produção, distribuição e exibição de longas-metragens nacionais. A nova Lei designava mero 0,2% do orçamento anual da União para a indústria, mas instituía um mecanismo importante de isenção de impostos para os fundos alocados para o setor, incluindo aqueles originados pelo lucro obtido com a própria atividade. A Lei foi extremamente importante para a recuperação do setor nos anos seguintes.
Em maio de 2000, o governo russo adotou o Programa Federal para a Cultura Russa, que estabeleceu as metas e objetivos para a indústria cultural no quinquênio 2001-2005. O Goskino perdeu status ministerial, transformando-se em um órgão subsidiado ao Ministério da Cultura. O programa incluía provisões estatais na forma de suporte ao desenvolvimento sustentável da produção audiovisual nos anos seguintes.
Dois anos depois, o governo russo decidiu ampliar os fundos para a produção de filmes. A primeira etapa do processo foi a transformação do Ministério da Cultura na Agência Federal de Cultura e Cinema; foi criado um fundo para o setor, que é administrado pela nova agência. As metas do governo são ambiciosas: planeja-se lançar 100 longas-metragens russos nos cinemas, com 25% de market share até o ano de 2006. A agência é responsável por decidir quais projetos receberão os investimentos através da análise dos roteiros submetidos à sua avaliação; alguns dos critérios para a concessão dos recursos são: a utilização de "temas patrióticos" e "temas históricos".
A partir destas modificações, a distribuição dos subsídios tornou-se mais pulverizada, forçando os produtores a diversificar suas fontes de financiamento. O típico arranjo orçamentário de uma produção atualmente é mais ou menos a seguinte: 30% do orçamento vem de recursos do estado, 20% das companhias de produção, e 50% de outras fontes (como créditos bancários e venda de direitos para canais de TV, especialmente para a rede estatal Channel One). O volume de recursos estatais vem aumentando a cada ano: em 2004, RUB 1,9 bilhão (cerca de USD 70 milhões) foi distribuído para 72 produções; em 2005, foram aproximadamente RUB 2,1 bilhões.
Num primeiro momento o Estado incentivou todo tipo de filmes para aquecer o mercado, mas a intenção é cada vez mais diminuir a verba destinada para grandes produções, que têm boas chances mercadológicas, e aumentar o investimento destinado a filmes de arte, animações, documentários e filmes para crianças.
É importante notar que em 2002, a isenção de impostos sobre os lucros obtidos na exploração comercial de filmes foi abolida, ainda que a isenção do imposto local sobre a circulação dos bens (Value added tax (VAT), o equivalente do ICMS brasileiro) permaneça valendo.
O mercado exibidor russo tem a particularidade de contar com um grande percentual de salas antigas: o número é estimado entre 300 e 500 salas remanescentes dos tempos da União Soviética, em geral contando com equipamentos obsoletos e péssimas instalações. As salas modernas somavam em 2004 apenas 780 em todo o país, mas a expectativa é que o número chegue a 3.000 em 2010. Esta particularidade faz com que o preço do ingresso varie entre os 40 centavos de dólar cobrados nas "salas antigas" e 12 dólares cobrados nas "salas modernas".
Em razão do preço alto para os padrões locais (o salário médio russo é de aproximadamente 100 dólares mensais), estima-se que o total de público que freqüenta regularmente as salas do país some apenas 500 mil (em um universo de 144 milhões de habitantes). O custo elevado explica também o salto na arrecadação bruta das bilheterias, que supera em muito o aumento do número de ingressos vendidos. Vale notar que a participação de cadeias internacionais de exibição no país ainda é bastante pequena: até 2004, apenas o grupo National Amusements construiu salas na Rússia.
Em 2005 as grandes companhias de Hollywood começam a se interessar em co-produções com a Rússia: a Fox se associou à produção da franquia Night Watch e a Sony criou a joint venture Monumental Pictures com a produtora local Patton Media Group, que já tinha parte de seu capital de investidores americanos.