s características muito particulares da história de Hong Kong explicam por que essa ilha, que não chega a ser um estado independente, é considerada um mercado à parte.
Até 1997, Hong Kong foi um centro capitalista encravado no território da China comunista. Ocupada pela Inglaterra em 1841, durante a primeira Guerra do Ópio, a ilha foi formalmente cedida pela China pelo Tratado de Nanquim, no ano seguinte. Durante a Segunda Guerra Mundial, Hong Kong permaneceu quatro anos ocupada pelos japoneses até ser reconquistada pelos britânicos, em 1945. Pouco depois, a vitória comunista na China continental provocou uma grande migração de refugiados chineses (e também de capital chinês), oriundos principalmente de Xangai. O embargo das Nações Unidas ao comércio com a China durante a Guerra da Coréia serviu como forte estímulo para que Hong Kong se transformasse, a partir de meados da década de 1970 e principalmente na década de 1980, em um importante centro econômico e comercial da Ásia. Em 1997, respeitando o tratado estabelecido no período colonial, a ilha de Hong Kong foi devolvida à China, que já vivia um processo de abertura econômica e política, que se comprometeu a não modificar a estrutura econômica e social da ilha.
Nas décadas de 1970 e 1980, Hong Kong floresceu como um grande pólo de produção cinematográfica, com produções locais (principalmente filmes de ação ultraviolentos) capazes de conquistar o mercado interno e que, aos poucos, foram sendo cultuadas no exterior. Ainda hoje, apesar da “era de ouro” de seu cinema já ter passado, Hong Kong continua sendo um dos mais importantes mercados cinematográficos do mundo.
Este mercado foi seriamente abalado, no entanto, pela crise da economia asiática nos anos 1990 e pela absorção de alguns talentos locais pelo cinema americano (como o cineasta John Woo e os astros Jackie Chan e Jet Li, por exemplo). Em função disso, o governo resolveu criar medidas para a proteção da indústria, que têm como objetivo principal manter Hong Kong como um dos pólos de produção da Ásia e do mundo.
A primeira medida da nova política cinematográfica foi a criação, em abril de 1998, do Film Services Office (FSO), órgão vinculado ao Television and Entertainment License Authority (TELA). Um ano depois, em abril de 1999, o FSO estabeleceu o Film Development Fund, fundo especial com duração de cinco anos, contando com um orçamento aprovado de HK$ 100 milhões e que foi destinado ao apoio de projetos que contribuíssem para o desenvolvimento da indústria cinematográfica local a longo prazo.
Até março de 2004, quando expirou a duração do fundo, o comitê responsável pela seleção aprovou 42 projetos nas mais diversas áreas, como, por exemplo, publicações sobre a indústria local, compilação de dados e pesquisas, promoção de filmes de Hong Kong em festivais e eventos internacionais, produção de filmes e programas de treinamento de pessoal, entre outros. Em 2005 o fundo foi re-lançado com um orçamento de 20 milhões de dólares para o mesmo ano.
Alguns dos projetos considerados mais importantes foram: o Fórum para o Financiamento de Filmes, a criação de um banco de dados de títulos e de informações sobre direitos autorais, o desenvolvimento de pesquisas de opinião junto ao público, o programa de estágio no exterior para animação computadorizada e criação de efeitos especiais, o workshop sobre tecnologia digital de alta definição para fotógrafos, além de programas de treinamento especiais para dublês e técnicos de efeitos especiais.
Em janeiro de 2003, HK$ 50 milhões deste fundo foram realocados para um outro fundo, recém-criado, destinado principalmente ao apoio à produção de longas-metragens (o Film Guarantee Fund, FGF). O FGF é destinado às instituições bancárias locais que ofereçam empréstimos facilitados para os produtores que tenham um contrato já assinado para a realização do filme. O empréstimo máximo garantido para cada filme é de 35% do valor do orçamento ou HK$ 2,65 milhões (o que for menor). Todas as companhias produtoras registradas em Hong Kong que tenham realizado pelo menos três filmes entre 1992 e 2001, com lançamento comercial em Hong Kong, estão aptas a concorrer ao empréstimo garantido.
