Índia possui uma das indústrias cinematográficas mais potentes do mundo. É o país que produz a maior quantidade de filmes e também o que atrai maior público. Em 2003, por exemplo, 877 longas-metragens foram realizados e 3,4 bilhões de ingressos foram vendidos. Com um detalhe: 95% desses ingressos foram para produções nacionais.
O mercado da Índia só não supera o norte-americano por um motivo simples: o preço médio do ingresso é extremamente baixo (apenas US$ 0,35). Em função disso, o país geralmente lidera com folga o ranking mundial como o país de maior público, mas não chega a ficar entre os primeiros quando o ranking é organizado por renda.
Na verdade, a Índia ainda conserva um modelo antigo da economia cinematográfica. Lá, diferentemente de tantos outros países, a televisão não chegou a substituir o cinema como principal lazer popular. Mal comparando, os filmes indianos exercem uma função semelhante à da telenovela no Brasil.
O principal eixo de produção da Índia está situado na cidade de Bombaim – que, por isso, ganhou o apelido de Bollywood. Os filmes produzidos lá, em sua grande maioria, contam a história de triângulos amorosos melodramáticos, com uma fórmula repleta de música e dança, em espetáculos de longa duração que duram mais de três horas e são exibidos com intervalo. Mas, ao contrário do que se divulgou no Ocidente, a produção de Bollywood não domina com exclusividade o mercado indiano, e, apesar de ainda ser hegemônica, está atravessando uma crise. A diversidade é maior do que se acredita e, muitas vezes, os filmes são produzidos para segmentos específicos, sendo falados, inclusive, em línguas diferentes.
Em 2003, por exemplo, foram realizados longas-metragens em 39 línguas e dialetos, um recorde mundial, segundo análise da jornalista Meenakshi Shedde feita para a revista Cahiers du Cinéma. Dos 877 filmes produzidos em 2003, 222 foram produções de Bollywood, realizadas na língua nacional (hindi), 151 foram falados em tamil, 155 em telugu, 109 em kannada, 61 em malayalam e 23 em inglês. Bollywood representa, portanto, menos de um quarto do total, apesar de deter a maior parte do mercado.
Apesar de robusta, a indústria cinematográfica da Índia sempre foi considerada desorganizada. O alto índice de pirataria e a participação de capital de origem obscura na produção de filmes chegaram a ameaçar seriamente a saúde do cinema local e sempre mantiveram afastados possíveis parceiros internacionais. Mas, a partir do ano 2000, o governo resolveu interferir e ajudar a organizar o setor, tornando-se inclusive co-produtor de boa parte dos filmes.
O órgão criado para ajudar a organizar a indústria indiana foi a National Film Development Corporation (NFDC), que substituiu a anterior e bem menos eficaz Film Finance Corporation. Em 2001, os longas-metragens foram legalmente transformados em “produtos industriais”, para que os produtores pudessem ter acesso a financiamentos bancários. Neste mesmo ano, o Industrial Development Bank do país criou seu primeiro fundo dedicado ao cinema, no valor de 100 milhões de rúpias. Também estão sendo implantadas sérias medidas de combate à pirataria.
De uma forma geral, os negócios ligados ao entretenimento na Índia são altamente taxados. A indústria de cinema, especificamente, está sujeita a uma variedade de impostos que podem consumir até 60% da receita, dependendo das taxas municipais do local de produção ou exibição do filme. Como parte das novas medidas do governo, estão sendo criadas formas de incentivo fiscal de âmbito nacional e regional para estimular investimentos na melhoria da infra-estrutura dos setores de produção e de exibição.
Segundo um amplo relatório divulgado pelo UK Film Council em 2002, “a introdução do sistema de financiamento institucional nas cadeias de produção, distribuição e exibição vão transformar a indústria cinematográfica na Índia”. O relatório afirma que a indústria está absorvendo traços de organização corporativa e que está mudando de um perfil de produção familiar para estruturas mais profissionais.
No setor da exibição, segundo o mesmo relatório, também são grandes as perspectivas de renovação do parque de salas e de uma nova expansão. É esperada a construção de mais de mil salas no formato multiplex nos próximos anos, graças a uma série de medidas de incentivo que estão sendo estabelecidas pelo governo. Os operadores de multiplex que quiserem construir em pequenas e médias cidades, por exemplo, terão até 50% de desconto em seus impostos por um período de cinco anos.
Uma ironia desta indústria única e gigantesca, é que apesar de fazer a maior quantidade de filmes do mundo, o cinema indiano é associado internacionalmente a diretores indianos que não vivem na Índia, como Mira Nair, Deepa Mehta e Gurinder Chadha.