om uma população de 1,3 bilhão de pessoas, a China é vista hoje como o país com maior potencial de crescimento para o cinema no mundo. Não por acaso, as grandes companhias norte-americanas de exibição e distribuição estão de olho na abertura deste mercado, algo que vem acontecendo gradualmente, apesar da resistência do governo.
Depois que o Partido Comunista assumiu o controle do país, em 1949, foi adotado o modelo soviético de produção e distribuição de filmes. Foram criados 16 estúdios nas mais importantes cidades, sendo os de Xangai, Pequim e Changcun os mais importantes. Eles funcionavam nos mesmos moldes de uma fábrica, com um número fixo de trabalhadores e um fluxo constante de produção.
Durante a Revolução Cultural iniciada por Mao Tse-Tung em 1966, a produção se intensificou. O cinema tornou-se uma das principais armas de propaganda ideológica e, como resultado, foram produzidos 603 filmes de longa-metragem, 8.342 cinejornais e numerosos filmes de animação, com o objetivo de “educar politicamente as massas”.
Nos primeiros anos de abertura da China, entre 1982 e 1991, o sistema de produção se manteve praticamente intacto, mas nesse período aconteceu um importante renascimento do cinema chinês (a chamada “Quinta Geração”), graças ao surgimento de novos talentos formados pela Academia de Cinema de Pequim, entre eles Chen Kaige e Zhang Yimou. A repercussão de seus filmes, porém, era principalmente internacional, e ainda havia forte rigor da censura na aprovação de roteiros para a liberação de recursos orçamentários. Muitos dos filmes chineses dessa época não foram lançados no próprio país.
O ministério da Cultura foi o órgão que centralizou o controle do cinema até 1986, quando foi criada a State Administration of Radio, Film and Television (SARFT), diretamente subordinada ao Conselho de Estado. Este novo órgão recebeu a tarefa de reorganizar o universo do cinema e da mídia tendo em vista a abertura econômica e as novidades tecnológicas.
Em 1992, o governo deu início a uma ampla reforma econômica que também atingiu a produção audiovisual. O resultado foi um sistema híbrido de produção audiovisual, de capital estatal e privado, mas em que o estado ainda se manteve como acionista majoritário. O principal fruto desse processo foi o estabelecimento de um imenso conglomerado que tem o objetivo de produzir lucro, ainda sob o rigoroso controle do governo, chamado China Radio, Film and Television Group. Ele possui duas subdivisões principais, o China Film Group e o China Central Television.
O China Film Group tornou-se a única empresa autorizada a importar filmes para exibição no país, com um limite de no máximo dez títulos por ano. Em 1994, O fugitivo, de Harrison Ford, fez história ao tornar-se o primeiro filme hollywoodiano exibido comercialmente na China. Por muito tempo, no entanto, ele continuou a ser uma exceção.
Na verdade, durante quase dez anos o controle estatal manteve-se praticamente intacto, com muito poucas mudanças efetivas. Até que, em fevereiro de 2002, foi aprovada uma lei permitindo a realização de filmes independentes, a formação de joint-ventures com o capital externo para a produção de filmes, e o lançamento de obras estrangeiras (exclusivamente por distribuidores nacionais), quebrando 50 anos de monopólio estatal.
Esta nova lei foi resultado de um acordo fechado em 2001 com a Organização Mundial do Comércio, no qual a China se comprometeu a autorizar investimentos estrangeiros para a construção e renovação das salas de cinemas e, também, a permitir a importação de, no máximo, 20 filmes por ano.
Em outubro de 2004, em um novo acordo com a Organizaçnao Mundial de Comércio este número de filmes importados subiu pra um teto máximo de 50 filmes por ano, para comercialização exclusiva nos cinemas. Além disso, a cadeia de televisão China Movie Channel ficou autorizada a importar 400 filmes por ano para transmissão televisiva.
Em 2002, o filme Herói, de Zhang Yimou, tornou-se a primeira produção independente, realizada com capital misto, que obteve grande sucesso de público na China, quebrando todos os recordes de bilheteria. O filme faturou US$ 29 milhões (245 milhões de yuans), provando que existe um imenso potencial para a realização de blockbusters nacionais.
Em outubro de 2004, a Warner anunciou a criação do primeiro joint-venture para a produção de filmes na China, com a formação da Warner China Film HG Corporation, em parceria com o China Film Group e o Hengdian Group. A nova empresa produzirá longas-metragens falados em chinês, filmes para a TV e filmes de animação.