Desde que foi “devolvida” à China, Hong Kong também vem sofrendo transformações econômicas importantes com conseqüências diretas na produção cinematográfica. Em junho de 2003, após a assinatura do “Hong Kong Closer Economic Partnership Agreement” (CEPA, um acordo para a maior aproximação da parceria econômica entre Hong Kong e a China), foram criadas várias medidas para facilitar o intercâmbio audiovisual entre Hong Kong e a chamada mainland, incluindo medidas que beneficiam o cinema de Hong Kong. Entre essas medidas está a liberação de impostos para a exibição de filmes de Hong Kong em território chinês, uma antiga reivindicação dos produtores locais que deve aumentar bastante as perspectivas de mercado dos filmes.
No ano de 2002, o cinema de Hong Kong conheceu um de seus maiores fenômenos de público com o sucesso do thriller Infernal Affairs, de Wai Keung Lau.
Nos primeiros meses de 2003, o pânico gerado pela SARS (Severe Acute Respiratory Syndrome) gerou uma brutal queda de público e fez com que exibidores fossem obrigados a cancelar muitas sessões e distribuidores adiassem estréias de filmes. O ano também registrou o menor número de produções de longas-metragens em película desde a Segunda Guerra Mundial, indicando uma retração dos grandes produtores, que diminuíram sua capacidade de investimento e ainda encontram dificuldade em superar as questões burocráticas que dificultam a ampliação da co-produção com a China. Ainda assim, antes do fim do ano o mercado como um todo se recuperou, apresentando alta de 16% na renda total em comparação com 2002.
Um mercado relativamente pequeno, com uma população de cerca de sete milhões de habitantes, mas de potencial enorme não só pela grande força da cultura cinematográfica no país (que conta com cerca de 18 milhões de espectadores), mas principalmente por sua ligação com a China continental, Hong Kong ainda hoje sofre as conseqüências de sua re-união com sua “terra-mãe” (em 1997).
Em 2003, o CEPA (acordo para aumentar o intercâmbio com a China continental) abriu a possibilidade para produtores de Hong Kong de exibirem seus filmes na China sem impostos de importação. Desde então, muitos produtores passaram a fazer seus projetos visando o mercado chinês, onde os grandes espetáculos são mais bem recebidos pelo público. Como conseqüência, os custos de realização dos filmes de Hong Kong se elevaram consideravelmente. Mas o mercado chinês, ainda assim, é para poucos, pois o comitê do governo não autoriza a distribuição de vários filmes de Hong Kong.
Em 2004, algumas produções de sucesso na China falharam no mercado de Hong Kong, como O clã das adagas voadoras e World Without Thieves, criando uma sensação de que o que funcionava para um mercado não funcionaria para o outro. Em 2005, os filmes de Hong Kong foram novamente fundamentais no mercado chinês, que atingiu um excelente market share graças, também, a estas produções. The Myth, estrelado por Jackie Chan, e Initial D, uma ação com carros de corrida, ficaram entre os dez filmes mais vistos tanto na China como em Hong Kong.
Com os custos em alta, a produção de filmes de pequeno e médio porte diminuiu drasticamente, fazendo com que o número de títulos produzidos em Hong Kong chegasse ao seu nível mais baixo. Em termos de quantidade de filmes nacionais no circuito local, 2005 foi o pior ano da história de Hong Kong: apenas 55 títulos nacionais foram lançados nos cinemas (contra 64 em 2004 e 79 em 2003). O número vem baixando desde o início dos anos 2000, mas há não muito tempo, especialmente nos anos 80 e 70, eram produzidos cerca de duas centenas de filmes anualmente.
Além das questões mal resolvidas com a China em si, a competição com os blockbusters americanos tem aumentado muito na última década, o que tem contribuído para diminuir o market share da produção local. Em 2005, esse índice atingiu um de seus índices mais baixos da história, ficando em 31,4%, contra cerca de 47% em 2004 e 2003 (na época de ouro, anos 70 e 80, a média era de 70%).
Depois de ter passado por uma grave crise em 2003, por causa da SARS e da pirataria (que ainda é muito grande), o mercado de cinema de Hong Kong recuperou-se em 2004, mas em 2005 os números voltaram a cair. A arrecadação ficou em 905 milhões de HK dólares (contra 946 milhões em 2004, uma queda de 5%).