Em razão das cotas de participação de capital estrageiro, as majors seguem investindo na consolidação de joint-ventures para a produção de filmes no país: a Warner anunciou a criação da Warner China Film HG Corporation e a Sony anunciou uma parceria para a produção de conteúdo para a TV. Seu braço cinematográfico, a Columbia, aumentou o investimento na produção local, com o objetivo de burlar a cota de importação e o acordo de divisão das bilheterias, que atribui ao produtor estrangeiro cerca de 13% da arrecadação. Com Kung-Fusão e World Without Thieves, por exemplo, a Columbia pôde negociar uma participação de 30% a 40% do total, por se tratar de uma produção doméstica. Em março de 2005, porém, a SARFT anunciou restrições às novas co-produções, restringindo a participação de grupos de mídia estrangeiros a somente um joint-venture por companhia.
Como não há no horizonte qualquer sinal de mudança no atual cenário da distribuição – ao menos até 2006, para quando está prevista a extinção das cotas –, em que as importações (no total de 50) são divididas entre duas companhias (a estatal China Film Group e a Huaxia Film Distribution, de capital misto) e repassadas a distribuidores regionais, estes últimos têm sido escolhidos pelas empresas estrangeiras como os principais parceiros na construção de novas salas.
A SARFT anunciou também em 2004 novas regras que permitiram aos produtores locais trabalhar com companhias independentes e não apenas estúdios controlados pelo estado. O resultado foi um aumento expressivo na produção, que saltou de 100 em 2002 para 212 em 2004. Subordinada ao Ministério da Propaganda, a SARFT também começou a praticar uma nova política em relação à censura, relaxando os procedimentos para a obtenção de permissões para filmagem. Acordos de co-produção com a Europa e Índia estão atualmente sendo articulados pelo governo local.
A questão da exibição
Aos poucos, o parque exibidor da China está sendo renovado. Alguns multiplexes já foram construídos no país, mas ainda há muita confusão em relação ao número de salas em funcionamento.
Durante o período comunista, grande parte da exibição se realizava em construções multifuncionais, espalhadas por cidades de médio e pequeno porte e até por áreas rurais, equipadas pelo governo com “unidades de projeção de cinema”. Muitas dessas salas ainda estão em funcionamento, apesar de estarem em franco declínio após a entrada do vídeo e do DVD. Segundo dados da Screen Digest, ainda existem 40 mil “unidades de projeção” em funcionamento na China.
Um relatório oficial da State Administration of Radio, Film and Television (SARFT) mostrou que existem duas mil salas com equipamentos modernos no país, sendo que, no fim de 2003, 336 dessas novas salas concentraram 46% de toda a renda. No fim de 2004, o país contava com o total de 2.396 salas modernas em 1.188 pontos; em 2005 este número passou para 2.670, em 1.200 pontos.
Em 2004, uma nova reforma legislativa aumentou de 49% para 75% a participação máxima do capital estrangeiro em cadeias de exibição, desde que as salas sejam construídas nas seis maiores cidades chinesas (Pequim, Xangai, Guangzhou, Chendgu, X’ian, Wuhan e Nanjim). No caso de cidades menores, a participação estrangeira continua sendo limitada a 49%.
Uma das empresas mais ativas na busca pelo mercado chinês é a Warner. Antes de anunciar a formação de uma joint-venture para a exibição, ela foi a primeira companhia hollywoodiana a investir na construção de cinemas. Em outubro de 2003, quando o teto da participação estrangeira ainda era 49%, a Warner anunciou planos de construir dez multiplexes em cooperação com o Shangai Cinema Group, num valor total de US$ 200 milhões. A mesma companhia estabeleceu outras parcerias importantes: uma com o Wanda Group, para a construção de 30 multiplexes, e outra com o Guangzhou Jinyi Film and Television Investment Co (para 10 multiplexes, em cinco cidades).
Com a colocação em prática da reforma de 2004 aumentando a participacão para 75%, o setor da exibicão vem passando por uma rápida e radical transformação; a Warner anunciou novos planos de construir mais 50 cinemas nos próximos três anos e companhias de Hong Kong vêm investindo maciçamente na formação de joint-ventures com a Shanghai United Cinema Lines.
A cadeia de cinemas IMAX também foi uma das primeiras a se interessar pelo potencial do mercado chinês e abriu seu primeiro cinema no país em 2002. Em 2005 a companhia anunciou novos 13 empreendimentos a serem abertos até 2008, juntamente com as negociações anteriormente iniciadas o novo anúncio eleva para 25 o número de cinemas da rede em construção na China, com isso o país será o segundo maior do mundo em cinemas do tipo IMAX, perdendo apenas para os EUA>
Além disso, o governo chinês anunciou investimentos pesados em projeção digital. Nos próximos cinco anos, serão construídas 500 salas digitais em áreas urbanas e duas mil em áreas rurais. O objetivo é ter 200 salas digitais em funcionamento já até o fim de 2005.